Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 44

Eu gritava e chorava feito uma louca em cima do corpo do meu irmão. Depois do que me pareceram umas 5 horas – talvez não tivesse passado de 5 minutos – eu decidi que precisava sair dali.

 

Não podia ficar pra sempre deitada em cima do corpo do Artur, apesar de essa ser minha vontade. Meu irmão era uma vítima da insanidade do meu pai e agora estava morto. Ele não merecia isso, o Artur precisava ser vingado. 

 

E foi justamente esse pensamento que me deu forças para me levantar. Enxuguei algumas lágrimas teimosas que ainda insistiam em cair e fui andando em direção a porta, que diferente do que pensei, não estava trancada. Com as pernas bambas consegui chegar no escritório, que já estava completamente escuro. 

 

Eu sabia que meu pai tinha uma assistente virtual, programada para acender a luz com apenas dois toques de palmas, e assim eu fiz, sendo obedecida segundos depois. 

 

Meu celular ainda estava no meu bolso, mas descarregado, então tive que usar o telefone fixo, o problema era que eu não sabia pra quem ligar. Pensei na minha mãe, eu teria muito prazer em comunicar que o suicídio do Artur tinha sido em parte – grande parte – culpa dela, mas eu não estava preparada para vê-la, não depois de saber que além de me rejeitar, ela fez pouco caso da violência que o próprio filho sofria dentro de casa. 

 

Lembrei da Isabel, mas o que minha amiga poderia fazer por mim? Ela ia se desesperar, se não mais, igual a mim. Pensei no Mateus e meu coração deu um salto. A voz do Trix no fundo da minha cabeça me fazia lembrar de suas últimas palavras antes de ir embora, mas a dor que eu sentia era maior do que o orgulho. Meu irmão tinha acabado de se matar na minha frente e eu estava anestesiada. 

 

Queria gritar, chorar, sair correndo, bater em alguma coisa, eu queria… queria… morrer junto. O que mais me segurava aqui? O que? Nada na minha vida era bom, ninguém me amava e a única pessoa que eu achava poder contar, tinha me abandonado, sem pensar no quanto a imagem aterrorizante do seu corpo ia me perturbar pra sempre. 

 

Meu corpo começou a ficar pesado e eu me joguei na cadeira. Comecei a suar frio, acho que o choque do que tinha acabado de acontecer estava tomando conta de mim. Ódio, mágoa, dor, raiva, ressentimento, angústia, tristeza. Estava tudo misturado e eu sabia que podia acabar com tudo isso, assim como o Artur. 

 

Eu tinha a arma ali do lado, era só ter a mesma coragem que o meu irmão. Em uma só cartada eu acabaria com todo o sofrimento e ainda destruiria minha mãe, a única que sobraria. Pensei em escrever uma carta contando tudo o que tinha acontecido, mas aí lembrei que papel pode ser rasgado, eu tinha algo muito mais eficiente, a internet. 

 

– “Se você se matar, vamos nos encontrar e eu, pessoalmente, vou cuidar de você. Vou ser o seu guardião. Nunca mais você vai sofrer. A morte coloca um fim a toda dor.” – O Trix incentivou, e eu me senti mais motivada.

 

Era ruim demais viver, você não tem ideia. Não posso nem dizer que minha vida foi destruída, porque eu nunca tive uma. Nunca. Que outra opção eu tinha?

 

Fiz forças para me levantar da cadeira, mas não consegui. Algo me empurrou de volta. Lembrei mais uma vez do Mateus e de toda a luz que ele emanava. Seria aquilo real?

 

Comecei a chorar novamente, porque eu tinha nascido? Teria sido tudo tão mais fácil se minha mãe tivesse me abortado. Nada na minha cabeça fazia sentindo, comecei a pensar se aquilo tudo não era o sonho, será que o Artur tinha mesmo me levado até ali? Tentei refazer meus passo naquele dia, mas existiam lacunas na minha mente. 

 

Bati com força na mesa, sentindo o ódio emanar do meu corpo. Eu precisava fazer alguma coisa, segundo o computador já eram 4 horas da manhã. Flahs do sorriso do Mateus começaram a aparecer na minha cabeça. Aquele maldito sorriso. Porque ele tinha que ser tão feliz? Pior, porque eu estava pensando aquelas coisas naquele momento? 

 

O Trix começou a aparecer mais forte na minha cabeça, gritando que nada nunca ia se resolver, que eu precisava seguir o mesmo caminho do Artur. A voz dele era mais forte do que o sorriso do meu amigo real, e isso me perturbou. Coloquei as mãos na cabeça, em uma tentativa inútil de silenciar aquele caos, e foi em meio a essa desespero que eu liguei pra última pessoa que meu orgulho queria ver. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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