Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 45

Quando o Mateus chegou o sol já estava nascendo e eu continuava na mesma posição de antes: sentada com a cabeça em cima dos braços cruzados e chorando copiosamente. 

 

– O que aconteceu, Gabi? – Ele veio correndo em minha direção e me abraçou. Eu me deixei ser envolvida por seus braços e os soluços pareceram se multiplicar. 

 

Eu não conseguia falar, como imaginei, a presença do Mateus calou o rebuliço na minha mente, mas também abriu as portas do meu coração. Ficamos abraçados por cerca de 10 minutos até que eu conseguisse de fato formular alguma palavra. 

 

Ele puxou uma cadeira e sentou do meu lado. Colocou uma mão sobre a minha e a outra sobre os meus ombros, protetor. 

 

– Seu pai… – Começou a dizer, mas eu interrompi. 

 

– Tá morto, assim como meu irmão. – Uma nova rodada de lágrimas ameaçou aparecer, mas consegui me controlar. 

 

– Hã? 

 

Contei tudo o que tinha acontecido, sem esconder nem mesmo a vontade de morrer, e ele não me interrompeu em nenhum momento. Sua expressão mostrava que ele estava terrivelmente assombrado com minha narrativa. 

 

– Desculpa ter te acordado. – Finalizei, pra minha surpresa, realmente envergonhada. 

 

– Eu não estava dormindo, precisamos chamar a polícia. – Arregalei os olhos com aquela observação. Isso tinha me passado despercebido. Mas ele estava certo, não era? Eu não podia esconder o corpo do Artur para sempre. – Eu vou ficar do seu lado. – Acrescentou, diante da minha apreensão, e apertou minha mão. 

 

Peguei o telefone ao lado do computador e coloquei próximo a ele, que rapidamente discou 190. Quando alguém atendeu, ele explicou que tinha um corpo no escritório da Art’s Ferri e que o motivo era suicídio. A pessoa do outro lado não pareceu questionar muito, e logo o Mateus desligou o telefone. 

 

– Gabi. – começou a dizer com uma voz muito séria, e eu me senti impelida a encará-lo e ouvir com atenção. – Eu sei que você está destruída por dentro e por fora, sua família está desmoronando, ou melhor, já desmoronou faz tempo, mas saiba que isso não é o fim da linha. 

 

– Como não, Mateus? Eu nunca fui feliz de verdade. – Sussurrei, sentindo seus olhos acolhedores sobre mim. 

 

– Porque você nunca teve motivo pra ser feliz, mas eu posso te apresentar um: Jesus. 

 

– Você sabe que eu não ligo pra essas coisas. – Comentei, sem ter a intenção de ofender. – Respeito quem acredita, mas eu simplesmente não consigo acreditar que existe um ser maior do que nós e que pode resolver nossos problemas. Olha pra mim, minha vida é um inferno, sempre foi, e esse deus nunca fez nada por mim. 

 

– Mas Ele está fazendo agora. – Alegou. 

 

– Como? Tirando a única pessoa que me amava de verdade? – Perguntei, irônica.

 

– Te mostrando que sua vida pode ser transformada, que tudo pode ser reconstruído. 

 

– Meu pai era um pedófilo que estuprou o próprio filho, meu irmão está morto e minha mãe é uma vaca egoísta, acho que a última coisa que pode acontecer é minha vida ser reconstruída.  Eu já nasci destruída, amaldiçoada.

 

Ele ficou me encarando por alguns segundos e passou as costas da mão delicadamente na minha bochecha. 

 

– Você não pediu pra nascer, mas pode escolher pra onde vai depois de morrer. 

 

– Depois que a gente morre, acaba. 

 

– Não, Gabi, depois que a gente morre, começa. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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