Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 46

A polícia chegou alguns minutos depois, e junto dela, a imprensa. Alguém de dentro da delegacia soltou a informação, e o circo estava armado, mesmo que ainda não fosse nem 6h da manhã. 

 

Assim que eles chegaram, o Mateus tomou as rédeas da situação, mostrou onde estava o corpo e conversou rapidamente com o responsável pelo grupo. Eu só saí do meu lugar quando ele veio me chamar para irmos embora. Antes de sairmos completamente, um policial novo, com uma cara super empolgada, provavelmente por saber de quem se tratava o corpo morto e a repercussão que isso traria para sua carreira, se apresentou como Samuel Costa, e disse que precisava falar comigo. 

 

– Ela não tem condições de responder nada agora. – O Mateus interveio. 

 

– Mas precisa, já que segundo você, ela esteve com a vítima o tempo todo, inclusive na hora da morte. – A voz do policial era determinada e não deixava margem para acordos. 

 

– Vítima? Eu não matei o meu irmão. – Falei pela primeira vez, deixando clara que tinha observado o comentário malicioso. 

 

– Eu não quis dizer isso…

 

– Quis sim. – Interrompi. – Tudo o que o Mateus falou, são as minhas palavras, e não vou falar com você sem a presença de um advogado. 

 

– Vamos, Gabriela. – O Mateus segurou firme o meu braço e encarou o Samuel, também deixando claro que não iríamos negociar. 

 

Passamos pelo policial e senti seu olhar perfurando nossas costas, mas não me importei, eu tinha preocupações maiores naquele momento. 

 

Chamamos um Uber e seguimos para minha casa em silêncio. O Mateus, provavelmente sentindo o peso de ter se disponibilizado a ser meu amigo, e eu, me dando conta do perigo das revelações do Artur. 

 

O Mateus cumpriu o prometido e ficou comigo o tempo todo, inclusive quando cheguei em casa e encontrei minha mãe deitada no sofá dormindo com duas garrafas de uísque do lado. 

 

– Você vai mesmo contar pra ela agora? – Questionou, sem conseguir esconder os olhos observadores para a bagunça que estava minha casa. Não me senti envergonhada como achei que ficaria, eu já não tinha mais nada a esconder do Mateus.

 

– Ela vai descobrir uma hora ou outra, melhor que seja por mim, para que não ser pega de surpresa. 

 

Sentei ao lado de minha mãe, afastei as garrafas e cutuquei seu braço. Se não fosse pela respiração, eu podia jurar que estava tão morta quanto o filho e o marido. 

 

– Mãe! – Chamei, mexendo em seu braço com mais força. Rosemary se remexeu no sofá, mas sem sinal de acordar. 

 

– Gabi, você não quer tomar uma banho primeiro, tentar colocar as ideias no lugar. – O Mateus sugeriu, sentando no braço do sofá, ao meu lado. 

 

– De jeito nenhum, vai ser com a cabeça quente mesmo. 

 

– Tentar deixar as coisas pra sua mãe pior do que já estão não vai ajudar em nada, só vai dificultar tudo pra você. – Ele disse, com cautela, e eu pensei em me virar para mandar que se calasse, mas lembrei que não podia fazer isso. Se eu mandasse o Mateus embora, quem ia ficar do meu lado pra me segurar quando eu caísse ou me ajudar a respirar quando eu surtasse com toda essa situação?

 

Respirei fundo, torcendo para que não se ofendesse com meu silêncio. 

 

– Mãe, acorda!!! – Falei mais alto, e dessa vez ela abriu os olhos, confusa, tentando entender quem estava na sua frente. 

 

Me remexi no sofá, desconfortável, ao imaginar o quanto ela ficaria envergonhada vendo o Mateus ali. Sim, eu queria sua desgraça, mas não posso negar que uma parte mínima de mim se incomodava ao ter a nudez da minha mãe – que tanto preza pelas aparências – exposta. Senti uma pontada de dor ao imaginar o quanto ela ficaria magoada com isso. 

 

– Hum… – Respondeu, voltando a fechar os olhos. 

 

– Você quer que eu saia? 

 

– Claro que não! – Respondi, com o tom mais desesperado do que gostaria. – Por favor, fica. – Olhei pra ele com os olhos suplicantes. Eu não ia suportar enfrentar minha mãe sozinha. Apesar do ódio, tinha também muita mágoa. 

 

Ele assentiu e colocou a mão sobre o meu ombro, o que me trouxe uma passageira sensação de paz. 

 

– Mãe, aconteceu uma coisa, você precisa acordar! – Gritei, o mais alto que aquele horário da manhã me permitia sem acordar os vizinhos e sacudi seu ombro com força. Dessa vez, ela deu um sobressalto de susto. 

 

– O que foi, Gabriela? Tá maluca? – Perguntou, com a voz tronca de sono ou bebida. 

 

– O Artur, mãe… – Comecei a dizer, mas não era tão fácil quanto eu tinha planejado. Encarei o chão e me recostei no sofá. 

 

– O que tem seu irmão? – Perguntou, limpando a baba. – E o que esse seu amigo está fazendo aqui? – Acrescentou, sem disfarçar o tom emburrado e fuzilando o Mateus com o olhar. 

 

– Gabriela… – O Mateus começou em um tom cordial, mas eu fui mais rápida. 

 

– O Artur tá morto! – Falei. Primeiro porque queria tirar a atenção daquela língua de cobra dele, tive a estranha intenção de protegê-lo, e dois, porque jogar assim na lata pareceu mais fácil do que preparar terreno. 

 

Ela me encarou por quase um minuto, avaliando minha expressão, tentando identificar algum traço de mentira, e quando não encontrou nenhum, murmurou:

 

– Do que você tá falando? – Por apenas alguns segundos, eu hesitei. Seus olhos tristes e confusos me fizeram vacilar. Senti a mão forte do Mateus apertar meu ombro, como um incentivo, e segui em frente, com moderação:

 

– Ele se matou, mãe, essa noite, na minha frente. 

 

– Quê? – Ela esfregou o rosto com as duas mãos, assimilando as informações. – Não pode ser, eu falei com ele… –  Estalou os dedos, tentando lembrar a última vez que ouviu a voz do filho, e começou a tremer quando percebeu que já faziam dias. – Você tá mentindo! – Gritou e me encarou com os olhos fuzilantes. 

 

Assustada com sua fúria me aproximei do Mateus no automático, e ele passou um braço acolhedor ao redor do meu corpo. 

 

– Pega seu celular e olha as notícias, já que você não acredita em mim. – A reação da minha mãe me pegou totalmente desprevenida. Eu esperava tudo, choro, fúria, mágoa, desespero, indiferença, gelo, mas não aquilo. Quando senti a mão tocar meu rosto com toda força, encolhi. 

 

Senti os braços protetores do Mateus sobre mim, e logo depois ouvi sua voz surrando no meu ouvido, levei alguns segundos para entender:

 

– Não faça nada, deixa comigo. – Obedeci, não por querer, mas por não saber o que fazer. Eu estava surpresa demais, estarrecida, em choque. Porque ela não acreditava em mim? Pior, porque tinha me batido? 

 

– Rosemary. – o Mateus disse com a voz firme, parecendo ser bem mais velho do que realmente é. Tirei o rosto da almofada do sofá, e alisando a bochecha formigante, comecei a observar a cena. – Seu filho está morto, e a Gabriela não tem nada a ver com isso. Descontar nela a culpa que você sente, só vai piorar sua angústia. 

 

O rosto da minha mãe pegou fogo com aquelas palavras. Eu conseguia sentir o ódio percorrendo suas veias. Cheguei a pensar que ia avançar no Mateus também, e me preparei para me jogar na frente. 

 

– Quem você pensa que é pra falar comigo assim? Saia da minha casa, agora. – Sibilou, mas ele não se moveu um centímetro, e ela continuou. – Como eu trato minha filha é da minha conta. 

 

– Se eu sair, a Gabriela sai também. – O tom firme do Mateus causou um reboliço no meu coração. Ninguém nunca tinha me defendido assim. 

 

– Gabriela – minha mãe chamou com a voz cheia de veneno –, manda esse garoto sair agora, quero falar com você só. 

 

– Já disse que não vou sair. – o Mateus se antecipou. – É melhor você tomar um copo com água e escutar o que ela tem a dizer. 

 

O corpo inteiro da minha mãe enrijeceu. Ela me fuzilou com o olhar e eu pude ver milhões de promessas de que ia se acertar comigo depois. Ela não estava se dando por vencida, como uma boa assessora estava fazendo um jogo. 

 

– O que aconteceu com o seu irmão? – Sibilou. 

 

Sem encará-la repassei o dia anterior, a partir da ligação em que o Artur fingiu que o era o papai. Ela ouviu tudo, sem interromper, e quando acabei, vi que chorava silenciosamente. 

 

Deixei que absorvesse as informações em silêncio por alguns instantes. Procurei os olhos do Mateus, mas não encontrei. Ele analisava minha mãe e mexia os lábios levemente e disfarçadamente, como se estivesse fazendo algum tipo de prece. 

 

– Ele me odiava. – Minha mãe comentou, pegando nós dois desprevenidos. – Meu filho morreu me odiando, achando que eu não o amava. – Quis comentar que eu estava viva e também sentia e pensava as mesmas coisas que o Artur sobre ela, mas não fiz. – Eu preciso ir, a polícia deve está atrás de mim. – A mudança de assunto me assustou tanto quanto a tapa. Ela não ia lamentar a morte do filho? Não ia ao menos desempenhar o papel de mãe desesperada?

 

– Se você quiser, resolvo tudo pra você. – Me ofereci, mais para saber qual seria a reação dela. 

 

– De jeito nenhum. A responsabilidade é minha, não se meta. – Minha mãe ordenou com um tom gélido e ameaçador. Senti vontade de chorar ao me perguntar o que se passava na cabeça dela. Meu irmão tinha se matado, e por uma coisa que ele sofreu dentro da própria casa. Em parte ela também tinha culpa, ele não merecia mais do que uma postura fria?

 

Engoli em seco e vi minha mãe me dá as costas e assumir a personagem seca e dominadora de sempre. Antes de sumir de vez da sala, ela se virou e deu um último recado: 

 

– Não poste absolutamente nada nas redes sociais. Não saia de casa e não fale com ninguém. Isso é uma ordem, sem margens para acordos, entendeu? – Assenti, automaticamente, e ela continuou: E você, fique longe da minha filha. 

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