Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 47

Longe de mim querer obedecer minha mãe em um momento como aquele, mas eu não tive escolha, na verdade eu não tive forças. Não sai de casa absolutamente pra nada e não peguei no celular. Rejeitei todas as ligações da Isabel e deixei ordens claras para Cristiane que não era para deixar ninguém entrar, a não ser o Mateus. Porém, as determinações da minha mãe valiam mais do que as minhas, e eu fui obrigada a ficar sem vê ele. 

 

Isso acabou comigo. Eu me sentia devastada por dentro, e tinha a sensação que só o abraço do Mateus poderia me acalmar. Sempre nos falávamos por telefone, mas não era o suficiente, eu precisava da presença dele. 

 

Ele procurava me distrair nas ligações contando várias coisas engraçadas, conversando comigo sobre filmes ou séries que já assisti, mas nada conseguia atrair minha atenção, a não ser um assunto específico: deus. 

 

Não era sempre, mas o Mateus vez ou outra dava um jeito de introduzir o assunto “fé”. Segundo ele, fé não é algo que se sente, mas uma certeza, uma convicção de que as coisas podem mudar. Eu não perguntava nada, muito menos demonstrava interesse nesse tópico da conversa. Eu não tinha motivos para ter esperança, mas o Mateus parecia adivinhar meus pensamentos e sentimentos e dizia que mesmo vivendo no inferno alguém pode encontrar o céu. 

 

Para o meu amigo, a solução dos meus problemas estava apenas em acreditar em “Deus” e pedir que ele me ajudasse. Pra mim, cada dia que se passava eu tinha mais certeza que a solução dos meus problemas era a morte. 

 

“Morrer não é a solução, Gabriela, você acreditando ou não, o céu e o inferno existem”, disse em uma ligação que estava mais determinado em me “doutrinar”. De saco cheio, mas sem querer desligar o telefone, questionei como ele poderia ter tanta certeza e ele respondeu de um jeito tão simples e convicto que eu quase acreditei. “A bíblia diz isso, e eu creio nela. Pode ser que eu esteja errado, mas prefiro não arriscar, porque pode ser também que eu esteja certo.” 

 

Eu sempre ficava pensando naquelas coisas antes de dormir, não por me interessar no assunto, mas sim porque não queria pensar no Artur. Quando eu não estava falando com o Mateus, estava vendo Netflix ou bebendo. Eu não podia ficar só ou sóbria, nos poucos instantes que isso acontecia eu caia no choro. 

 

Cheguei a tomar alguns antidepressivos da minha mãe, mas não ajudou muito, quando o efeito passava, a angústia e a saudade que eu sentia era pior. Minha mãe não me deixou ir para o enterro do Artur e não sei qual desculpa ela deu para as pessoas sobre isso. Aliás, eu não fazia a mínima ideia do que a mídia estava falando sobre a gente, de fato me isolei de tudo. 

 

Eu não via Rosemary há 10 dias, quando avisei sobre o suicídio do Artur. Ela nunca estava em casa durante o dia e só chegava tarde da noite, quando eu já tinha falado com o Mateus e tomado 4 doses de uísque. 

 

A propósito, minhas noites eram péssimas. Eu mal conseguia pegar no sono e quando fazia tinha pesadelos horríveis, que só acabavam quando o Trix deitava do meu lado. Era o único momento em que ele estava aparecendo. Depois de 4 noites seguidas assim, percebi que era sempre às 3 da manhã, e perguntei pra ele se esse horário tinha algum significado, porque era sempre quando os pesadelos ficavam piores. Meu amigo disse que era a hora em que ele ficava mais forte, “porque 3 é um número poderoso para o meu pai”. Quando eu pedia mais explicações, ele me abraçava e sussurrava em meu ouvido que depois me contava mais, “agora é hora de dormir, amiguinha”. E assim, eu adormecia. 

 

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