Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 48

A morte do meu pai não tinha ficado esclarecida com o suicídio do Artur. Em nenhum momento ele confessou que tinha feito isso, pelo contrário, algo que disse não saia da minha cabeça: “Não vou suportar ouvir que além de ter matado meu pai, ainda inventei que ele era um pedófilo.”

 

O Artur sabia que não acreditei nem por um segundo que ele era o culpado do envenenamento de Santiago Ferri, ele não iria dá um fim na sua vida e me deixar totalmente no escuro. Aquela frase foi uma tentativa da sua mente perturbada de me dá uma dica, tinha que ser. 

 

A cada dia que passava eu ficava mais imersa na bebida. Não tinha nenhuma condição de ficar sóbria ou de falar com minha mãe, aliás eu nem a via. Com o Mateus eu também falava menos. Ele continuava me ligando com a mesma frequência, eu era quem não atendia. 

 

A angústia só aumentava. Não tinha vontade de fazer mais nada, prova disso era que 20 dias já tinham se passado e eu ainda não tinha pegado no celular. Inclusive não sabia onde ele estava. 

 

Não pense que eu tinha perdido o ânimo de desvendar a morte do meu pai. Eu ia fazer isso em algum momento, iria vingar o Artur, jogando no mundo a podridão da família Ferri. Consequentemente minha mãe seria destruída e depois eu me mataria. Eu não fazia questão de está aqui para vê sua destruição, bastava saber que era o motivo dela.

 

Em uma sexta-feira, decidi que precisava dá um jeito nisso, e logo, eu não podia mais ficar adiando o inevitável. Respirar era pesado demais e nada fazia sentido. 

 

Acordei mais cedo que de costume, tomei um banho, vesti algo que não fosse pijama, tomei um café forte – resistindo heroicamente ao desejo de beber uísque –, e sentei no sofá para esperar minha mãe sair. Eram 7 horas da manhã quando ela girou a fechadura do quarto. 

 

Tomou um susto ao me ver, como se tivesse esquecido que eu morava ali também. 

 

– Ah, oi filha, faz tempo que não nos vemos…. – Disse parada atrás do sofá, sem me encarar. 

 

– O que você falou pra todo mundo? – Ser direta era a melhor abordagem, pelo menos eu iria pegar ela no susto. 

 

– Sobre o quê? – Perguntou, com ar inocente. 

 

– O Artur. O que você inventou pra imprensa? – Ela não se fez de ofendida, ao menos teve a dignidade de manter a compostura de não mentir para a própria e única filha.

 

– A verdade. Disse que ele se matou por não ter aguentado a ausência do pai. 

 

Senti vontade de vomitar. A memória do meu irmão estava sendo manchada, ele tinha se matado justamente por odiar o sacana do pai. Respirei fundo e reprimir o desejo de jogar isso na cara dela. 

 

– E sobre mim, o que você disse? 

 

– Que está tirando um período sabático em uma clínica, porque está sofrendo demais com duas perdas tão próximas de duas pessoas que você amava. – Ela não fazia questão de esconder o tom sarcástico, e isso me destruía mais ainda. Minha mãe não se importava com nada que estava acontecendo comigo. 

 

Mais uma vez engoli em seco. Eu não podia perder o foco. 

 

– Por isso você não quis que eu saísse ou recebesse visita. – Falei, por fim. 

 

Ela não afirmou, mas também não negou. 

 

– Você me ama? – Perguntei, sem pensar, mas me sentindo aliviada por finalmente ter a chance de tirar essa dúvida. – Ao menos um pouquinho você me enxerga como sua filha ou só me vê como a consequência de uma noite de bebedeira e droga do meu pai? 

 

Pela primeira vez eu vi minha mãe hesitar. Seus olhos vacilaram e seu rosto deixava clara a guerra que ela travava pensando no que dizer. Quando ela abriu a boca, eu prendi o ar. 

 

– Você é minha filha, eu tenho que te amar. – Em outras palavras, minha obrigação é de amar. Não por querer, não por te vê como um dom, um presente, mas porque diante da sociedade o certo é amar você. 

 

– A mágoa do papai não te deixa entender que eu não tenho culpa de nada, eu não pedi para nascer. – Consegui dizer, quase sem abrir a boca. 

 

– Eu não consigo te olhar e não lembrar dele, não lembrar a dor que senti. – Rebateu, me olhando com os olhos cheios de tristeza. 

 

– Porque você não me abortou, mãe?

 

– Eu tentei, mas como já estava muito avançada quando descobri, o médico fez minha cabeça dizendo que quem poderia acabar morrendo era eu. 

 

Respirei fundo, ficamos em silêncio e o clima na sala pesou. Eu não sabia o que dizer. Aquela revelação, que no íntimo eu já devia esperar, me tirou as estribeiras. 

 

– Você é uma moça linda, Gabriela. – O comentário me pegou de surpresa e fiquei aguardando, ansiosa, o que estava por vim. – Eu sei que você não merece me ter como mãe, seu irmão também não, mas a verdade é que eu não sei dá outra coisa além do que ofereço. Eu fiz o meu melhor para proteger vocês, do meu jeito, mas fiz. 

 

– Me proteger como, você nem mesmo me ama? Proteger o Artur de quem, se quando ele te contou o que seu marido tinha feito com ele, você fingiu que não era verdade? De quem você nos protegeu mesmo, de você? 

 

– Gabriela… 

 

– Você matou o meu pai? – A pergunta na lata a fez ficar lívida, e eu aproveitei a deixa. – O Artur não foi, além dele, quem mais você teria interesse em acobertar? 

 

– Eu não admito que você me acuse assim…! – Tentou gritar, mas sua voz saiu falha. 

 

– Então responde! 

 

– Eu não matei seu pai, Gabriela! E você sabe disso! 

 

– Não sei de nada, mãe, não acredito em uma palavra que você diz. 

 

– Minha filha… – Seu tom ficou carregado de tristeza e compaixão e isso me assustou mais do que qualquer coisa. – Você sabe que eu não matei… 

 

– Não sei não. – Rebati. – A que mais se beneficia com a morte dele é você, que fica com quase tudo. 

 

Minha mãe me olhou de cima abaixo, os olhos tristes, marcados com um sentimento que eu não consegui identificar.

 

– Não foi que envenenei a bebida do seu pai, foi você, minha filha. 

 

 

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