Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 49

– Você não lembra, Gabriela? – Ouvi minha mãe dizer, mas sua voz saiu distante, como se estivéssemos em uma caverna e eu só ouvisse os egos. 

 

Minha cabeça começou a girar, e eu sentei, com uma sensação enorme de que ia desmaiar. 

 

– Filha…? – Minha mãe sentou ao meu lado, mas eu não conseguia sentir ela. Tudo na minha cabeça rodava. – Vou pegar uma água pra você. 

 

– Não, eu não quero! – Segurei no braço dela e implorei, sem conseguir olhá-la do tanto que minha vista estava embaçada. – Do que você está falando? 

 

Ouvi seu suspiro pesado e antes mesmo que ela abrisse a boca, eu já me recordava de tudo. Foi como um estalo. Era como se minha mente fosse um quebra-cabeça com várias peças que não se encaixavam e agora faziam todo sentido. 

 

– Lembra do champagne? – Sussurrou e eu assenti. Tinha sido meu presente para comemorar o fechamento do acordo com a Death. Meu pai ficou todo bobo postando nas redes o quanto sua filha era prestativa. – Encontrei você colocando veneno nele antes de entregar ao Santiago. 

 

– E porque você não me impediu? – Questionei, sentindo como se fosse outra pessoa movimentando minha boca. 

 

– Apesar de ter ficado arrasada e preocupada, eu acho que não quis acreditar, fiquei dizendo pra mim mesma que eu tinha imaginado coisas, que jamais você faria algum mal a seu próprio pai… – Ela explicou, olhando pro nada, como se estivesse se justificando pra si mesma. 

 

– Mas aí quando ele morreu você viu que estava certa… – Conclui. 

 

– Sim, e eu não podia deixar você pagar por ter matado aquele crápula. Eu mesma já tinha pensado nisso várias vezes, mas não tive coragem de fazer. – Confessou. 

 

– E então você mandou o Artur confessar no meu lugar…? – Não foi exatamente uma pergunta. 

 

– Seu irmão me encontrou chorando duas noites antes da festa e perguntou o que eu tinha… – Explicou, ignorando minha pergunta. – Claro que eu não quis falar, mas ele ficou preocupado e insistiu, então confidenciei que achava que você estava armando para o Santiago. Ele também achou que era coisa da minha cabeça, mas quando aconteceu resolveu te proteger… 

 

– Mãe…

 

– Você teve um surto psicótico. – Disse, imaginando o que eu ia comentar. – Por isso não lembra de nada. 

 

– Como você sabe? Eu não fui no médico. 

 

– Mas eu conversei com o Douglas e ele conclui isso. – Douglas era o meu psiquiatra. Eu o visitei uma vez por semana durante 5 anos, mas tinha parado há um. Minha mãe me obrigou a fazer as sessões porque quando eu tinha 10 anos passei uma semana inteira chorando toda noite, foi assim que o Trix começou a aparecer. No início, eu morria de medo dele, mas claro que não compartilhei para o médico que estava vendo um fantasma. Aleguei que estava sofrendo bulling na escola.

 

– E porque você não me levou ao  consultório, mãe? – Perguntei, com meu corpo inteiro começando a tremer. 

 

– Você nunca gostou de ir lá, sempre foi obrigada, achei que fazer isso ia piorar o que quer que você tenha sentido. 

 

– Mãe, eu matei meu pai e tive que um apagão, você tinha que ter me levado ao médico! – O desespero começava a crescer em minha voz. 

 

– Filha, eu fiquei assustada, tive medo, não sabia…

 

– Você teve medo de todo mundo saber que eu era maluca e assassina! Você preferiu sua reputação a minha saúde! Meu irmão morreu por causa disso! – Gritei, sentindo o pânico aumentar diante da realidade que começava a se instalar.

 

Minha mãe se encolheu. Joguei na sua cara o que provavelmente ela vinha negando todos esses dias.

 

– Gabriela, seu irmão morreu porque ele também precisava de ajuda…

 

– Não, ele morreu, porque você ignorou a acusação de estupro, e depois não fez nada quando ele quis me proteger! 

 

– Eu achei que ia dá um jeito, eu não deixei que ele fosse preso. – Comentou, parecendo prestes a chorar. 

 

– Mas você o matou! – Assim que eu disse isso, me arrependi e me desesperei. Não tinha sido minha mãe o estopim da morte do Artur, foi eu. “Não vou suportar ouvir que além de ter matado meu pai, ainda inventei que ele era um pedófilo.” Lembrei das palavras dele e tive certeza: ele se matou porque não aguentou a pressão de ter assumido uma culpa que era minha. 

 

 

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