Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 50

Talvez já fizesse horas ou apenas minutos, não sei nada em relação ao tempo, só que parecia uma eternidade que eu chorava no colo da minha mãe. Ela não dizia nada, nem mesmo me abraçou, apenas me deixou deitar em seu colo e chorar. Seu consolo era passar a mão nas minhas costas. Foi até melhor assim, nada do que ela falasse ia mudar como eu me sentia. 

 

– P…po..po…por quê? – Consegui formular muito truncamente. Eu odiava o meu pai, mas não lembro de ter motivos ou coragem suficiente para planejar sua morte. Eu me recordava de ter comprado o champanhe, de ter pedido o veneno pela internet, mas não sabia o que tinha me levado a fazer isso. 

 

Minha mãe não disse nada, apenas alisou minhas costas mais freneticamente. Eu não me sentia triste, eu me sentia angustiada, meu peito parecia fechado, o ar me faltava e minha mente girava, sem falar na vontade de vomitar que eu tinha. 

 

– Tem certeza que você quer saber? – A pergunta atraiu minha atenção, e com um esforço muito grande, levantei minha cabeça para encará-la. Seus olhos estavam carregados de vergonha e tristeza. 

 

Assenti, sem ter muita certeza se queria mesmo.

 

– Você chegou de uma festa mais alterada que de costume, e 10 minutos depois seu pai apareceu em casa, também alto por conta de bebida ou droga, sei lá… ele te encontrou jogada no sofá e… – ela parou alguns instantes, buscando ar para continuar. 

 

– Hum… – Murmurei no automático, não porque quisesse que ela de fato continuasse. 

 

– Ele foi pra cima de você, que acordou gritando com o susto. – Ela fechou os olhos, como se estivesse lembrando da cena. – Você ficou se debatendo, empurrando o Santiago e ele forçando pra rasgar sua roupa… 

 

Minha mãe parou de falar e nós duas ficamos sem ar. A festa em questão tinha sido o aniversário do Victor. Realmente eu tinha ficado muito louca, lembro que depois comentei com a Isabel que achava que tinham batizado minha bebida com algum tipo de droga, porque naquele dia meus instintos e a adrenalina tinham sido potencializados. 

 

Eu não lembrava de nada do que minha mãe dizia, mas me recordo de ter acordado com uma raiva mais potente em relação ao meu pai, no dia seguinte a festa. Na verdade, desde aquele dia eu não conseguia mais ouvir a voz dele sem sentir ânsia de vômito, porém associei isso a estar de saco cheio da hipocrisia dele. 

 

– Você viu tudo? – Perguntei, ainda sem acreditar. 

 

– Acordei pouco antes dele chegar para beber água, quando estava voltando pro quarto vi ele na sala e fiquei observando o que ia fazer, quando entendi, apareci e entramos em uma discussão. Você estava grogue e sem entender nada do que tinha acontecido, te mandei para o quarto e você, por um milagre, obedeceu. – Ela desandou a falar, como se um peso saísse de suas costas. –

 

– Perguntei o que pensava em fazer, mas ele me mandou calar a boca e saiu pro quarto, me deixando só. – Quando achei que ela tinha terminado, acrescentou: Por isso não te impedir de matar ele – Confessou, sem um pingo de arrependimento nos olhos. – Seu pai nunca prestou, era um favor que você fazia a todos nós, e eu podia te proteger. 

 

– Só não protegeu o Artur. – Pela primeira vez as lágrimas começaram a cair no rosto de minha mãe, desde que começamos aquela conversa. 

 

– Eu não contei com esse efeito colateral. – Disse, fazendo um esforço enorme para conter os soluços. 

 

– Depois do que você viu ele fazer comigo, acreditou no Artur? 

 

– Parte de mim sempre me disse que era verdade, mas eu negava porque não queria acreditar que um absurdo desses acontecia dentro da minha própria casa. 

 

Pensei em reforçar a ideia de que era uma acusação de estupro e que ela tinha que ter ido investigar, mas não adiantava mais. Meu irmão estava morto, nada ia trazer ele de volta. 

 

– Encontrei as fotos dentro do meu armário do banheiro, dois dias depois do Artur ter morrido. Talvez… – Ela disse antes de cair totalmente no choro. – Se eu tivesse encontrado antes, pudesse ter impedido…

 

Eu não disse nada. As fotos e o teste de gravidez que levava a filha da Fabiana tinham sido um grito de socorro do Artur, e nós duas só percebemos isso tarde demais. 

 

– Mãe. – Chamei, de repente me lembrando de outra coisa. – E meu avô? Foi o Artur que também fez eu achar as fotos? – Questionei, esperando que ela já soubesse do que eu falava, e não me enganei. 

 

– Foi. Seu irmão deixou um bilhete em cima das cartas que meu pai me mandou um dia, pra mostrar que tinha encontrado e sabia tudo o que tinha acontecido comigo. Hoje penso que ele queria mostrar que eu já tinha passado pela mesma coisa que ele, mas mesmo assim, fiz pouco caso. 

 

Assenti, aquilo fazia sentido. Meu irmão descobre por acaso que minha mãe também foi estuprada pelo próprio pai e faz questão de jogar isso na cara dela, pra mostrar o quanto ela tinha sido injusta em não acreditar nele. 

 

O Artur tinha criado toda uma jogada antes de morrer, não fez por fazer, mas foi uma forma de mostrar que ele existe, ou melhor, que existiu, que estava ali gritando por socorro. 

 

– Encontrei em um site da internet uma matéria que diz que o Manoel está morto, é verdade? 

 

– Não. – Disse sem hesitar. – Ele fugiu do Brasil e armou sua morte, eu sei porque até hoje mantém contato comigo. 

 

– Isso é doente. – Vomitei, sem a intenção de atingi-lá. 

 

– Eu não respondo nada, Gabriela, ele manda porque ele é o doente. 

 

– Não quis… – Comecei a me justificar, mas ela interrompeu. 

 

– Ele sempre foi o psicopata, e incrivelmente eu casei com um homem do mesmo jeito que ele. 

 

– Por que você não entrega seu pai à polícia? 

 

– E vão fazer o que? Caçar ele em outro país? Não, não vão. Ressuscitar essa história só vai trazer mais dor. 

 

– Mas você tem as cartas….

 

– Que podem ter sido enviadas por qualquer pessoa. Não tenho como provar. 

 

O telefone tocou e nós duas nos entreolhamos sem querer atender. No terceiro toque, minha mãe se decidiu. 

 

– Pode ser alguém da empresa… 

 

Ela se levantou e se endireitou, como se estivéssemos conversando sobre sorvete. 

 

– Alô…

 

A expressão de alívio de minha mãe ao ouvir a voz da pessoa passou rápido, ela logo se endureceu. 

 

– Ela não pode falar… – Me encarou e eu entendi o recado. Se eu queria falar com ele? Sim, queria, mas também estava envergonhada demais, eu não conseguiria esconder a verdade do Mateus e não suportaria olhar pra ele depois que soubesse quem eu sou de verdade: uma assassina louca.

 

– Não se preocupe, a Gabriela está bem, só não quer receber visitas por um tempo. Preciso desligar. 

 

– Mãe… – Choraminguei, não queria que ela tratasse o Mateus daquele jeito. Meu coração apertou mais ainda. Em meio ao turbilhão de sentimentos ruins, detectei um mais ou menos: saudades. 

 

– Não, Gabriela, você não tem condições de receber ninguém. Não adianta insistir. – Dito isso, ela deu um beijo sem jeito na minha cabeça, e disse: – Vou fazer alguma coisa pra você comer, e depois vou trabalhar. A ordem continua: Não receba ninguém, depois vemos como vamos lidar com todas essas informações. 

 

Eu não disse nada. Não saberia se ia existir um depois. 

 

 

 

 

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