Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Capítulo 51

Depois que minha mãe saiu eu tomei outro banho, me sentia suja, como se tivesse rolado na lama. Vesti um vestido solto, florido, olhei meu quarto uma última vez e sai. Sem deixar nenhum bilhete ou aviso. Sem olhar pra trás.

 

Chamei o Uber e digitei o endereço que eu tinha descoberto ligando pra Art’s Ferri. Assim que o motorista confirmou a viagem, anotei a placa e o carro em um papel e sai de casa. Meu coração batia levemente, apesar da tristeza, confesso que sentia também uma nostalgia de saber que eu saia pela última vez dali. 

 

No carro, meu corpo inteiro tremia. Várias coisas se passavam em minha cabeça. “O que vou fazer para o Mateus não perceber meus planos?”; “Como devo agir?”; “Conto ou não conto o que aconteceu?”; “O que ele vai fazer se souber que matei meu pai?”; “Será que ele vai ficar muito chateado quando souber que fiz ele me ajudar, quando na verdade a culpada era eu…?”

 

Quanto mais eu pensava mais impaciente ficava. A possibilidade de encarar o Mateus depois de dizer toda a verdade pra ele, me assustava mais do que a morte em si. 

 

Quando cheguei em frente ao prédio, hesitei e pensei em mandar o motorista ir embora, mas fui mais forte. Eu tinha o direito de vê o Mateus uma última vez e ele merecia saber toda a verdade, pelo menos agora ele ia entender de uma vez por todas que eu estou quebrada e não tenho conserto. 

 

Enquanto o porteiro interfonava pra casa dele, eu ficava repetindo pra mim mesma me acalmar. Se eu chegasse naquele estado, o Mateus ia perceber de cara meus planos e faria de tudo pra tentar me impedir. 

 

Subi até a casa dele com as pernas bambas e quando cheguei no 7º andar, ele já me esperava na porta. 

 

– Achei que você não fosse estar em casa. – Comentei, para disfarçar o nervosismo. Seus olhos encontraram os meus e ele deu um sorriso cheio de luz, vida e expectativa. Cheio de saudades. Prendi o ar por alguns instantes, ele estava mais lindo do que nunca. Tinha esquecido como tudo em seu rosto se encaixava milimetricamente. 

 

– Eu tava com saudades. – Ele veio em minha direção, sem tirar os olhos dos meus um minuto sequer e me envolveu em seus braços. Eu estava tão carente, tão solitária, tão desesperada pela presença dele, que não hesitei. Absorvi seu cheiro o máximo que pude, afinal era a última vez que eu faria isso. 

 

Abracei ele com força pra tentar dizer que também estava, que eu sentia muito por tudo. 

 

– Vem, vamos entrar. – Contra minha vontade, ele se afastou e me puxou delicadamente pela mão. – Eu não estou sozinho, a moça que ajuda minha mãe tá aqui. – Hesitei. Não tinha pensado na possibilidade de ele está acompanhado. Não queria que nossa última conversa corresse o risco de ser ouvida por alguém.  – Pode vim, ela tá na cozinha, nós vamos pra varanda. – Disse, delicadamente, e eu o segui, independente de qualquer coisa, não podia desistir agora. 

 

A sala do apartamento da família Dantas era grande como a minha, mas tinha uma áurea diferente. Era mais clara, mais aconchegante, parecia mais feliz. Não tinha uma sensação de solidão. 

 

A varanda era quase tão grande quanto a sala e mais iluminada ainda, já que a luz do sol entrava diretamente ali. Sentamos em um sofazinho de praia, um do lado do outro. 

 

– Minha mãe tá reformando aqui, por isso só tem esse sofá e aquela mesa. – Explicou, apontando pra mesa praiana rodeada por quatro cadeiras. – Esse lugar é o xodó dela. 

 

– É muito lindo aqui, imagino que olhar essa vista à noite deve acalmá-la. – Observei, passando os olhos pela imensidão que parecia o céu olhando dali. 

 

– A todos nós, na verdade. Meu irmão, meu pai e eu também amamos ficar aqui à noite olhando pro céu, eu sinto que consigo ouvir Deus falando diretamente comigo. – Disse, levantando seu olhar brilhoso, e ali eu soube que precisava ser breve pra não perder o controle. 

 

– Mateus, eu vim aqui, porque preciso te contar uma coisa. – Comecei, ainda olhando pra cima. 

 

– Antes de você começar, eu quero te dizer que te procurei, Gabi, fui na sua casa, te liguei todos os dias, mas de uns tempos pra cá não passam mais a ligação pra você nem o porteiro me deixa subir. – Sua voz estava carregada de desespero, de uma necessidade de que eu acreditasse. 

 

– Eu sei disso. – Afirmei, segurando sua mão mais por uma necessidade minha do que para tranquilizá-lo. Ele assentiu e apertou minha mão de volta, o que fez uma corrente elétrica passar por todo o meu corpo. – Como eu dizia…– Continuei, tentando, mais um vez, não peder o foco. – Preciso de falar uma coisa, Mateus, mas não sei por onde começar. – Eu não conseguia encará-lo, e desejei sair correndo quando usou sua mão vazia para tocar no meu queixo e levantar meu rosto em direção ao seu. 

 

– Comece pelo começo. Não importa o quanto pareça ruim, eu não vou te abandonar. 

 

Engoli em seco. O que mais me machucava era saber que ele não teria escolha depois que eu abrisse a boca. A verdade o faria se afastar de mim automaticamente, como ação e reação. 

 

– Fizeram alguma coisa com você, Gabi? – A pergunta cortou meu coração, e o apelido não pareceu tão ruim. 

 

– Eu fiz com alguém… – Esperei para vê se ele dizia alguma coisa, mas apenas encontrei seus olhos cheios de expectativas esperando que eu falasse. – Eu matei meu pai. – Não vi porquê fazer rodeios. 

 

Por quase um minuto ele ficou me encarando, analisando minha expressão, a espera das palavras que diriam que eu estava brincando. Mas quando o silêncio reinou, soltei sua mão e olhei pra frente, ele teve certeza que o que tinha ouvido era verdade. 

 

– Não entendo, mas…

 

– Eu não sabia, só lembrei disso hoje. – Me apressei em dizer para deixar claro que eu não tinha feito ele de trouxa intencionalmente. Sua expressão ficou mais confusa ainda. – Segundo meu psiquiatra, eu tive um surto psicótico que apagou esse episódio da minha mente. 

 

– Eu não entendo…. – Sua expressão não era confusão, mas de incredulidade. 

 

– Você tá acreditando em mim. 

 

– Não é isso, Gabriela, eu só não entendo porque você faria isso… – O fato dele me chamar pelo nome não me passou despercebido. – Como você lembrou disso? Quando lembrou? – Acrescentou. 

 

– Hoje de manhã conversando com minha mãe… – Respirei fundo e decidi não adiar mais o inevitável, contei tudo. O Mateus me ouviu atentamente, sem me interromper em nenhum momento e tentando disfarçar a expressão assustada e de desprezo com o meu relato.

 

Compartilhar tudo isso com ele foi mais fácil do que imaginei. Talvez  por eu saber que nunca mais precisaria olhar na sua cara ou por no fundo sentir prazer ao deixar claro uma vez por todas que ele estava errado sobre mim e que uma hora teria que me deixar. 

 

Quando terminei, ele não disse nada, apenas continuou me encarando. O silêncio me incomodou: 

 

– Só quis te contar pra você não achar que te fiz de bobo esse tempo todo, eu realmente não lembrava, senão jamais teria te arrastado pra isso. 

 

– E agora, o que você vai fazer sobre isso? – Seu tom saiu distante, sem nenhuma emoção, e isso partiu meu coração. Pensei em dizer que ia me matar assim que saísse dali, talvez agora ele não tentasse me impedir, mas não queria trazer mais drama para nossa conversa. 

 

– Ainda estou pensando sobre isso, minha mãe ficou de conversar comigo, talvez eu volte pra terapia, talvez ela me interne em alguma clínica de maluco, igual aquela que a Fabiana está com a filha…

 

– O que você vai fazer, Gabriela? – Repetiu a pergunta e eu fiquei sem entender. – Pouco me importa qual mentira sua mãe vai inventar para manter a reputação de vocês, eu quero saber o que você vai fazer. – Seu tom era de crítica e isso me magoou. 

 

– Eu não sei, Mateus, acabei de descobrir que sou um monstro, uma assassina, um erro biológico, ainda não pensei sobre qual será o meu próximo passo. – A meia mentira fez algo se quebrar eu seu rosto. 

 

– Gabi, você não é um monst…

 

– Sou sim! Eu matei meu próprio pai, não importa o que ele me fez, eu tinha que ter denunciado, ido pra internet, qualquer merda, mas não ter matado ele! O Artur morreu tentando me proteger! – Sem ter mais nenhum controle sobre minhas palavras ou meu corpo, desabei em lágrimas. Enfiei o rosto entre as mãos e apoiei os braços nos joelhos, parte de mim esperou que o Mateus viesse me consolar, mas isso não aconteceu. 

 

Quanto mais eu tentava me controlar mais eu chorava, e agora, além de tudo o que eu já sentia, a vergonha também apareceu. Não estava nos meus planos chorar na frente dele. 

 

Senti o Mateus se levantar, mas não tive coragem de olhar. Passaram-se quase 5 minutos até que ele voltasse pro sofá, eu já estava quase me levantando pra ir embora. 

 

– Ei… – Sua mão em meu ombro funcionou como um calmante. As lágrimas diminuíram no mesmo instante. – Ei, eu prometi que não ia virar as costas pra você, não foi? – Continuei com a mão escondendo o rosto, atenta as suas palavras, e ele se aproximou mais ainda de mim. – E não vou. Não importa o que você fez, se quiser consertar, vou te ajudar. 

 

– Eu não tenho conserto, Mateus. – Falei, sem querer acreditar que eu tinha ouvido direito. 

 

– Ei! – Ele me puxou pelo ombro, me obrigando a sentar ereta e olhar para ele. – Tem sim! Deus perdoou Paulo, que assassinou vários cristãos, ele também pode te perdoar. Nada é impossível, entendeu, Gabriela? – Assenti, não por acreditar naquilo, mais porque seu jeito de falar me levava a concordar com qualquer coisa que dissesse. 

 

Em um ato de desespero me agarrei em seu pescoço. Meu tempo estava acabando, eu não podia demorar muito. Ele retribuiu o abraço e continuou a doutrinação:

 

– Deus também perdoou Moisés, que tirou a vida de outra pessoa. Ele pode fazer tudo novo na sua vida, você precisa deixar. 

 

Grudada em sua nunca, assenti mais uma vez, e olhei o relógio no meu braço, eu só tinha mais 15 minutos. Me afastei lentamente e antes que me encostasse de novo no sofá ficamos cara a cara. Nossos rostos estavam tão colados que eu podia ouvir a respiração e as batidas do coração do Mateus. 

 

Ficamos nos encarando e por alguns segundos pareceu que não existia mais nada, só nós dois. Me dei ao luxo de imaginar como teria sido se eu tivesse nascido em outra família e conhecido ele. Quando estava começando a sentir o quanto isso seria bom, o Mateus encarou minha boca e veio lentamente em direção a ela. 

 

Pensei em me afastar, mas o que eu tinha a perder? Ser beijada por iniciativa do Mateus era a última melhor coisa que poderia me acontecer. Pareceu uma eternidade até que nossas bocas finalmente se encontrassem e quando aconteceu parte de mim se sentiu nas nuvens. 

 

Sua boca pareceu mais doce do que da vez que eu o beijei, mas também era desesperada, como se quisesse me dizer mil coisas com aquele beijo. Quando sua língua tocou a minha eu quis responder o que quer que ele tivesse me dizendo. 

 

Sua mão desceu pra minha cintura e a outra pra minha nuca, me puxando para mais perto dele. Deixei que minha mão subisse para seus cabelos, aqueles fios ondulados que tanto me chamavam pra mergulhar neles. 

 

O beijo foi ficando mais urgente, e eu queria desesperadamente pedir perdão e fazer milhões de promessas, mas me contentei em apenas aproveitar o momento. Em algum momento, a boca do Mateus se afastou da minha e eu quis protestar, mas só até sentir que ele só mudou de lugar, agora beijava avidamente meu pescoço. 

 

Um calafrio percorreu meu corpo e senti um fogo diferente atravessar minhas pernas e parar no meu coração. Eu desejava aquele garoto de uma forma diferente. Eu queria ele como nunca tinha desejado qualquer outro menino. 

 

– Fica comigo… – Ele sussurrou enquanto deslizava com os lábios o caminho do meu pescoço e da minha orelha. Eu quase não conseguia raciocinar direito, mas ainda tomei um susto com suas palavras. Cheguei a pensar que ele tinha adivinhado meus planos. – Você gosta de fugir de mim demais, Gabi… 

 

Ouvir meu nome em seus lábios me fez delirar. Trouxe seu rosto pra minha boca novamente e o beijei com mais vontade do que antes, aproximando meu corpo do dele e fazendo menção de sentar no seu colo. Foi ai que eu errei. 

 

O Mateus me afastou de uma vez, como se tivesse acordado de um pesadelo e me olhou desnorteado. Eu vi tudo nos seus olhos, como da outra vez: fogo, desejo, necessidade, ressentimento, tristeza e arrependimento. Só que em mim, um sentimento se sobressaiu: mágoa. Não tinha sido ele a me beijar? Porque agora parecia querer enfiar a cara em um buraco e nunca mais me olhar? 

 

– Desculpa, eu não deveria ter feito isso. – Disse, com a voz grogue, parecendo meio perdido. 

 

– Não faz isso, Mateus, por favor, não. – Pedi, me levantando e ele entendeu o recado. 

 

– Por favor, fica. – Ele se levantou e agarrou meu braço, mas eu me afastei. O toque que segundos antes me causava calor, agora me dava ânsia. 

 

– Eu preciso ir. – Comecei a andar e ele veio atrás de mim. 

 

– Não foge de mim, Gabriela, por favor, eu errei, mas, por favor, não vai embora assim. 

 

– Errou porquê? Porque ficou do meu lado desde que nos conhecemos? Porque foi meu amigo de verdade? Porque se importou comigo ninguém mais no mundo fez? Ou porque me beijou? – Falei, ainda andando, mas não deixei de olhar pra ele, ansiosa pela resposta. 

 

– Eu não me arrependo de nada. – Disse, firme. – Só te beijei na hora errada. 

 

– Porque foi logo depois que eu confessei ser uma assassina… – Conclui e ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mais foi impedido pelo grito de uma mulher chamando ele. – Vai lá. 

 

– Gabriela, eu não vou deixar você ir embora assim. 

 

– Eu preciso ir, Mateus, mando notícias assim que chegar em casa. – Menti, quando vi que ele não me deixaria sair. – Eu vou ficar bem, não se preocupe, só em ter te contado tudo já me sinto aliviada. – Fiquei surpresa com a facilidade que tive para inventar essa última parte. Ele não estava convencido, mas consegui ao menos a dúvida. 

 

– Eu te levo em casa, deixa só eu vê o que a Lúcia quer. – Vi ali minha chance. 

 

– Tem certeza que não vai atrapalhar?

 

– Claro que não, me dá um minuto! – Se afastou de mim correndo, e eu não pensei duas vezes antes de sair também correndo. Se eu pensasse, não ia. Apesar da raiva pela reação dele ao beijo, enganar o Mateus daquele jeito partia meu coração.

 

Desci as escadas praticamente em um pulo só e cheguei lá embaixo, quase sem ar, em menos de dois minutos. Corri até a portaria e o porteiro logo abriu o portão, sem nem mesmo me olhar, atento a qualquer coisa que assistia no celular. 

 

Como o Mateus morava de frente a uma praça enorme e cheia de árvores, juntei forças para correr mais um pouquinho e me escondi atrás de um arbusto enorme que ficava no centro do local. Naquele horário, tinham umas poucas pessoas, e o que quer que eu fizesse não chamaria atenção.

 

Cansada, ofegante, com o coração acelerado e as pernas tremendo de tanto correr, sentei, tirei a lâmina que trazia dentro do sutiã, estiquei os braços e encarei a morte.

 

 

 

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