Meu anjo da guarda

Meu anjo da guarda – Parte 2

Capítulo 52

– Dá um fim nisso, Gabriela. Sua mãe vai contar pra todo mundo o que você fez quando assistir ao vídeo. – A presença do Trix ao meu lado era tão forte quanto sua voz. 

 

– Só você pode colocar um fim nesse sofrimento. Você matou seu próprio pai, como vai viver com isso? – Eu sabia que meu amigo tinha razão, mas o que faltava para tomar a decisão? 

 

Suando e com os dedos trêmulos forcei a lâmina no meu pulso, mas não o suficiente para perfurar. 

 

– O que você está esperando, Gabriela? Só a morte vai te trazer paz. Do outro lado tudo é diferente. Eu vou cuidar de você, vou ser o seu guardião, seu protetor. Vem comigo…

 

A proposta era tentadora, mas eu estava com medo. A dor do sofrimento, da rejeição, da mágoa já era conhecida. Eu convivia com ela desde sempre. Mas o desconhecido do além me assustava. 

 

– Imagine o que vai acontecer quando todos descobrirem que seu irmão se matou por sua causa? O mundo inteiro vai te perseguir. Você vai perder todos os seguidores e amigos. Ninguém vai te amar mais. 

 

Olhei ao redor do praça para ver se tinha alguém passando naquele momento, mas não consegui enxergar nada. Meus olhos estavam embaçados, eu só conseguia ver direito a lâmina no meu pulso. 

 

– Você não deveria ter nascido, lembra? Você foi um acidente, uma tragédia, fruto de um estupro. 

 

Aquilo era golpe baixo. Mais do que a dor de ser rejeitada, a tristeza de saber que meu pai forçou uma relação com minha mãe e me concebeu destroça minha alma. Lágrimas começaram a surgir em meus olhos. De fato eu nunca deveria ter nascido. 

 

Com ódio beirando meu coração, empurrei a lâmina com mais força e dessa vez sangrou, mas eu não senti dor, apenas alívio. 

 

– Isso aí garota! – Comemorou meu amigo, provavelmente imaginando o quanto o corte me fizeram bem. – Isso é só o começo, quando você acabar nunca mais vai sentir dor. Continua! 

 

E era o que eu queria fazer, mas senti os braços amolecerem e perdi a vontade de continuar. Será mesmo que não tinha mais jeito pra mim? O Mateus dizia que tinha. Ele falou que ia me ajudar, não disse? Mesmo depois de descobrir que eu tinha matado meu pai, ele prometeu que não me abandonaria. 

 

– Continua, Gabriela! – O Trix ordenou, andando ao meu redor feito uma barata tonta. – O que você está esperando? – Gritou, e eu me assustei.

 

– Mas… – Murmurei com os olhos arregalados. 

 

– Ah, já sei! – Disse com um ar irônico. – Você tá pensando naquele idiota, né? O Mateus nunca vai te ajudar! Ele é um mentiroso. Lembra do primeiro beijo de vocês? Ele fingiu gostar, mas foi só porque não teve coragem de te rejeitar. Por pena, Gabriela, ele te beijou por pena! – A dor que atingiu todo o meu corpo ao lembrar da cara arrependida do Mateus depois do beijo foi maior do que a que eu sentia no pulso. 

 

Com raiva afundei novamente a lâmina na pele, dessa vez no pulso esquerdo, e com mais força. Gemi baixinho quando a epiderme se abriu e mais uma vez o Trix comemorou. 

 

 

– Isso! Você consegue, não é tão difícil colocar um fim na própria vida. – Não era pra ele que não passava de um fantasma. Quando decidi me matar, não imaginei que seria trabalhoso. Saber que aquele pode ser os últimos minutos que você respira, e que só você pode decidir isso, é um poder doloroso demais. 

 

E se tudo fosse diferente? E se eu tentasse mudar mais uma vez? E se eu desse uma chance para amar minha mãe e pedir que ela me amasse? E se eu fosse para a terapia? E se de repente eu acordasse amanhã e minha vida fosse outra? E se eu tivesse errada e as pessoas não virassem as costas pra mim quando assistirem meu vídeo? E se minha mãe me perdoasse…. E se… E se… E se o Mateus estivesse falando a verdade e Deus realmente me amasse, mesmo eu sendo uma assassina? 

 

– Você é burra, Gabriela? Nada disso vai acontecer! – O Trix parecia mais perturbado do que eu, pulando do meu lado e gritando no meu ouvido. – O Mateus está mentindo! Sabe esse Deus que ele tanto fala? – Esperou alguns segundos para que eu assentisse. – Ele era meu pai! Ele me criou, e sabe o que fez comigo? Me rejeitou! Me colocou pra fora da sua casa! – A voz do Trix estava carregada de dor e mágoa. Olhei pra ele assustada e esperei que continuasse. – Me jogou no fundo do poço e me deixou sem nada, apenas porque eu queria ter um pouquinho de sucesso a mais do que ele! Esse Deus é egoísta. manipulador e cruel! Se você seguir Ele vai se dá mal! Vai ser uma maldita assim como Ele! 

 

Minha respiração estava tão ofegante quanto a dele, e quando pensei que tinha acabado continuou:

 

– Sabe porque o número três é tão importante pra mim? – Neguei e ele abriu a boca com mais ódio do que antes. – Porque Ele criou mais dois seres para ser seus filhos no meu lugar! Disse que juntos seriam uma família, uma maldita trindade! Eu odeio meu pai assim como você odeia o seu! Eu já vivi o suficiente pra saber que esse ódio e essa dor nunca acabam, por isso estou sendo sincero com você! 

 

Eu sabia que o Trix era problemático, mas agora eu sabia o motivo: rejeição. Só que sente na pele sabe o quanto isso desestrutura alguém. Aquele anjo, amigo, fantasma, sei lá o que era, podia até não ser desse mundo, mas ele sentia dores tão reais quanto as minhas. 

 

Não havia motivos para não acreditar no Trix. Ele sabia o quanto doía ser considerado um erro e depois colocado de lado. Se ele estava certo ou errado sobre a morte, eu não sabia, e só havia um jeito de descobrir. 

 

Respirei fundo, fechei os olhos e cortei o braço esquerdo primeiro. Assim que a lâmina atingiu a veia, eu dei um grito de dor. Aliviada por saber que seria a última vez que eu sentiria isso. 

 

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