Eu odeio Ele

A escolha

Uma pessoa imatura pensa que todas as suas escolhas geram ganhos. Uma pessoa madura sabe que todas as escolhas têm perdas.” – Augusto Cury

Se um dia você me perguntasse qual era o meu maior desejo, com certeza minha resposta seria: liberdade. Tudo o que eu mais queria era ser livre para fazer minhas próprias escolhas e viver minha vida de uma maneira que no futuro eu tivesse muitas histórias para contar.

Hoje, se você me perguntar qual o meu maior desejo, eu respondo, sem pestanejar: voltar no tempo e jogar a liberdade que eu consegui no abismo mais profundo, que para muitos é o inferno.

Não me entenda mal, eu gostei de ser soberana no meu próprio reino, o arrependimento só veio quando as consequências das escolhas chegaram.  

Mas por enquanto não vamos falar disso. Aconteceram muitas coisas até eu ser prisioneira do meu caminho. Consegui várias histórias para contar, daria até para fazer um livro, só não tenho certeza se o final seria tão feliz quanto eu esperava.

Permita que eu te guie pelas páginas da minha vida…

Dizem que o aniversário de 15 anos é um marco na vida das meninas, eu nunca entendi isso, sempre ficava pensando o que acontece de tão diferente nessa idade, até eu chegar nela.

Não quis festa, contrariando todos os sonhos da minha mãe, que desde os meus 10 anos sonhava em me vê dançando valsa com meu pai. Como não sei dançar não me senti mal em frustra-la, era isso ou ser envergonhada diante de todos os meus amigos.

Meus pais não gastaram dinheiro com as ostentações de um aniversário e isso aumentou mais ainda a sensação de independência que eu comecei a sentir à meia-noite do dia 10 de março.

Na manhã seguinte, enquanto tomávamos café da manhã, eu disse que queria ir pra escola sozinha. Era algo simples, mas foi o primeiro passo rumo a minha liberdade, e assim fui gradativamente saindo do controle dos meus pais.

Comecei a matar aula para ficar com os amigos ou para ter algum encontro. Claro, tudo escondido, já que meus pais sempre foram pessoas conservadoras, e já implicavam naturalmente com qualquer amiga que não fosse a Clara, mal sabiam eles que ela era quem mais queria que eu saísse da linha.

Depois de um mês, só faltava uma coisa para que eu tivesse ilusoriamente o total controle de minha vida (digo ilusoriamente porque é impossível uma garota de 15 anos que mora com os pais e é sustentada por eles ter domínio total sobre si): deixar claro para minha família que eu não queria mais ir à igreja que eles frequentavam.

Meu pai e minha mãe são cristãos, então desde muito nova vou à reuniões desse meio. (Eu gostava. Adorava as histórias que contavam de Jesus na escolinha.) Cresci ouvindo sobre como eles sofriam antes de conhecer Jesus e de como Ele mudou suas vidas.

Quando eu era mais nova essas histórias me fascinavam, mas depois entendi que tudo não passava de uma manipulação. Meus pais queriam me controlar e achavam que só conseguiriam isso se colocassem em minha cabeça que “só está seguro quem faz a vontade de Deus” ou que “o Todo poderoso sabe o melhor para cada um de nós”.

O mais engraçado disso tudo é que um versículo na Bíblia que sempre me chamou atenção é o que fala sobre o livre e arbítrio, comecei a me questionar sobre a bondade de Deus, já que supostamente podemos fazer o que desejamos, mas só estamos livres do “mal” quando fazemos as coisas do jeito Dele.

–Pai, estou indo à uma festa com a Clara. – Falei em uma tarde qualquer, logo antes do jantar. Eu demonstrava coragem e firmeza, mas por dentro estava morrendo de medo de ser barrada. 

Para minha surpresa, ele só perguntou onde seria e com quem eu ia. Respondi e dei as costas, não queria correr o risco de mais perguntas surgirem e assim eu acabar em uma festa solitária no meu quarto.

Quando eu já estava na porta, meu pai me chamou.

–Filha, – virei com medo do tom de voz paternal que antecede uma bronca – eu não vou poder te controlar a vida toda, você já pode fazer suas próprias escolhas, mas não esqueça que as consequências também serão suas.

Tive vontade de chorar. Naquele momento algo se rompeu entre nós. Meu pai estava me deixando viver, estava me tirando de suas asas e por alguns segundos tive medo de não saber voar.

Olhei pra minha mãe, que por um milagre assistia a cena sem palpitar, e pela primeira vez vi a tristeza em seus olhos. Uma lágrima desceu e acredito que naquele momento ela percebeu que sua filha não era mais a garotinha que pedia a opinião dela até pra roupa que ia vestir. Tenho certeza que minha mãe se perguntou aonde perdeu o controle sobre mim.

Capítulo 1

“Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira…” (Marcos 8:35)

Era minha primeira vez em uma boate e ninguém precisou me ensinar como dançar ou agir. Foi algo natural. A música era Don’t look down, de Martin Garrix, e a cada movimento meu corpo se sentia no céu.

Depois de um tempo eu já estava cansada, mas não queria sai da pista, tinha medo daquela euforia ir embora e por isso fiquei irritada quando a Clara me puxou e disse para irmos beber alguma coisa. Aproveitei para passar no banheiro e no caminho vi pessoas fumando maconha, conversando ou ficando — tinha um cara com duas garotas ao mesmo tempo, intercalando as bocas e elas pareciam não ligar, tive vontade de vomitar.

Quando íamos entrar no banheiro ouvi um grito vindo do masculino e fiquei curiosa.

– O que você está fazendo? – A Clara quis saber.

– Ouvi um barulho estranho, quero saber o que é.

– Você tá maluca, Priscila? Deve ser alguém se pegando. – Ela puxou meu braço e eu me mantive firme. Estava começando a viver a vida, mas sabia diferenciar quando um grito era de prazer ou dor.

Espiei da porta, com cuidado pra ninguém me vê, não ouvi nenhum barulho além de risadas e conversas, então novamente o grito, só que dessa vez foi abafado. Me enganei, era no banheiro feminino.

—Priscila, vamos sair daqui.

Minha curiosidade era maior.

—Não, vamos ao menos vê o que está acontecendo.

Mesmo contra sua vontade, ela obedeceu.

Coloquei metade do meu corpo pra dentro e desejei nunca ter feito aquilo. Um garoto engarguelava outro na parede. Não era uma briga justa. O selvagem devia ter uns 18 anos e era forte, seus braços pareciam duas bolas de futebol, e a presa não devia ter mais do que 15 anos, e mais parecia aqueles bonecos de palito que desenhamos quando temos seis anos. 

Os murros no estômago do boneco se intensificaram e ele alternava entre gritos e sussurros de misericórdia. Eu não consegui me mexer, nunca tinha visto ninguém apanhar ao vivo, e tudo piorou, quando o garoto chamou pela mãe.

Ele só queria ficar vivo, era um adolescente que, provavelmente, como todos os outros, chama pela mãe quando as coisas ficam feias. Mas o selvagem não via assim. Ele continuava batendo e quando os murmúrios e socorro começaram a lhe incomodar transferiu os socos para o rosto do garoto.

Aquilo foi demais pra mim, parte do meu cérebro dizia que eu tinha que fazer alguma coisa, mas o meu corpo inteiro não conseguia obedecer.

– O que está acontecendo, Priscila? – A voz da Clara me despertou da dormência.

– Um homicídio, precisamos chamar a policia. – Minha intenção era sussurrar, mas não consegui e, então, eles nos viram.

Eu sabia que tinha que sair dali, e, dessa vez, não pra salvar o garoto, mas pra mim salvar.

– Priscila, vamos! Ele vai nos matar! – A Clara estava desesperada, mas nenhuma das duas conseguiu se mexer quando o selvagem nos olhou.

Seu olhar era profundo e sombrio. A esclera estava da cor de um vermelho tão vivo que a primeira impressão que tive foi que era sangue.

Ele nos avaliou e quando percebeu que tinha plateia para o seu show, soltou o garoto, que caiu esparramado no chão parecendo purê de batata, e começou a andar em nossa direção, lentamente.

Até então, não tínhamos conseguido nos mexer, mas foi sua voz grave, arrastada e ameaçadora que nos fez entender que ou corríamos ou morríamos.

– Pega elas, Fumaça. – Não sabíamos quem era Fumaça, nem tínhamos visto uma terceira pessoa no banheiro, mas não quisemos esperar pra vê.

Só fizemos uma coisa: correr.

Chamávamos a atenção de todos que passavam por nós. Atônitas, as pessoas iam abrindo caminho pra duas malucas desorientadas passarem. É claro que todos saibam que estávamos correndo de alguém, que algo tinha dado muito errado, mas ninguém nos parou para perguntar o que tinha acontecido.

De repente ali pareceu o pior lugar do mundo para está. A música, a festa, tudo ficou insuportável.

Corremos tão rápido que eu podia quase sentir meu coração perfurando minha pele e minha respiração pedindo socorro. Eu não fazia ideia se eles tinham vindo atrás da gente e nem ousei olhar pra trás. Preferi acreditar que a ameaça foi só pra nos causar medo, que na verdade, o selvagem não ia desistir de bater no menino. Mas eu estava enganada.

Eles nos esperavam na porta da boate. Àquela hora a rua estava deserta e nenhum segurança estava por ali. No meu primeiro dia de festa eu já aprendi uma valiosa lição: a principal meta de vida de alguém ao ir à balada é não precisar de ajuda em nenhum momento da noite.

– Por favor, nos deixe ir embora, juro que não vamos falar nada pra ninguém. – A Clara suplicou, ao se jogar no chão.

Eu fiz o mesmo. Por mais que quisesse continuar fugindo, não podia. A boate era grande e corremos muito. Se não sentássemos íamos morrer de cansaço. O que era melhor do que morrer nas mãos daquele sanguinário.  

– Você é burro??? – Seus gritos faziam parecer que seu parceiro estava na outra rua, e não do seu lado. Ela não pode sair daqui! – O uso do pronome no singular chamou minha atenção, mas atribui o erro as emoções fervorosas do momento.

Em minha cabeça eu planejava alguma maneira de fugirmos, eu estava determinada a não morrer. Já a Clara só fazia chorar, só não fique irritada porque eu tinha nos metido naquela situação.  

– Toddy, as meninas só apareceram no lugar errado e na hora errada. Libera elas. – A postura cabisbaixa e o a voz trêmula mostravam o quanto o Toddy tinha influencia emocional sobre o Fumaça.

O diálogo acontecia como se não estivéssemos ali e vi nisso nossa chance de fugir.

– Fica calado! Se você estragar tudo eu te mato também! – O Fumaça recuou, e quando eu estava sinalizando pra Clara se preparar porque íamos correr, o selvagem  voltou a atenção pra nós duas.

– Vocês duas irão ficar quietinhas – enquanto ordenava, vinha andando em nossa direção com o revólver apontado – e vão fazer tudo o que eu mandar.

Nesse momento a paralisia corporal já tinha voltado, e a última coisa que minhas pernas queriam fazer era correr. Eu sabia que se corresse ele ia atirar, então conclui que nossa melhor chance era esperar o momento certo.

A Clara continuava chorando e aquilo o irritou tanto que ele puxou o gatilho.  Segurei na mão dela e apertei forte. Nem sei por quê fiz isso. O medo que eu sentia era tão igual ou maior que o dela. Eu suava descontroladamente e tudo o que eu conseguia pensar era que íamos morrer.

Quando o Toddy estava a três passos de encostar a arma em uma de nós ouvimos o disparo.

Capítulo 2

“Não se alegre quando o seu inimigo cair, nem exulte o seu coração quando ele tropeçar.” (Provérbios 24:17)

A primeira coisa que pensei foi na dor. Ele tinha atirado e em algum momento meu cérebro paralisado ia descobrir em qual parte do meu corpo o tiro tinha pegado.

Alguns segundos depois percebi que a vítima não era eu. 

O Toddy estava estirado, completamente apagado e com a barriga toda ensanguentada. Seu amigo permanência no meu mesmo lugar de antes e na mesma posição, a única diferença era a arma que agora estava em sua mão.

Com o olhar fixo na direção do selvagem, ele parecia em choque. Admito que aquela cena me deu um certo prazer. Senti que o garoto do banheiro estava sendo vingado.  

 – Será que ele está morto?

– Não sei, mas temos que sair daqui. – Decretou minha amiga.

Eu sabia que aquela era a chance que precisávamos para correr, mas por algum motivo me senti em dívida com o Fumaça, afinal de contas, ele atirou no amigo para proteger duas desconhecidas. 

– Não, calma, precisamos falar com o garoto.

– Você está louca? Ele vai nos matar! – O pânico na voz da Clara estava voltando, mas não me deixei abalar. Confesso que não era só agradecimento. Eu senti um pouco de pena dele. Por causa do seu olhar mortificado me pareceu que ele não tinha matado apenas um parceiro do crime que se achava no direito de controlar sua vida, mas sim, um pai.

Ignorei os apelos de fuga da minha amiga e segui em sua direção.

– Você está bem? – Realmente não sei o que deu em mim.

– Saiam daqui! – Minha aproximação fez ele despertar do transe.

– Não precisa falar assim comigo! Eu só vim agradecer. – Rebati, e hoje me perguntou se eu estava querendo morrer naquela noite. Enfrentei um garoto que não conhecia e que tinha uma arma na mão. Preciso mencionar que provavelmente tinha acabado de matar alguém?

 – Por mim, já estávamos em casa há muito tempo. – A Clara se meteu e me puxou pelo braço.

– Sua amiga está certa, Priscila, vão logo!

A menção do meu nome não me passou despercebido.

– Como você sabe meu nome? – Perguntei perturbada. Eu tinha acabado de conhecer eles, era a primeira vez que ia à uma festa, nunca na vida ouvi o nome Fumaça ou Toddy, então o que explicava o fato daquele estranho saber quem eu era.

Minha desconfiança aumentou quando ele rapidamente se moveu em direção ao corpo do parceiro.

– Eu ouvi sua amiga te chamar. – Respondeu se abaixando perturbadamente e tocando os braços do Toddy.

Era mentira. A Clara não tinha falada meu nome auto o suficiente para que ele ouvisse. Eu podia ser uma pessoa com péssimas qualidades, mas se tinha algo que eu sabia usar bem era minha memória. Mesmo em momentos como aquele eu conseguia guardar os detalhes.

– Priscila, vamos logo! – Minha amiga estava aos prantos. Vê ela daquele jeito me fez entender que eu não tinha tempo para descobrir quem era aquele menino na minha frente ou o outro estirado no chão. Precisávamos ir embora.

E foi assim, com a curiosidade e o pânico borbulhando em minhas veias, que eu deixei pra trás um jovem caído sem nenhum sinal daquela pessoa monstruosa que era, e um garoto assustado que tinha acabado de usar uma arma no sujeito que devia ser o mais próximo de amigo que ele tinha.

Capítulo 3

“Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntou tudo o que era seu e partiu para um país que ficava muito longe.” (Lucas 15:13)

Três semanas se passaram e eu, aparentemente, estava reagindo da forma mais sensata ao ocorrido. É claro que eu não conseguia esquecer por um dia sequer aquela noite. Demorava horas para dormir revivendo as cenas desde o banheiro até a partida, e quando finalmente pegava no sono acordava no meio de um pesadelo em que o Toddy estava atrás de nós. No final do sonho eu sempre parava nos braços do Fumaça, que de um jeito sombrio sussurrava meu nome.

Na escola, eu não conseguia prestar atenção nas aulas, e por isso, tive que aumentar o meu tempo de estudo à tarde pra não ser prejudicada no final do ano. Meus pais devem ter percebido algo diferente em mim, eu já não conversava tanto como antes e passava mais tempo no meu quarto do nunca. Imagino que eles associaram essas mudanças à minha recente decisão de renegar a opinião deles na minha vida.

Enquanto eu tentava fingir que estava tudo bem e continuava fazendo as coisas de antes normalmente, a Clara tinha crises repentinas de choro e estava faltando mais aula do que o normal.

Marta, sua mãe, sempre que me via perguntava se eu sabia de alguém que poderia ter feito alguma coisa contra a ‘Clarinha’. Já não tinha mais nem resposta. Ficava dizendo que era preguiça de ir à escola ou só TPM, mas tava difícil de acreditar, já que a falta de apetite da Clara e a suspensão da ida à festas não ajudavam muito.

– Clara, você precisa parar com essa paranoia! – Alertei, quando estávamos voltando da escola e ela tinha rejeitado o terceiro convite de uma festa no mês. Aquilo também estava me prejudicando. Eu não queria deixar de curtir por conta do medo, mas não podia fazer isso com minha amiga sendo tão antissocial.

– Eu não sou você, Priscila. Estou traumatizada, não paro de pensar que aquele cara pode aparecer a qualquer momento e nos matar.

– Ele deve ter morrido. – Afirmei com uma voz que deixava nítido o quanto eu tentava convencer a mim mesma daquilo.

– Mas ainda tem o amigo dele, o tal do Fumaça. Ele me pareceu bem descontrolado. Fico imaginando se não pretende aparecer só pra apagar as únicas testemunhas do que ele fez.

Eu não tinha pensado naquilo. Fiquei tão perturbada com a possibilidade do Toddy não ter morrido e resolver terminar o que começou, que acabei fechando os olhos para os outros riscos que corríamos.

– Ele sabia meu nome. – Pensei alto.

– Isso é o menos importante. Eu realmente devo ter te chamado.

– Eu lembraria.

– Impossível, amiga. – A Clara tentou me acalmar pela primeira vez naquelas três semanas. – Ficamos muito nervosas, não tem como lembrarmos de tudo.

Eu não disse mais nada. Sabia que minha mente podia está me enganando e eu não ter guardado muitos detalhes, mas algo me dizia que eu estava certa em me preocupar.

Uma noite após essa conversar, eu estava desligando o computador, depois de passar 2 horas assistindo Flash na tentativa de sentir sono e conseguir dormir direito, quando uma pessoa cai da janela dentro do meu quarto.

Minha luz ainda estava acessa, e por isso o susto não foi maior. Era ele. O garoto não sabia só quem eu era, mas também onde eu morava.

Minha primeira reação foi gritar e correr pra porta, mas antes que eu conseguisse destrancar, o Fumaça chegou perto de mim e prendeu minha mão que estava na fechadura.

– Me larga ou vou chamar meus pais! – Falei alto de propósito.

– Para com isso, garota, eu não vou fazer nada com você. – Sua voz estava baixa e tranquila, e a proximidade me obrigou a olhar em seus olhos. Pela primeira vez eu o vi de verdade.

Ele tinha um olhar profundo e triste, que me despertou pena. Eu sou daquelas pessoas que acreditam no famoso clichê “os olhos são as janelas da alma”, e por esse motivo sempre tento decifrar as pessoas através dessas pequenas bolas. No caso do Fumaça, não eram tão pequenas assim.

Seus olhos, do tamanho de uma moeda de 25 centavos, pareciam assustados – com o tempo, descobri que eram assim por natureza – o que combinava perfeitamente com o desenho do seu nariz e suas bochechas nem gorduchas nem magrelas.

– Eu preciso que você me ouça com calma. Eu só quero conversar. – Em contrapartida, sua voz era tranquila e insanamente agradável.

Fiquei tentada a gritar, mas como eu explicaria aos meus pais onde conheci aquele garoto? Eles nunca acreditariam que eu não tinha dado o endereço da minha janela pra ele. Resolvi ao menos ouvir o que ele tinha pra dizer, na pior das hipóteses eu o empurrava pela janela.

Sim, naquela ocasião não passou por minha cabeça que ele podia está armado, e aí eu que seria empurrada janela a baixo.

– Como você sabe onde eu moro? – Juntando todas as poucas técnicas de encenação que eu sabia, tentei fingir calma e tranquilidade. Puxei minha mão da sua, e sem muito esforço consegui soltar. Sai de perto dele e fui andando em direção a minha cama, ele me acompanhou.

– Um estranho está dentro do seu quarto e antes de querer saber o porquê você pergunta como ele descobriu sua casa?

– Fala o que você quer, garoto. – Prometi a mim mesma que iria dá um minuto pra ele se explicar, se  assim não fizesse, eu ia pedir socorro.

Vendo minha impaciência, começou.

– O Toddy não morreu. – Aquela notícia balançou minhas estruturas e tive vontade de chorar. No fundo eu alimentava a esperança de que ele tinha batido as botas, e o fato disso não ter acontecido me impediu de segurar todo o medo que eu estava sentindo. – Fica calma, eu não to aqui porque ele mandou.

– Você veio me matar! Sai daqui, vou chamar a polícia! Sai!!

– Presta atenção, Priscila: Eu vim aqui pra te ajudar! – Seus braços não estavam dando conta de me segurar, e deu pra perceber que ele mesmo estava ficando com medo. – Se não fugirmos ele vai nos matar!

– Seu idiota, filho de uma mãe, me solta!! – Minha ânsia de sair dali impedia de ouvir as palavras dele com atenção.

Vendo que de nada ia adiantar pedir pra eu me acalmar, brutalmente me jogou na cama. Aquilo tirou minha atenção do medo, mas também despertou minha fúria. Quem ele pensava que era pra me tratar daquele jeito? Eu o tinha visto atirar em alguém, podia  entregá-lo para polícia.

Antes que eu começasse uma tempestade de acusações, tratou de falar.

– O Toddy não está nada feliz em saber que eu atirei nele pra defender duas patricinhas que ele queria mortas. Você sabe muito bem que se meteu no nosso caminho naquela noite, então ou você vai fazer o que eu disser ou vai ficar sozinha e pagar pra vê.

Sua voz passara de agradável para ameaçadora. Eu não conseguia me mexer, não conseguia acreditar no que ele estava dizendo e só pensava que na verdade era ele quem queria me matar.

 Capítulo 4

“Quem anda com integridade anda com segurança, mas quem segue veredas tortuosas
será descoberto.” (Provérbios 10:9)

– Você não está acreditando em mim, não é? Olha essa mensagem e veja se o que estou dizendo é mentira.

Pegou o celular no bolso, e sem desviar a atenção de mim, colocou um áudio do Whatssap:

“Seu moleque desgraçado, você vai pagar pelo o que fez comigo. Isso não vai sair barato! Eu vou achar você e aquelas vadias.”

Quando eu pensei que tinha acabado, outra bomba:

“Fomos muito bem pagos pra acabar com aquele garoto, quando ele descobrir que não fizemos isso, vai atrás de mim, de você e delas. Torça pra que eu te encontre antes disso.”

O que o pobre garoto tinha feito pra alguém desejar tanto seu fim? Mas aquele não era o foco, eu primeiro tinha que me concentrar em como me livrar daquela ameaça.

– Como você pretende se safar? – Perguntei, ainda em estado de choque.

– Eu não faço a mínima ideia. A única coisa que pode dá certo é se fugirmos. – Ele falou de uma forma tão natural que pareceu que éramos namorados e estávamos planejando uma fuga romântica.

– A gente? Eu nem te conheço, não faço a mínima ideia do porquê você está tentando me ajudar, então a última coisa que eu vou fazer é fugir com você. Posso chamar a polícia e contar tudo o que aconteceu. – Eu não queria que isso soasse como uma ameaça, por algum motivo ele estava me ajudando desde aquela noite louca, então independente das suas intenções eu sentia como se estivesse em dívida com ele.

– Priscila, a polícia não pode te ajudar. Nenhum policial vai ficar 24 horas com você. Sem falar na sua família. Ou você está esquecendo que seus pais também correm perigo? O Toddy não é burro, ele não vai aparecer quando todos estiverem esperando. Uma hora vocês vão vacilar e achar que está tudo bem, e vai ser nesse momento que irão se deparar com as consequências da sua escolha. E pode crê que a família da Clara também corre riscos.

Ele pareceu está juntando todas as suas forças para falar aquilo. Não parava nem sequer pra respirar, estava totalmente focado em me convencer. Objetivo que conseguiu no momento em que falou dos meus pais.  

– O que eu tenho que fazer? – Já me sentia derrotada.

– Fugimos pra casa de um amigo meu e depois despistamos o Toddy, e ai esperamos até ter certeza que é seguro voltar.

– E quando vai ser seguro? – Me questionei se um dia seria. Aquele pensamento me deu tontura e falta de ar. Olhei em volta do meu quarto e não consegui segurar o choro. Como fui me meter naquela situação? Eu estava com um garoto completamente estranho dentro do meu quarto e acabara de ouvir a notícia que mudou toda minha vida.

Amaldiçoei a noite em que o vi pela primeira vez. Amaldiçoei minha ida àquela festa. Amaldiçoei minha curiosidade, e por fim, desejei voltar no tempo e perguntar aos meus pais se eu podia ir àquela maldita boate.

 Enquanto tentava recuperar o controle da situação mais ar me faltava. Meus pais já estavam dormindo, quis chamá-los, gritar, pedir ajuda, dizer o que tinha acontecido,  talvez as coisas pudessem se resolver…

Ele já tinha me convencido no momento que apresentou os outros riscos, porém ainda tinha uma coisa me incomodando.

– Por quê?

– O quê? – Se fez de desentendido, mas seus olhos vacilões deixavam claro que tinha entendido.

– Por quê você quer me ajudar? – Esbravejei, àquela altura não me importei se meus pais iam acordar. – O que você ganha com isso? Você nem me conhece!

Ele se afastou e começou a andar em círculos pelo meu quarto.

– Responde! – Insisti.

– Priscila, eu já fiz muita coisa errada nessa vida, – nesse momento ele parou em frente ao espelho, ao lado do meu criado mudo, e ficou encarando o próprio reflexo – e a maioria delas foi por conta do Toddy. Eu não atirei nele pra salvar duas estranhas, eu atirei nele por vingança, e continuo me vingando quando não deixo que ele nos alcance.

Agora sim, estava tudo explicado.

 Capítulo 5

Porém seu pai e sua mãe lhe disseram: Não há, porventura, mulher entre as filhas de teus irmãos, nem entre todo o meu povo, para que tu vás tomar mulher dos filisteus, {…} E disse Sansão a seu pai: Toma-me esta, porque ela agrada aos meus olhos. (Juízes 14:3)

Se você me perguntar se eu já quis ser atriz a resposta será um sonoro não. O máximo que eu já fiz em uma peça foi quando eu tinha 6 anos e fui obrigada a participar de uma apresentação na minha escola sobre a história de João e Maria. A garotinha que seria a protagonista quebrou o pé e eu tive que substituí-la.

É claro que existiam outras alunas pra fazer isso, mas minha mãe queria muito que eu desenvolvesse uma paixão por teatro, já que seu sonho sempre foi ser atriz, e combinou com a professora de me colocar no papel.

Foi o dia mais vergonhoso da minha vida. Eu não lembrei de nenhuma fala e se não fosse o ‘João’ repetindo que iria me bater caso eu não acertasse, tinha caído na hora do espetáculo e fingido um desmaio.

Hoje, continuo sem um pingo de vocação pra encenar. E isso ficou ainda pior quando me deparei vivendo na minha vida um verdadeiro roteiro de novela.

E pra piorar ainda mais a situação, aqueles roteiros água com açúcar em que a mocinha foge com o amor da sua vida. Tudo bem que eu não conhecia direito o garoto que estava pilotando a moto a 200 km\h, mas era assim que eu me sentia. Uma mocinha, só que ao contrário da novela, eu estava fugindo com o vilão.

Enquanto o vento tocava meu rosto e fazia meu cabelo voar por entre o capacete comecei a pensar sobre o momento exato que perdi o controle de tudo. Eu só queria curtir e viver minha vida, por qual motivo fui parar na garupa de uma moto segurando a cintura de um cara que só estava me ajudando pra se vingar do amigo?

De repente um pensamento me ocorreu: eu não sou ateia, e mesmo fazendo escolhas contrárias aos ensinamentos que cresci ouvindo, eu continuava acreditando em Deus.

E se o problema estivesse justamente Nele? E se no dia em que ignorei Seus princípios tenha causado uma revolta no campo celestial ao ponto da ira Dele se voltar contra mim?

Era um pensamento absurdo, mas eu estava completamente perdida, e não fazia ideia de como encarar àquela situação. Não era uma explicação lógica, mas foi a única que consegui formular.

Meus pais sempre me disseram que Deus é bom, mas e se Ele, assim como o Fumaça, fosse vingativo? Na Bíblia existem várias histórias de tensão entre o Senhor e “seu povo”, conflitos que nunca entendi.

Se Ele é tão misericordioso porque permitia que as pessoas sofressem sempre que O rejeitavam? Chegar àquela conclusão me deu medo. Se eu estivesse certa, então devia me preparar, porque eu não estava fugindo apenas com o vilão, eu tinha me tornado nociva as artimanhas de Deus.

– Você precisa dormir, a viagem vai ser cansativa. – O Fumaça advertiu, uma hora mais tarde, quando já estávamos em um hotel de beira estrada. Eu não tinha prestado atenção nas placas, mas pelo o que ele falou, a alguns quilômetros estava a cidade de Tatuapé.

– Não consigo. – Respondi melancólica, não só por toda a situação, mas porque o sol já estava prestes a nascer e eu odeio quando isso acontece e eu estou acordada. A sensação de nostalgia e melancolia é horrível.

– Ficar pensando nos seus pais só vai piorar tudo. Precisamos nos concentrar em nos manter vivos. – Ele falou como se meus pais não fossem mais tão importantes quanto eram quando estava tentando me convencer.

– Você tem ideia do quanto eles vão enlouquecer quando chegarem do trabalho e perceberem que eu não voltei da escola, e nem liguei o dia inteiro!

– Se você tivesse me ouvido teria deixado um bilhete. – O desdém em sua voz me deixou ainda mais irritada.

– Eu não sou esse tipo de garota! Eu posso não concordar sempre com eles, mas largar tudo sem dá nenhuma satisfação não é minha praia!

– Fala baixo! – Pela primeira vez ele olhou pra mim, desde que saímos do meu quarto. Eu estava em cima da única cama de solteiro, e ele no chão, mas mesmo a posição superior não impediu que um arrepio percorresse meu corpo diante do seu olhar frio e de sua voz grossa.

Eu não queria que ele percebesse a reação que tinha causado, então respondi, com a voz mais firme que consegui:

– Seria bom você falar comigo direito, nenhum de nós dois queremos que eu desista dessa ideia maluca e peça socorro pra primeira pessoa que encontrar. – Como eu disse antes, nunca fui uma boa atriz. Essa ameaça não saiu no tom que eu queria, mas mesmo assim, ele fingiu acreditar e se deitou novamente.

Alguns minutos depois eu chorava silenciosamente imaginando o desespero dos meus pais, quando ouvi a mesma voz agradável do inicio da noite:

– Vou dá um jeito de você ligar pra eles.

Eu não respondi. Sabia que não podia confiar nas promessas de um desconhecido que não se importava de verdade comigo ou com minha família.

Eram quase 6 horas da manhã quando um barulho nos fez despertar no susto.

– O que foi isso, Fumaça?

– Precisamos sair daqui! – Ele já foi logo pegando nossas poucas coisas, eu o imitei.

– Mas por onde? – Olhamos em volta do quarto e não vimos uma solução, mas o outro chute na porta, nos fez enxergar a janela.

– Vamos pular, é a única saída.

– De jeito nenhum! – O quarto ficava no primeiro andar, mas mesmo assim eu sabia que me espatifaria.

– Você vai morrer sozinha! – Como podia pensar na possibilidade de me deixar sozinha?

– Nem pense em deixar! – Seu braço em frações de segundos se desvencilhou da minha mão quando junto com um chute veio um grito:

– Abre essa porta agora, garoto!

Mesmo tendo escutado poucas vezes, eu jamais esqueceria a voz do Toddy, e com toda certeza não era aquela.

 Capítulo 6

“Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau.” (Provérbios 13.20)

– Quem está na porta, Fumaça?

– Não quero descobrir! – Quando disse isso, não se passaram nem dois segundos e ele pulou.

Eu não conseguia acreditar que ele tinha me deixado, de repente o medo foi substituído por uma raiva impetuosa e eu que quis, por alguns segundos, que o cara da porta o pegasse. Mas isso passou assim que o quarto foi invadido e eu ainda estava no dilema de pular ou não.

– Vem logo, garota. – O Fumaça gritou, já com o motor da moto ligado.

– Se você pular vai ser pior, princesa. – A voz soou ameaçadora atrás de mim, e eu não esperei pra descobrir se falava a verdade ou não. Meu instinto de sobrevivência falou mais alto do que o medo de se quebrar.

Nem tive tempo de avaliar a forma como encontrei o chão, ignorei a dor e o sangue que emanavam do meu joelho e corri pra moto.

O cara ficou nos xingando, mas não demorou muito até repetir a nossa ação.

A moto logo estava a todo vapor, e corríamos como se estivéssemos em uma corrida, e deixar os outros competidores passar um milésimo da gente, fosse custar a nossa vida. O que não era de todo uma mentira.

Eu não olhei pra trás uma vez sequer, porém podia sentir que ele estava nos seguindo. A paisagem, as placas, os outros carros, tudo passou despercebido. Se o Fumaça batesse, eu só perceberia depois de já está no chão, talvez morta.

Chegamos a uma parte da estrada que estava em obras, então tinha alguns veículos provocando engarrafamento. Isso estava no topo das 10 coisas que mais me irritam na vida, e é um dos motivos para eu não almejar, como tantas pessoas, tirar a carteira de habilitação. Mas naquele momento agradeci.

Por conta da moto, conseguimos passar entre eles, mas o cara teve que parar e pude imaginar seu ódio.

– Vamos ter que abastecer. – O Fumaça anunciou, depois que percorremos uns 5 quilômetros.

– É mesmo necessário? – Eu temia que parar significasse nossa morte.

– Estamos ficando sem gasolina, se ignorarmos o próximo posto, corremos riscos maiores.

Chegamos a um posto Ipiranga e a fila estava grande. Devia ser o único nas redondezas. Enquanto esperávamos, comecei a digerir o que tinha acontecido.

– Essa foi por pouco, – minha voz ainda estava ofegante e meu coração a mil – quem era aquele cara, Fumaça?

– Com certeza o Toddy descobriu onde estávamos e mandou ele atrás da gente. – Ele respondeu, com a voz não muito diferente da minha. Dava pra ver que também continuava nervoso.

– Assim, tão rápido?

– Ele não trabalha sozinho, Priscila. – Ao falar isso seu rosto ficou sombrio e me perguntei se realmente estava falando do amigo. O olhar profundo voltado pro chão me fez pensar se tinha uma terceira pessoa envolvida, alguém que eu devesse temer mais do que ao Toddy.

– Temos que sair daqui o mais rápido possível, ele não vai dá esse vacilo de novo.

Eu ia responder alguma coisa, mas de repente não consegui. Lágrimas corriam pelo meu rosto, e os soluços pareciam arrancar minha garganta.

– Para com isso, garota, todo mundo tá olhando pra gente. Vão pensar que te bati. – Sua voz voltou a ficar dura, e sua mão apertando minha coxa deixou claro que era uma ordem. O que só me fez chorar mais ainda. – Priscila, pelo amor de Deus, você quer nos ferrar mais ainda?

Antes que outro aperto na minha coxa aumentasse as lágrimas, eu o abracei por trás. O gesto o endureceu e o deixou sem palavras. Não era minha intenção, eu só não queria que as pessoas pensassem que ele tinha me agredido, ou algo do tipo. Eu não podia piorar tudo.

A fila andou e eu continuei grudada nele. Enquanto o frentista abastecia, tentava fazer algum contato visual comigo pra saber se devia me socorrer.

– Ela torceu o joelho. – O Fumaça tentar explicar, mas sua falta de coragem pra encarar o funcionário e todas as outras pessoas no posto, entregava a mentira. – Fica calma, Pri, vamos parar no próximo posto médico. – Na tentativa de amenizar a cena, ele desceu da moto e me virou de lado.

– Eu … E.. Eu – Murmurei e cai em seu pescoço, foi minha vez de ficar surpresa: ele me abraçou.

– Vai ficar tudo bem, garota. – Apesar do tom de voz distante e seco, seus braços eram aconchegantes e seguros. Eu estava apavorada. Não fazia nem dez horas que eu tinha fugido e mais pareciam anos.

Um buraco se instalou no meu peito, e aquela sensação era nova e assustadora. Eu não sabia como reagir. Pensar em meus pais só aumentava o vazio, e imaginar aquele cara nos encontrando de novo fazia minha mente ficar turva.

Eu estava assustada e não tinha ninguém pra me acalmar. Eu não confiava no Fumaça, e por mais que seus braços tentassem passar segurança, a distância que ele mantinha do meu corpo diziam outra coisa.

Ele não estava do meu lado. Na primeira oportunidade que teve me deixou pra trás sem pensar duas vezes. Tudo o que fazia e decidia era pensando em se vingar e conseguir a própria liberdade, nem que isso custasse a minha.

– Bebe, Pri, vai te deixar melhor. – Passei cinco segundos pra entender que um copo de água com açúcar estava sendo me oferecido. Quis recusar, mas a cara de preocupação do frentista me forçou a tomar.

Seguimos viagem até chegarmos à entrada de Monte Alto e um Siena preto parado na estrada me chamou atenção.

– Fumaça…

– É meu amigo, vamos ficar escondidos por uns dois dias na casa dele. Ele é assustador, mas não precisa ter medo.

– Bela forma de caracterizar alguém. – Debochei, em uma tentativa fracassada de parecer despreocupada.

– Você quer comer alguma coisa? – A pergunta me pegou desprevenida. Parecia que tinha se passada décadas desde que eu tinha colocado alguma coisa na boca.

– Hum rum. – Percebi que estava morrendo de fome.

– Come. – Praticamente jogou o biscoito em cima de mim.

Era daquele tipo água e sal. Em casa eu só como com algum recheio, mas naquele momento percebi que tinha sorte de ao menos ter o biscoito.

*************************************************************************************

– A Clara acabou de me contar o que aconteceu, Antônio, como vocês estão?

– Preocupados. Não temos noção de onde ela se meteu, nem o porquê fez isso. – O pai de Priscila estava desconsolado, ele não fazia ideia do que tinha motivado a atitude da filha.

– O que dizia no bilhete?

Antes mesmo do amigo entregar o pedaço de papel, Wilson já tinha tomado da mão dele.

“Pai, estou indo embora. Conheci uma pessoa há um tempo e estou apaixonada. Sei que o senhor e a mamãe nunca aceitariam esse namoro, por isso vou passar um tempo fora de casa.

Não se preocupem, estou bem.

Mando notícias.

Beijos, Pri.”

Wilson encarava as letras sem saber o que dizer ao amigo. Ele podia imaginar a dor que estava sentindo, afinal de contas, Priscila cresceu junto com Clara, eram praticamente irmãs.

– Vocês já ligaram pra todos os amigos dela?

– Ainda não. A Clara está ajudando a Sônia com isso, mas não tenho muitas esperanças, algo me diz que minha filha está longe.

Wilson não podia confirmar isso ao amigo, mas tinha a mesma sensação.

– Pelo menos sabemos que o pior não aconteceu, já que ela não está em nenhum hospital da região.

– Estou indo à rodoviária, você me acompanha?

Sem responder, Wilson o seguiu e por trás de Antônio criou coragem para fazer a pergunta que tanto queria:

– Você não acha que ela descobriu alguma coisa sobre…

– Não, não. – Antônio interrompeu, sabendo do que o amigo de anos estava falando. – Chegamos a pensar nessa possibilidade, mas ninguém sabe disso. A Sônia escondeu todas os documentos daquele tempo, então essa hipótese está fora de questão.

– Então só nos resta torcer para que ela fique bem e volte logo.

– É o que eu estou pedindo a Deus. Tenho certeza que Ele vai cuidar dela.

 Capítulo 7

“Estejam alertas e fiquem vigiando porque o inimigo de vocês, o diabo, anda por aí como um leão que ruge, procurando alguém para devorar.” (1 Pedro 5:8)

O Fumaça não estava brincando quando disse que o amigo era assustador. Sem falar nada, ele me despertou mais medo do que o cara que nos seguiu.

Seu olhar era escuro como a noite, e os braços fortes mostravam o sentimento de superioridade. Tinha o rosto grosseiro e uma cicatriz enorme marcava sua bochecha. Mas o pior de tudo não é essa descrição, e sim, sua forma de se vestir.

Ele usava roupas estilo marinheiro. Camisa branca e um macacão preto. Só consegui associá-lo ao assassino do filme Zodíaco. Mais do que um frio na barriga ou vontade de chorar, aquele homem causou um tremor em casa célula do meu corpo, seguido de uma negritude no meu coração. Foi uma sensação de morte.

– Como você foi fazer essa besteira, Fumaça? – Assim como a aparência, sua voz transmitia dor.

– Você sabe como o Toddy é difícil, teve uma hora que eu não engoli mais ele. – Foi impressão minha ou percebi um leve vacilo nessa desculpa? – Por quantos dias podemos ficar na sua casa, Dan?

– Pelo tempo que precisarem. – E então, naquele momento ele me olhou pelo retrovisor e o sentimento de morte de segundos atrás, voltou. – Mesmo com aquele vidrinho pequeno, conseguiu fazer uma avaliação de cima a baixo do meu corpo, parando mais demoradamente nos meus seios. O Fumaça percebeu e, estranhamente, se aproximou mais de mim. Eu não fiz nenhum tipo de objeção.

– Como está sua mãe? – Dan ignorou a pergunta do Fumaça, que mais uma vez insistiu, mas não conseguiu tirar a atenção do amigo de mim.

Sabe quando acontece algo na sua vida em que você não quer aceitar, porém de repente, sem razão aparente, cai sua ficha? Foi isso o que aconteceu comigo naquele instante, dentro de um carro com um homem sugando minha alma apenas com o olhar e com um amigo que decidia de acordo com o seu humor se me protegia ou não, foi que percebi onde estava e o por quê.

Como em apenas uma noite consegui mudar totalmente o plano que tinha pra minha vida? Eu só queria me divertir, não era justo o que tinha acontecido. Senti uma revolta, não contra mim, mas contra Deus e um sentimento de raiva encheu meu coração.

Por que Ele havia permitido aquilo tudo? Só porque eu queria viver minha vida longe de Suas regras? Foi nos Seus ensinamentos que aprendi sobre o livre e arbítrio, então por qual motivo estava tentando me punir? Só porque fiz minhas próprias escolhas? Minha cabeça girava e o biscoito ficou embrulhado no meu estômago. Nada mais fazia sentido. Por alguns segundos achei que estava em um pesadelo e que a qualquer momento minha mãe ia me acordar depois de ouvir os meus gritos e dizer que o carro, e aqueles dois homens, só existiram no meu consciente.

Porém não foi minha mãe que me acordou.

– Priscila, acorda, chegamos. – O Fumaça sacudiu meu braço sem cerimônia.

Desci do carro e o contato com a luz do sol fez meus olhos arderem. Só depois de alguns segundos consegui avaliar onde estávamos.

O lugar era distante de tudo, ficava na beira de uma estrada, e nem animal passava ali. Fiquei assustada, tentei manter o controle, mas quando o pensamento me ocorreu não consegui controlar o desespero: o que esperava por mim por trás daquela portas?

Eu estava com duas pessoas completamente estranhas. Uma eu conheci há alguns dias – em circunstâncias nada agradáveis, devo acrescentar –, não sabia se podia confiar. Já o outro, me olhava como se eu fosse um objeto brilhante e lindo de natal que fica na nossa estante apenas pra enfeitar por alguns dias, depois vai pra uma caixa no porão e ninguém lembra da existência dele. Ou na pior das hipóteses, vai parar no lixo.

Parei há dois passos da escada que antecedia a porta de entrada.

– Não vou entrar. – O Dan, que já estava com metade do corpo dentro da sala, me presenteou com um olhar tão gélido que posso jurar ter sentido frio até nos meus ossos.

– Fumaça, acho que a princesa está com medo de mim. Fala pra ela que eu só mordo quando pedem. – Zombou.

– Por favor, não consigo. – Segurei na mão vazia do Fumaça e o puxei levemente pra trás.

– Vai indo, Daniel.

– Se precisar de ajuda, é só me chamar.

O Fumaça ignorou o comentário e me arrastou de volta pro carro. Senti brevemente o que era felicidade novamente. Achei que ele ia me deixar voltar. Como você pode ver, aqui eu ainda continuava inocente.

– Ele é a nossa saída pra escaparmos do Toddy. – A explicação anulou a ordem que meu cérebro tinha acabado de dá às minhas mãos. Nem cheguei a encostar na maçaneta do carro.

– Eu to com medo. – Não era minha intenção a voz sair tão chorosa.

– Pior vai ficar se não tivermos proteção, Priscila.

– E como esse cara pode nos proteger? – A pergunta foi desnecessária. Era só olhar pra aquele rosto que eu tinha a resposta. – Ele nos protege do Toddy, e quem me protege dele?

Por conta do sol, não consegui encarar ele por muito tempo. Mas a aflição nas minhas palavras deixava claro que eu precisava e exigia uma resposta.

– O Daniel não vai fazer nada com você. – Falar isso encarando o chão revelava que nem mesmo ele acreditava naquela promessa.

Sem consegui mais me controlar, comecei a chorar. E ao invés do consolo que eu precisava, recebi indiferença.

– Que merda! Tudo você chora! Aceita logo que sua vidinha perfeita acabou e começa a colaborar pra nos manter vivos.

Assim como ele, eu também podia gritar a vontade. Ali ninguém nos ouvia.

– Em uma noite eu estou no meu quarto achando que o meu maior problema é ter que enfrentar a aula de física no dia seguinte, só que do nada descubro que não vou precisar ir à escola, porque um assassino me convence a fugir com ele! – Não parei pra respirar nem mesmo nas vírgulas, e por isso, só depois percebi o efeito das minhas palavras.

– Vamos rever os fatos – Falou, cautelosamente, olhando no fundo dos meus olhos. Ousadamente sustentei o olhar. – Você fugiu comigo e entramos em um quarto de hotel juntos, então acho que já confia em mim mais do que imagina, até porque se eu quisesse fazer alguma coisa com você já teria feito. E agora você vai entrar comigo à força.

Não tive tempo para protestar ou mesmo tentar correr. Sua reação me deixou tão surpresa e assustada que anulou qualquer coisa que eu pudesse fazer.

 Capítulo 8

“Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor.” (Efésios 6:4)

O Fumaça segurou meu braço (apertou tão forte que na hora senti ficar roxo, devido a minha cor amarelada) e foi me empurrando casa à dentro. O gesto foi tão brusco que ele parecia estar lhe dando com um cachorro.

O ódio tomou conta de mim. Meu corpo inteiro ardeu em chamas e eu estremeci. No momento em que ele me jogou na sala da casa, eu tombei, mas não pestanejei quando lhe chutei bem no meio das pernas.

Ele não esperava o golpe, e não pude ignorar a sensação de prazer quando seus olhos quase saltam da órbita.

Antes que ele pudesse raciocinar novamente e formular algumas palavras, uma senhora simpática apareceu.

– Olá, crianças. – Era impossível ela não ter visto o que tinha acabado de acontecer, mas por algum motivo fingiu que não viu. Sua voz agradável encheu o ambiente, e ela era tão baixinha que parecia ter sido feita do tamanho ideal pra casa. Foi naquele momento que eu consegui observar tudo.

A sala não era muito grande, e disputava espaço com a cozinha. Os móveis estavam todos próximos e, mesmo assim o lugar era organizado.

– Está tudo bem, Fumaça? – Fiquei com dúvida sobre as intenções da sua pergunta. Não consegui decidi se ela estava tentando avaliar se eu era o perigo, ou se já sabia quem era o Fumaça e, além de entender o que eu tinha feito, estava querendo mostrar quem mandava ali.

– Hum rum… – Ele murmurou se jogando no sofá e colocando uma almofada sobre suas pernas.

– Meu nome é Dóris, pode ficar à vontade, querida. – Senti, pelo jeito aconchegante como se dirigiu a mim, que ela estava do meu lado.

– Obrigada, prometo não incomodar. – Lembrei de todas aulas que minha mãe me deu, sobre como se comportar na casa dos outros.

– A casa é simples e pequena, mas tem um quarto só pra vocês.

Pior do que tudo o que estava acontecendo era alguém pensar que éramos namorados.

– Não queremos incomodar.

– Não se preocupe, querida, será uma prazer receber vocês. Podem ficar pelo tempo que precisarem. – Era difícil identificar se aquela educação toda era real.

Ao contrário do filho, aquela senhora pareceu ser um amor de pessoa. Ela era simpática, tranquila e agradável, mas diante da situação, eu tinha que desconfiar até de uma borboleta.

Estávamos os quatro na mesa, cada qual colocando sua quantidade de sopa, que por sinal tinha um cheiro delicioso, quando pela primeira vez, desde que entrei em sua casa, o Dan resolveu falar.

– Tá gostando da casa da minha mãe, Priscila? – Dava pra vê que ele queria agradar ela, mas nem assim, conseguia parecer com uma pessoa normal.

Fingi que não ouvi e dona Dóris interviu.

– Um lugar tão apertado, você deve tá estranhando.

– É uma casa muito agradável. A senhora cuida muito bem de tudo. – Elogiei com sinceridade e o sorriso que ela deu me fez pensar que há muito tempo não ouvia algo assim.

– De onde você é?

– Sou de São Paulo, nasci e cresci lá. – Era muito fácil conversar com ela. Por alguns momentos eu consegui esquecer os dois abutres na mesa.

– Eu já fui lá, uma vez, assim que casei. Meu marido me deu a viagem em comemoração ao nosso primeiro ano de casamento. – Disse nostálgica e com um olhar distante.

– Ex-marido, mãe! Quando você vai aceitar que ele não está mais com você?

A forma como o Dan falou com dona Dóris foi tão fria e dura que despertou o Fumaça do transe que ele estava – não tinha dado mais de duas colheradas na comida e olhava fixamente pra colher – e trocar alguns olhares comigo.

– Eu sei, filho, foi só um deslize…

Minha vontade era defendê-la e dizer que não precisava abaixar a voz e a cabeça pro filho, mas se ele gritava com a própria mãe, o que poderia fazer comigo?

– Você sempre dá esses “deslizes”, – ele falou a palavra assim, entre aspas, pra deixar claro que a desculpa dela não colava mais – cuidado pra um dia não ser fatal.

O Dan se levantou da mesa, deixando o clima tão pesado quanto uma cadeira.

– Meu filho não gosta de ouvir nada sobre o pai… – começou a explicação, quando pro meu alívio o Fumaça interrompeu.

– Não precisa falar nada pra Priscila, Dóris. – Então ele já conhecia a história, fiz um lembrete mental para depois pedir para que me contasse.

– Ele foi embora quando o Dan ainda era muito pequeno. – Continuou me encarando, era como se precisasse justificar a grosseria e a falta de respeito do filho. Mas o Fumaça estava certo, eu não queria saber, não por ela. Era uma situação muito desconfortável, e eu não queria que ela passasse por isso, não pra me explicar.

– Por isso a revolta. – Conclui pra dá um fim na conversa.

– O meu filho sempre foi assim, mas depois que se sentiu abandonado pelo pai, ficou pior. Nem todo o amor que eu dei supriu a falta.

Ela se levantou, e mesmo sem termos acabado a sopa, tratamos de fazer o mesmo.

– Dóris, vou pro quarto, estou morto de cansado, valeu pelo jantar.

– De nada, querido.

– Eu ajudo a senhora com a louça. – Me ofereci, mais por educação, a última coisa que eu queria era fica só com ela depois daquela cena, e pra minha sorte ela recusou:

– Não precisa, minha filha, vá descansar também. – Nem passou por minha cabeça insistir.

 Capítulo 9

“E tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês receberão.” (Mateus 21:22)

Deitei na cama e enquanto o Fumaça preparava seu lugar no chão, senti que me observava.

– Eu sei que fui bem idiota hoje, mas dá pra você esquecer isso? – O pedido me pegou desprevenida, dava pra vê o quanto estava sendo difícil pra ele falar aquilo.

– Você foi um animal. – Disse, contrariada.

– Garota, para com essa marra. – Seu olhar triste dançava por todo o meu rosto, e por um instante desejei que parassem nos meus olhos. Me peguei querendo dizer que estava tudo bem, mas o devaneio logo passou e me concentrei no que ele tinha feito.

Pedir desculpas parecia ser pior do que ter atirado no amigo. Ele me lembrou um menino indefeso, que suplica para o pai não bater nele depois de ter deixado todos os brinquedos espalhados pelo chão da casa.

– Desde quando desculpas é suficiente? – O orgulho falou mais alto, e o bom senso também. – Você me tratou igual a um cachorro! Me forçou a entrar dentro de casa e ainda deixou meu braço todo machucado.

Aquela altura eu já estava de pé, de frente pra ele, esfregando as manchas vermelhas no seu rosto.

– Eu só fiz isso porque você queria ir embora! – Rebateu, porém sua voz não era tão firme, e estava estranhamente calma.

– Fumaça, eu não sou sua prisioneira! Eu fugi com você porque quis, a hora que eu quiser posso ir embora!

– Eu já disse que vai ser mais arriscado! Deixa de ser teimosa! – Seu tom estava me dando calafrios. Mesmo em poucas horas de convivência eu sabia que o normal quando eu gritava era ele gritar também.

A estranheza me deixou mais nervosa.

– Arriscado pra mim ou pra você? Eu não passo de uma peça na sua vingança… – A intenção era continuar gritando, só que as palavras saíram hesitantes.

– Priscila, a merda é pior do que você imagina… – Sentou na cama e começou o discurso. Por um segundo meu coração pareceu saltar do peito, desde quando aquele homem invadiu nosso quarto, algo me dizia que tinha mais coisas do que o Fumaça tava me contando, mas minha cabeça estava tão cheia que ignorei. – Tanto eu quanto o Toddy trabalhamos pra um cara chamado Miguel, e agora que eu fugi, ele está atrás de mim.

– Além do Toddy, Fumaça? – Perguntei perplexa. – O maluco do hotel veio a mando dele?? – Eu exigia uma explicação. Tinha o direito de saber quem mais queria me matar.

– Sim… – Ia falar mais coisas, mas se calou. Ele não me encarava e isso aumentava minha irritação e meu nervosismo.

– Quer dizer que sem eu ter dado motivos tem mais um cara querendo me matar?

– Ele não quer matar você, – estranhei a ênfase em matar você – ele quer me matar.

– Ah, porque agora você acha que ele vai ficar com pena de mim e entender que não tenho nada a ver com suas merdas! – Zombei.

– Priscila, o Miguel não manda matar garotas, ele prefere elas vivas. – Explicou, como se aquilo resolvesse tudo.

– Quem é esse Miguel, Fumaça? Ele nem me conhece, como vai me querer viva??

Fui pra cima dele e com toda a força que consegui juntar lhe enchi de murros. Ele não revidou. Sabia que estava errado e me devia explicações. Ele sabia que eu tinha todo o direito de estar com raiva.

– Fica calma, Priscila!

– Você tem que me contar! Quem é esse Miguel?

A força dos meus braços só foi suficiente para empurrá-lo na cama. E isso me fez chorar.

– Priscila, por favor, não chora… – Senti ele me confortar com seus braços, mas eu não queria conforto. Eu queria ir embora. E foi o que fiz, pelo menos tentei.

 Capítulo 10

– O que você estava fazendo, Antônio?

– Orando. Pedindo para Deus não deixar que nada de ruim aconteça com a Priscila. Nossa filha fez a escolha errada, meu eu creio que Ele pode guardá-la. – Disse Antônio, esperançoso.

– Me perguntou aonde foi que erramos? Quando parecemos tão cruéis ao ponto de não apoiá-la em alguma coisa? – Questionou a mãe, com o olhar distante.  

Antônio apenas assentiu. Ele queria responder que nada fizeram de errado, apenas amaram e disciplinaram a filha, mas não podia passar segurança para esposa quando ele mesmo não conseguia expulsar esse questionamento da sua mente.

– Ela sempre foi impulsiva, por mais tentativas que tenhamos feito, a Priscila não aprendeu nossa personalidade.

– Personalidade não é algo que se ensina, Sônia. E mesmo com essa característica da mãe biológica, ela nunca nos deu preocupações.

– Você acha que tem algo mais nessa história? Será que nossa filha foi sequestrada? – Antônio se arrependeu, ele não queria deixar a esposa mais preocupada, mas precisava ser sincero.

– Não sequestrada, mas algo me diz que esse bilhete esconde outra coisa. Eu olhei os cadernos da Priscila e achei a letra um pouco diferente. – Confessou Sônia.

– Talvez esteja na hora de avisar a sua irmã… – Antônio disse, mudando o rumo da conversa.

– Eu não sei, não quero preocupá-la.

– Mas ela tem todo o direito de saber, meu amor. – Antônio formulou essa última frase com todo o cuidado que podia. Ele sabia como a esposa era sensível a esse assunto. Lembrar como a Priscila entrou na vida deles sempre a machucava, e diferente dele, Sônia não tinha se curado da dor de ter perdido a primeira filha.

Não era como se ela não tivesse amado Priscila desde o momento em que Margarida a entregara. Porém saber que só estava recebendo a responsabilidade de criar a filha da irmã, fruto de um relacionamento com um homem casado, por causa de um acidente com a neném de 3 meses do casal, fazia Sônia desmoronar.

Como era esperado, a esposa apenas assentiu e pegou o celular.

 Capítulo 11

“Clamou este aflito, e o Senhor o ouviu e o livrou de todas as suas tribulações.”

(Salmos 34:6)

– Onde você pensa que vai, princesa? Está um pouco tarde para sair, não acha? – O susto que eu tomei me fez perder o equilíbrio, e só não cai porque me apoiei na porta.

– Embora. – Respondi, com a voz trêmula.

– Acho que isso pode esperar até amanhã. – Sem cerimônia ele se aproximou e prendeu meus dois braços na porta.

– O que você está fazendo? – A mesma sensação de morte do carro voltou e eu senti que algo muito ruim estava para acontecer.

Quando eu tinha doze anos entendi o que significada estupro. Estava fazendo meu dever de casa na mesa da sala, quando ouvi a empregada contar à minha mãe que uma conhecida havia sido abusada quando voltava do trabalho.

“O desgraçado aproveitou que a rua estava deserta àquele horário e a abordou na esquina de casa. Colocou uma faca em sua cintura e obrigou ela a entrar no carro, a violentou duas quadras depois.”

Desde aquele dia passei a dar mais ouvido aos conselhos da minha mãe. Fugia de qualquer homem que visse na rua e achasse o rosto esquisito. Fazia de tudo pra não passar por lugares desertos ou ficar andando sozinha até tarde.

Lembro que uma vez estava conversando com a Clara sobre esse assunto e comentei que preferia morrer a ter que passar por uma coisa dessas. Imagino que a morte seja melhor do que ter alguém invadindo seu corpo de maneira animalesca e te destruindo, não só fisicamente, mas a sua alma também.

Naquele momento, com um cara me empurrando contra a porta e tentando a todo custo me beijar, deduzi que além da humilhação, uma das piores coisas é você se sentir indefesa e não poder proteger a única coisa na vida que é unicamente sua: seu corpo.

– Me solta, pelo amor de Deus. – Eu tentava gritar, mas as tentativas dele de chegar na minha boca impediam, e mais do que isso, eu estava concentrada em não deixar minhas pernas paradas, porque isso facilitaria sua mão na minha vagina. 

Eu estava lutando, tentava chutá-lo, mas ele era forte. Prendia meus braços e minhas pernas. Passei a conhecer outro sentimento: nojo. Eu não queria que ele me tocasse, não queria que um estranho passasse as mãos, mesmo que rapidamente, em uma parte de mim que ninguém nunca tinha tocado.

Seu hálito de cebola me dava ânsia de vômito, e quando eu achei que ia vomitar alguém o arrancou bruscamente de cima de mim.

– O que você está fazendo, Daniel? Larga ela, agora! – A ordem do Fumaça veio junto com o soco no meio do nariz, que o pegou de surpresa.

– Tá ficando maluco, cara? Que onda é essa de me bater por causa de uma mina? – Eu não esperei para ver ele avançando no Fumaça.

Fora de casa parei e desmoronei na escada. Eu sei que o certo era sair correndo e não esperar mais nada, mas pra onde eu iria? Estava tudo escuro e eu não conseguia nem mesmo respirar direito.

Meu peito estava pesado, minhas pernas bambas e meu coração parecia que ia pular para fora. Não me julgue, eu queria correr, mas meu corpo não obedecia. Eu ainda sentia como se ele estivesse me segurando e me tocando. Sentia suas mãos passeando  pelas minhas cochas, sentia sua boca tentando encontrar a minha e seus braços prendendo os meus. Eu ainda me sentia indefesa.

Quando as lágrimas estavam quase caindo, uma mão tocou meu braço, e mesmo o gesto sendo delicado, eu não deixei de dá um pulo.

– Priscila, vamos!

O Fumaça estava com o rosto machucado. Seu nariz sangrava e sua boca me pareceu levemente inchada.

– O que ele fez com você? – Perguntei, enquanto corríamos para o carro.

– Não importa, temos que sair daqui antes que ele acorde.

O Dan era forte, mas pelo visto o Fumaça não costumava perder quando entrava em uma briga. Era a segunda vez que eu assistia ele escapar.

Suas mãos tremiam tanto quanto as minhas e ele quase não conseguiu dá a partida. Quando já estávamos saindo, alguém bateu no vidro, e por um momento pensei que era o nosso fim.

– Vocês esqueceram as mochilas. – Para meu alívio era a Dóris, tão exasperada quanto a gente.

– A senhora não precisava nos ajudar…

– Fumaça, não se preocupe comigo. Eu sei controlar meu filho. Agora vão, porque se ele acordar e vê vocês aqui já não posso garantir nada.

– Obrigada. – Consegui dizer e ela me deu um sorriso sincero.

Durante todo o caminho eu só chorava. Ainda não tinham 24 horas da minha saída de casa e eu estava destruída. Tinha acabado de sofrer uma tentativa de estupro e não fazia ideia de qual seria nossa próxima parada.

– Vai ficar tudo bem. – Estava claro que nem mesmo ele acreditava naquelas palavras. – Eu prometo. – A tentativa de reforçar essa promessa só me fez odiá-lo mais um pouco.

– Você sabia meu nome.

– O quê? – O assunto deslocado o deixou desconcertado.

– Naquela noite, você me chamou pelo nome, mas não tinha como saber. – Eu olhava fixamente pra estrada, a escuridão e os recentes acontecimentos estavam deixando algumas coisas mais claras em minha cabeça.

– Priscila, depois do que acabou de aconte…

– Cala a boca, Fumaça. Como você sabia meu nome? – Meu tom de voz era frio. Algo tinha quebrado dentro de mim.

– Eu ouvi a Cla…

– Mentira. – Interrompi, e ele perdeu, por alguns segundos, o controle do carro. – Em nenhum momento a Clara chamou meu nome. Você já sabia. Como?

– Para de gritar. – Sua voz ficou tão fria quanto a minha, mas não cogitei recuar.

– Fumaça, eu exijo uma explicação. Estou disposta a correr todos os riscos, inclusive com minha família. – Ameacei, ou melhor, blefei. E deu certo.

Com os olhos fixos no retrovisor, ele revelou o que eu temia.

– Nós já te conhecíamos. Sabíamos tudo sobre você e sua família. – De relance tentou observar minha reação, que não foi absolutamente nenhuma. Eu queria que ele contasse tudo, e pra isso, já tinha aprendido que não podia gritar ou espernear. – Naquela noite nosso trabalho não era apenas matar o garoto, mas também te sequestrar.

Capítulo 12

“Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração; então, se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra {…} Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus.”(Gênesis 6:5-7)

Eu estava suja. Esfreguei meu corpo por quase dez minutos, mas ainda me sentia imunda. Por que a água não estava me limpando? Passei sabonete quatro vezes, mas ainda tinha sujeira nas minhas mãos e pernas. Lavei meus lábios com shampoo, só que eles continuavam com um cheiro de cebola.

O desgraçado estava comigo. A sombra dele passeava por todo o banheiro. Posso jurar que sentia a presença do Daniel.

Nunca mais eu seria a mesma. Sem saber, quando fui para aquela festa estava decretando uma sentença de prisioneira. Tudo o que eu queria era ser livre, e quando consegui me tornei mais presa do que nunca.

Quis fugir das regras dos meus pais e acabei tendo que enfrentar a loucura de um desconhecido. De repente uma ideia me ocorreu: Será que essa não era a razão para tudo o que estava acontecendo?

Nunca fui ateia. Não querer seguir os ensinamentos bíblicos e achar que eles não passavam de uma maneira que a religião encontrou para controlar as pessoas não quer dizer que eu não acreditasse neles.

Sempre achei que Jesus de fato existiu e que Deus tem tanto poder quanto é pregado na igreja, e por isso, naquele momento eu pude entender o que realmente estava acontecendo.

Ele tinha traçado todo o meu futuro. Deus, possivelmente, já sabia que eu ia pedir a carta de alforria de Suas leis, e por isso cuidou de criar um plano para que no final eu tivesse que acabar suplicando por ajuda.

Não foi assim com as pessoas que viveram no tempo de Noé?  Deus era mal e sempre que alguém virava as costas para Ele tratava de fazer desaparecer da face da terra.

Perceber que só tinha duas opções na vida – me voltar pra Ele e assumir que errei ao deixá-Lo ou sofrer as consequências – fez com que um calor tomasse conta do meu corpo. Todas as minhas veias pareciam pulsar, e naquele momento, eu jurei para mim mesma que não deixaria nada acabar com meus sonhos.

Ali começou minha luta com o Todo Poderoso.

– Priscila, sai desse banheiro! Já são três horas da manhã.

Eu não vi o tempo passar e passei quase uma hora debaixo do chuveiro.

Diferente do outro hotel, nesse a cama era de casal, então, a muito contra gosto, tive que deitar do lado do Fumaça. O que não foi tão ruim, pois eu queria olhar cada expressão dele de perto quando começasse a me contar tudo.

– Não estamos mais no carro, não corremos risco de eu perder o controle e tentar nos matar, pode dizer quem mandou você me sequestrar e porquê. – Nunca fui uma pessoa direta, sempre fiz rodeios para falar alguma coisa, principalmente se fosse um assunto sério, mas eu não era mais a mesma menina medrosa da noite anterior.

– Foi o Miguel… – Deu uma pausa, apenas pra esperar a pergunta óbvia.

– Que Miguel, Fumaça? Você fala como se eu tivesse obrigação de conhecer!

– E conhece. Aliás, todo mundo sabe quem é Miguel Monteiro.

Só não cai quando ouvi aquele nome porque estava deitada. Miguel Monteiro é o dono da agência de modelo mais badalada do país, a Dreams. O cara tem muito dinheiro e vive aparecendo nesses programas de domingo à tarde, onde apresenta um quadro que ajuda meninas pobres a realizarem seu sonho.

Ele também aparece em festas e em alguns jornais – já se meteu em algumas brigas, mas nada fora do normal –, porém a generosidade sobressai as confusões.

A Clara é apaixonada por ele, e como sua mãe é estilista, conhece o cara de perto e já fez várias fotos na Dreams. Ela acha ele lindo – confesso: não só ela, todo mundo – e charmoso, e super educado. O que o Fumaça tinha falado não vazia sentido nenhum.

– Para de mentir, garoto! Porque ele iria querer me sequestrar? O Miguel é um filhinho de papai, mas não passa disso.

– Um filhinho de papai que não acha suficiente o que herdou e tem um negócio de prostituição em outro país.

– Não pode ser, Fumaça… Isso não tem lógica…

– Por que não, Priscila? Você acha que esse mundo perfeito existe? A maioria dessas meninas não conseguem nenhum futuro como modelo, e o que resta para elas? Aceitar a primeira oportunidade que surge de ganhar algum dinheiro para sustentar a família. Elas não querem voltar para casa de mãos vazias, quer dizer, elas precisam conseguir alguma coisa. A maioria é de cidades do interior onde a fonte de renda é baixíssima, e quando saem buscando conseguir o emprego dos sonhos os pais apostam tudo nelas. É frustrante assumirem que não conseguiram, então acabam aceitando a proposta de serem apenas dançarinas em uma boate no exterior, mas quando se dão conta virarão prostitutas, na melhor das hipóteses.

Quando parou de falar respirou fundo, estava cansado e pela forma como seus olhos passeavam por todo o meu rosto entendi que aquela era a primeira vez que ele falava sobre isso com alguém e estava desesperado pra vê como eu reagiria.

Se recebesse gritos pararia de contar, por isso, mesmo enlouquecendo por dentro, fingi que só queria que ele continuasse seu desabafo.

– Qual o seu papel nisso?

– Eu cuido delas antes de viajarem. – Mudou de posição, encarando o teto. – Vigio para que não fujam ou contém alguma coisa para alguém. – Ele não me olhou, não sei se por vergonha ou parte de alguma encenação, eu ainda não queria acreditar naquela história. Tudo era muito surreal.

– Vamos supor que tudo isso seja assim, como você tá contando…

– Se você não acredita em mim, qual o sentido de eu falar? – Voltou a me encarar e mudei de tática.

– Desculpa, só não consigo entender porque o Miguel Monteiro mandou me sequestrar. Eu não quero ser modelo, nunca acompanhei a Clara nas sessões de fotos e os eventos sociais que meus pais frequentam não são os mesmos que ele. – A empresa do meu pai era de tecnologia.

– Tudo o que sei estou te contando. O plano era te levar para o Miguel ainda naquela noite e de lá já íamos te colocar em um avião para a Europa. – A naturalidade com que ele falou aumentou meu pânico, e não quis mais me controlar.

– Porque você ia fazer isso comigo??? – Eu estava aos prantos, sentia como se meu espírito tivesse saído do corpo. Uma angústia tomou conta de mim e tudo o que eu queria era sair daquele quarto, que parecia me engolir.

– Priscila, fica calma, isso não vai mais acontecer. – Se levantou para pegar um copo com água, que foi rejeitado.

– Vocês iam acabar com minha vida! Porquê???

– Alguém deve ter pagado o Miguel para fazer isso com você. As meninas não são escolhidas aleatoriamente. – Ele sentou do meu lado e isso aumentou ainda mais a falta de ar que eu sentia.

– Mas quem, Fumaça? Quem me odeia tanto assim?

– Isso eu não sei, e tenho certeza que o Toddy também não sabe.

A menção daquele nome me despertou para um detalhe importante:

– Porque você está me ajudando? – A pergunta o pegou de surpresa, ele quis se esquivar, mas fui mais rápida. – O que você ganha com isso?

– Liberdade. – Devo ter feito uma expressão muito confusa, porque ele logo tratou de explicar. – Se eu conseguir te ajudar a escapar dessa, então eu também escapo. Não vou mais precisar trabalhar para o Miguel, é claro que vou passar a vida fugindo, mas é bem melhor do que passar a vida perseguindo.

Estava claro que eu era apenas um passo para o que ele chamava de liberdade. Não me importei, eu só queria conseguir sair daquela viva, se o Fumaça ia continuar trabalhando para o Miguel ou não, era a menor das minhas preocupações.

Alguém tinha armado para mim, mas quem? Qual ser humano me achava tão desprezível ao ponto de pagar para me vê sendo escrava sexual?

Vasculhei minha mente e não consegui lembrar de ninguém. Na escola eu era amiga de todo mundo – e mesmo que não fosse, acho que ninguém seria tão maligno a esse ponto –, na rua ou na igreja as pessoas também eram tranquilas, então não existia ninguém – pelo menos era o que eu achava – que quisesse destruir minha vida.

Eu já tinha lido reportagens sobre mulheres que são enganadas e vão para outros países buscando realizar seu sonho, mas quando chegam lá se veem obrigadas a venderem o corpo. Uma vez vi a história de uma moça que foi estuprada por 20 homens em 15 horas. Ele era escrava sexual em Atenas.

Todos aqueles pensamentos desencadearam uma onda de emoções. Eu quis gritar, quis fugir, quis morrer. Nada fazia sentido. As coisas não se encaixavam, mas mesmo assim eu acreditava.

O Fumaça não tinha motivos para mentir, e se ainda fosse tudo inventado, e na verdade ele quisesse me sequestrar porque não tinha pedido o resgate ou me ameaçado diretamente de alguma maneira?

Ele não iria conseguir esconder por tanto tempo se fosse o autor daquela armação toda, ia?

 Capítulo 13

“O tolo cruza os braços e destrói a própria vida..” (Eclesiastes 4:5)

– Priscila, não fica assim… 

Não conseguia falar, só sabia chorar, e convenhamos que eu tinha motivos de sobra para isso.

– Prome… promete que você não deixar el.. ele me pegar… – Supliquei.

Ele não prometeu, respondeu com um abraço e me deixei ser acolhida por seus braços. Por incrível que pareça, consegui encontrar alguns segundos de tranquilidade.

Ele me abraçava forte e alisava minhas costas, sem que dissesse uma palavra conseguiu com eu entendesse a mensagem.

O Fumaça não podia prometer, estava além da capacidade dele, mas pelo menos tentaria, se não fosse por mim, seria por ele. Naquele momento isso bastou.

– Você vai ficar bem… – Me afastou delicadamente e segurou meu rosto com as duas mãos, enxugando minhas lágrimas.

Abri a boca para responder qualquer coisa, mas seu olhar me silenciou. Aqueles olhos tristes e sinceros me faziam esquecer qualquer dor. Era como se a dele fosse maior do que a minha.

Como o Fumaça tinha ido parar naquela vida? Ninguém nasce querendo ser o monstro que destrói sonhos, a não ser que tenham destruído os dele primeiro…

– Você é linda, sabia?

A pergunta totalmente fora de contexto mexeu com o meu foco. Eu estava tão concentrada no seu olhar que não percebi que ele me observava e quando abri a boca para dizer que elogios não iam me fazer esquecer quem ele era, o inesperado aconteceu.

Quando dei por mim a boca do Fumaça já estava dançando em um ritmo perfeito com a minha. De inicio senti uma estranheza, o ritmo lento não combinava com as palavras duras e diretas que costumavam sair daqueles lábios, a delicadeza com que ele me beijava não lembrava nada os rompantes de raiva que tínhamos.

Apesar de tudo isso, senti sua língua tentando encontrar a minha e isso acendeu todas as células do meu corpo.

Eu não podia negar que o Fumaça era bonito e charmoso. Mesmo com todo o ar maldoso que carregava, tinha um jeito travesso de quem estava escondendo o jogo, e que na verdade era apenas uma pessoa necessitando de atenção.

Suas mãos encontraram meu pescoço o que instantaneamente fez com que as minhas procurassem suas costas. Eu o queria mais perto de mim. Desde que sai de casa, aquele era o único momento em que minhas emoções estavam oscilando, mas não de medo.

O beijo ficou mais intenso e necessário, o que me deixou sem fôlego.

– O que foi? – A voz ofegante mostrava que ele também precisava de ar.

Não respondi, coloquei sua minha boca novamente na sua e a automaticamente senti uma mão apertando minha cintura.

Quando o beijo passou dos meus lábios para o pescoço, e uma eletricidade percorreu cada centímetro do meu corpo, eu vi que era hora de parar.

– Chega… – Murmurei.

– Tem certeza? – Sussurrou no meu ouvido. Senti um calor.

– Por favor, Fumaça, estou muito cansada. – Me afastei sem querer de verdade ir deitar, tentei me convencer de que parar era a escolha certa. Se nos beijássemos de novo, logo após ele ter encontrado meu pescoço, eu não teria mais nenhuma condição de ir dormir.

 Capítulo 14

15 anos antes

A noite estava fria como todas as outras daquele mês, mas naquela segunda-feira Margarida podia jurar que tinha algo diferente. Ela não sabia se era o medo ou a ansiedade que mais tiravam sua paz, e nem queria descobrir, tudo o que Margarida mais desejava era que aquele momento passasse.

Faziam horas que Margarida  não sentia mais dor. Aquilo já era um alivio, mas por outro lado sentia um buraco na sua barriga que lhe causava estranheza. Ela não sabia bem o que era, mas tinha certeza que algo lhe fora arrancado.

– Ela está acordando. – Ouviu alguém dizer de longe, mas não identificou de quem era a voz.

Margarida quis contrariar aquela observação e tentou dormi novamente. Por algum motivo abrir os olhos lhe irritava, ela tinha medo do que ia encontrar naquele quarto. Ah! Isso ela sabia. Estava em um quarto que não era seu e que nunca tinha visto antes, não sabia nem mesmo como tinha ido parar ali.

A última coisa da qual se lembra é de estar na sala do sítio do seu namorado e sentir muita dor. Ela acha que não estava sozinha, porque ouviu vozes dizendo “o bebê vai nascer”. Mas que bebê era aquele?

– Você teve uma linda menina. – A voz voltou a repetir, dessa vez com um toque em suas mãos, e foi quando Margarida despertou do pesadelo e descobriu que era mais real do que gostaria.

Ela estava grávida.O motivo de estar no sítio era porquê o namorado não queria que ninguém soubesse, e ela também. Aquela gravidez significava uma vergonha para sua família, já que não era casada e seu salário de professora não dava para sustentar nem a si própria.

O buraco na barriga significava que a criança tinha sido tirada, e graças a Deus por isso.

Lentamente ela abriu os olhos e começou a identificar as duas moças que estavam no quarto. Era Carla e Zélia. Ambas empregadas da casa onde estava. Mas será que foram elas que fizeram o parto?

– Como a senhora se sente? – Perguntou Zélia, a mais velha das duas, tanto de idade quanto no trabalho. Zélia praticamente criou os filhos do patrão. Ela trabalhava naquele sítio há mais de 25 anos.

– Eu quero água… – Margarida respondeu, com muita dificuldade.

Carla – filha de Zélia – correu para pegar um copo e prontamente entregou para patroa, que bebeu ferozmente.

– Gostaria de ver a criança agora, senhora?

Quando ia abrir a boca para dizer que não, Margarida parou. Seria a única vez que ela veria aquele ser que saiu de dentro da sua barriga, que mal faria vê ao menos se parecia com ela ou com o pai.

Não era como se estivesse virando as mães felizes que acabam de ter filhos e mal podem esperar para ter a criança no braço. Ela só queria vê se pelo menos o sacrifício dos 9 meses tinha valido a pena.

Quando Carla se dirigiu para perto da porta, Margarida pensou que a bebê estivesse em um outro quarto, mas se enganou, ela estava em um bercinho improvisado ao lado da maçaneta, que Margarida logo reconheceu, já que todas naquela casa eram iguais.

Ela continuava no sítio, mas em um quarto que nunca tinha entrado.

– Foi nesse quarto que eu fiz todos os partos da patroa. – Zélia explicou, como se tivesse lendo seus pensamentos.

Carla estava chegando perto e Margarida começou a ficar nervosa. Ela não sabia o que fazer, não tinha ideia de como segurar uma criança e muito menos reconhecia o sentimento que aquele ser tão pequeno estava causando nela só de chegar perto.

– A senhora já escolheu o nome? – A curiosidade da garota tirava a mais nova mãe do sério.

– Nem faço ideia. – Respondeu de mau humor.

– Pode pegar, senhora.

Margarida não entendeu a instrução.

– No começo dá medo mesmo, senhora, mas depois começamos a pegar jeito.

As palavras de Zélia a situaram. Carla estava com a bebê do lado da cama, mas Margarida não tinha feito menção de que ia pegar. Obrigou seus braços a se moverem em direção a criança, e nesse instante achou que seu peito iria ser perfurado pelas batidas do seu coração.

A partir do momento em que colocou a filha nos braços, tudo começou a funcionar em câmera lenta.

Era uma criança grande, assim como o pai. Tinha o cabelo da cor de mel e a pele no mesmo tom amarelado de Margarida.

A menina dormia profundamente, mas assim que Margarida tocou inconscientemente  sua bochecha com o dedo indicador a garota deu um quase sorriso. E naquele instante o coração da mãe parou.

Era como se a partir de agora respirar só fizesse sentido se aquela criança também respirasse. Margarida podia jurar que o coração de ambas batiam na mesma sintonia. Aquilo era novo para ela, não sabia como identificar aqueles sentimentos.

Minutos antes ela desprezava aquele ser, porém agora, depois de tê-la em seus braços, sentia como se seu mundo dependesse daquele quase sorriso.

Fez carinho na cabeça da menina e sem pensar disse:

– Ela vai se chamar Priscila, é o mesmo nome da minha vó.

– É um lindo nome, senhora.

Horas depois Margarida ainda estava com a criança no braço. Ela tinha medo de soltar e alguém levá-la. Àquela altura ela já estava mais situada de tudo o que tinha acontecido.

Zélia lhe contou que perdeu muito sangue, o que a fez desmaiar, mas graças a Deus, apenas depois de ter tido a bebê.

Priscila acordou com fome, e Margarida não tinha leite, o que a fez se sentir impotente e incapaz de cuidar daquela criança que dependia exclusivamente dela, mas a empregada a acalmou e disse que isso era perfeitamente normal, e que para acabar com a fome da pequena iria preparar um leite especial, ensinado por sua mãe.

Margarida ficou desconfiada, mas como a mulher lhe garantiu que todos as crianças daquela casa já tinha tomado a receita, ficou um pouquinho mais tranquila. E também não tinha saída, era aquilo ou a filha morria de fome.

Já ia dá onze da noite quando um barulho de porta batendo chamou sua atenção e assustou Priscila,que choramingou em seus braços.

– Shiu… não foi nada, a mamãe tá aqui… – Acalentou a menina, que logo se acalmou. Margarida ficou lisonjeada com o efeito de sua voz. Então seria assim dali para frente? Sua voz traria tranquilidade para aquela criança? Tudo era muito novo para ela e sentiu seu coração palpitar, a cada segundo que passava ela amava mais um pouquinho aquele ser.

– Por favor, senhor, fique calmo. Ela deve estar dormindo. – A voz suplicante era da empregada idosa e Margarida já sabia com que ela falava.

Antes que pudesse colocar a menina no berço, o pai entrou.

– Me dá, eu já vou levá-la!

Por um segundo Margarida ficou sem saber de quem ele estava falando. Mas então, lembrou. Ambos tinham combinado de levar o bebê para adoção assim que nascesse. Só que agora tudo mudou, e talvez se o namorado visse a mesma carinha que dominou seus sentimentos, o mesmo acontecesse com ele.

– Por favor, olha pra ela… – Estendeu os braços para mostrar a criança. – Eu dei o nome de Priscila porqu…

– Cala a boca! – O grito assustou não só a neném, mas ela também. – Eu não quero olhar para essa criança maldita! Eu não quero esse bebê! Nunca quis!

– Eu também não queria… – Margarida tentou explicar pela milésima vez que a gravidez tinha sido um acidente. – Só que agora … Eu não sei, ela parece tão dependente de mim…

– Ela não é sua filha nem minha! Tira isso da sua cabeça!

Margarida chorou, gritou, suplicou, mas não teve jeito. Nem mesmo os pedidos desesperados da empregada que praticamente criou o namorado conseguiram mudar a decisão dele.

Tomou a criança dos seus braços – sem olhar para aquele rostinho tão delicado e poderoso –, saiu pela porta e nunca mais voltou.

As mulheres ficaram desconsoladas. Margarida não sabia o que fazer. Queria morrer, sua vida não fazia mais sentido. Os únicos momentos reais de felicidade que ela sentiu tinham acabado e agora nunca mais voltariam.

Naquela madrugada ela tentou se matar, mas falhou.

 Capítulo 15

“Não sabes, não ouvistes que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fadiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento.” (Isaías 40:28)

Priscila, acorda. – Despertei assustada, e demorei um pouco para me situar.

– O que aconteceu?

– Nada, vamos descer para comer.

Eu estava com fome. Viajávamos a mais de 5 horas, mas eu não queria comer na companhia do Fumaça. Ele estava insuportável. Não falou comigo mais do que 4 palavras desde que acordou. Se eu soubesse que na manhã seguinte após o beijo ele ficaria tão estranho, nunca tinha deixado que tocasse minha boca.

– Eu não estou com fome. – Minha barriga roncou, entregando a mentira.

– Se você não comer agora, vai ter que aguentar até chegarmos à Goiânia.

Até lá eu já teria desmaiado, tive que pisar no orgulho.

O restaurante era no meio do nada, bem grande e aberto. O teto era coberto de bambu, o que deixava tudo com um ar bem natureza. Estava lotado – já que nosso ônibus não foi o único a parar – e não tinha nenhuma mesa vazia.

Achamos um lugar com 3 cadeiras – uma já estava ocupada por um rapaz moreno, alto, que aparentava ter uns 26 anos e com um cabelo tão bem arrumado que senti inveja. Ele lia um livro, superconcentrado enquanto esperava a comida.

– Podemos sentar aqui? – O Fumaça perguntou.

– Claro, fiquem à vontade. – Respondeu, educadamente.

Nos acomodamos e logo a garçonete veio anotar nosso pedido. Pedi um sanduíche de frango com um suco de goiaba – se minha mãe visse esse almoço iria surtar – e o Fumaça pediu uma sopa de legumes – se não fosse todos os outros defeitos, ele seria o filho perfeito. Quem come sopa de legumes no almoço quando a mãe não está por perto?

– O Mestre do amor.

Como o Fumaça estava de cabeça baixa fazendo um esforço enorme para não me olhar, o rapaz só podia estar falando comigo.

– Oi?

– O nome do livro.

Fechou e me mostrou a capa, fiquei super sem graça. Não tinha percebido que estava observando sua leitura.

– Nunca ouvi falar, mas pelo nome parece legal.

– É muito bom, fala do amor de Cristo pela humanidade.

Na mesma hora fechei a cara.

– O que foi?

– Nada.

– Você não acredita no amor de Jesus pela humanidade?

– Não é isso, é que… não sou muito fã de livro de autoajuda.

– Tenho certeza que esse você ia adorar.

– Por quê? – Por mais que fingisse desinteresse, tenho certeza que o Fumaça estava atento ao nosso diálogo, e isso me deixou mais animada em continuar. Queria deixá-lo irritado como estava fazendo comigo.

– Porque nesse você descobre o quanto Jesus foi humano como nós, mas em nenhum momento perdeu Sua glória, e o autor tenta nos mostrar o quanto Ele nos deu uma lição de humildade.

Tudo o que ele estava falando não passava de besteira, respondi em pensamento que a única lição que Cristo me deu foi de prepotência, de tirania.

– Melhor mudarmos de assunto.

–  Qual o seu nome? – Não precisava ser um assunto tão pessoal, mas gostei.

– Priscila e o seu?

– Marcos, e o seu? – Se dirigiu ao Fumaça, deve ter tentando incluí-lo na conversa por pensar que era meu namorado e ficaria com ciúmes.

– Fumaça… – Respondeu de má vontade.

– Ele é emburrado assim mesmo. – Tentei fazer graça, mas não deu muito certo, já que meu companheiro me fulminou com o olhar e voltou a abaixar a cabeça, dando sua participação na conversa por encerrada.

– Para onde você vai?

– Goiânia, e vocês?

– Também! – Respondi, animada pela primeira vez com aquela viajem. O estranho tinha um ar de paz e alegria que me fizeram esquecer todos os motivos que me levaram a sentar ao seu lado. – Quanto tempo você vai ficar por lá?

– Ainda não sei, estou fazendo um tour por várias cidades.

– Tour? Sozinho?

– Ás vezes é bom viajar só, ajuda a ouvir melhor uma voz interior que nos mostra o que devemos fazer com nossa vida. – Só consegui pensar que ele era maluco, e achei melhor ficar calada para não correr o risco de falar algo desagradável. – Você tem quantos anos? – Perguntou de repente, e achei aquilo estranho, e o Fumaça também, já que logo levantou a cabeça e ficou encarando o Marcos para vê o que estava por vim.

– 15, por quê?

– Você lembra minha irmã. – Ele respondeu de uma maneira tão sincera e sentimental que me senti envergonhada por ter desconfiado dele, já o Fumaça continuou atento.

– Ela tem minha idade?

– Tinha. – Disse pensativo.

– O que aconteceu?

– Um cara bêbado ultrapassou o sinal vermelho na hora que ela atravessava a rua.

– Sinto muito, – falei com sinceridade e notei que o Fumaça já tinha se concentrado na mesa novamente – ele foi preso?

– Apenas por alguns dias, pagou fiança e saiu, já que não tinha antecedentes.

– Imagino como sua família deve ter ficado revoltada… – Falei indignada só de pensar tamanha injustiça.

– No começo sim, mas depois compreendemos que mesmo a justiça do homem falhando, a de Deus chega. – Então o cara mata a irmã dele, não fica preso e ele ainda resolve esperar pela justiça de Divina?

– Você deve está achando uma loucura essa teoria, né? – Questionou diante do meu silêncio.

– Para ser sincera um pouco. Acredito que se Deus quisesse teria livrado sua irmã.

– Eu também pensei isso logo que soube do acidente. E de fato, se Ele quisesse teria livrado, mas tinha chegado a hora dela. Alguns meses depois ao acidente, eu ainda estava desconsolado e chorava de revolta todas as noites, até que em uma madrugada enquanto eu olhava para o céu e perguntava o porquê, Deus falou comigo. Ás vezes as coisas acontecem e na hora não entendemos, mas em um futuro bem próximo tudo se esclarecerá. Ele confortou meu coração com a certeza de que está no controle de tudo e sabe o que é melhor para nós.

Um riso irônico se formou no meu rosto, mas tentei ao máximo segurar.

– E tem mais, Priscila, infelizmente vivemos em um mundo cruel e estamos sujeitos as suas crueldades. Deus não tem culpa dos atos dos homens.

Nossa comida chegou antes que me sentisse obrigada a responder aquelas loucuras. Como alguém pode defender Deus diante de tamanha injustiça permitida por Ele.

Comemos conversando sobre coisas aleatórias, como de onde éramos e de livros incomum que já tínhamos lido.

Quando voltei para o ônibus fiquei feliz em saber que o Marcos estava no mesmo que nós e disse ao Fumaça para ele seguir a viagem sozinho.

– Faça como quiser. – A resposta atravessada mostrou que tinha se magoado, mas nem me importei.

– Meu namorado está um pé no saco, posso ir do seu lado? – Inventei nossa relação para não passar a impressão errada. Eu não estava a fim do Marcos, só queria por mais algumas horas esquecer todos os meus problemas.

– Ele não vai achar ruim? – O Marcus pareceu realmente preocupado com essa possibilidade, mas o tranquilizei.

– Vai achar até bom, do jeito que está com raiva de mim.

Conversando as horas passaram tão rápido que nem percebi, quando vi já eram 21 horas e tínhamos chegado a Goiânia.

Assim que desci tive a certeza que iria sofrer, o vento estava gelado e minhas roupas não eram nem um pouco apropriadas.

– Foi bom ter você como companhia durante a viagem, – ele me deu um abraço e eu senti lágrimas se formando. – Você está precisando de alguma coisa?

Logo entendi a pergunta subtendida. Se eu quisesse me livrar do Fumaça, aquela era a hora.

– Obrigada, mas vou ficar bem. – Tentei segurar as lágrimas.

– Não vale chorar, se cuida e não esqueça você nunca vai estar sozinha?

– Você vai comigo? – Ele tinha virado um amigo.

– Não, mas Deus sempre vai está com você.

Eu ia retrucar, só que preferi não estragar o momento e demos mais um abraço. Ele realmente tinha conseguido me fazer esquecer os problemas. Durante aquelas horas no ônibus não senti vazio nem angústia, e saber que isso ia voltar em minutos me deixou desesperada.

A rodoviária tinha um shopping center e achei aquilo o máximo. Eram muitas lojas com roupas lindas e o ambiente bem agradável, se fosse em outra situação tenho certeza que teria adorado e tirado muitas fotos.

O clima entre mim e o Fumaça não estava nada bom, eu não escondia a raiva que sentia pela forma como tinha mudado de humor – ficava me perguntando se ele não tinha gostado do beijo ou o que eu tinha feito de errado – e ele deixava claro que não tinha gostado nada da minha troca de lugar.

Compramos algumas roupas – fiquei chateada porque não pude escolher com mais calma, eram muitas opções – e depois fomos comer. O sanduíche era maravilhoso e eles vendiam um suco de frutas com leite condensado, conhecido como creme, pedi um de morango e era simplesmente divino.

 Capítulo 16

“Então, os filisteus pegaram nele, e lhe vazaram os olhos, e o fizeram descer a Gaza; amarraram-no com duas cadeias de bronze, e virava um moinho no cárcere.” (Juízes 16:21)

O Uno branco tinha sido deixado no estacionamento da rodoviária, e o Fumaça não me deu nenhuma satisfação sobre quem era o autor daquele “presente”.

A cidade era linda e mesmo a noite pude perceber como era diferente de São Paulo, tudo muito calmo, as árvores, que estavam por todos os lugares, me fizeram sentir como se estivesse no interior.  

Chegamos a uma rua sem saída e entramos em uma vila que ficava bem no final. O local era até agradável, tinha várias casas e cada uma delas possuía uma varanda. Naquele horário as pessoas já estavam todas dormindo, o que foi até bom, não estava com ânimo para encarar ninguém e inventar mentiras.

O Fumaça foi caminhando para uma casa de cor amarela e notei que era a menor, ele abriu a porta – a chave estava junto com a do carro – e entrou. Fui atrás um pouco receosa, mas quando entrei vi que não tinha nada a ver com o calabouço que imaginei.

Era uma casa normal, um pouco pequena, mas tinha sala, uma cozinha que ficava logo de lado da entrada e três portas que conclui serem os quartos e o banheiro.

Apesar de bem iluminado e aconchegante, olhei para todos os lados para vê se não tinha ninguém escondido, ‘pelo menos tem vizinhos, qualquer coisa é só gritar’, pensei.

– Aquele quarto pode ser o seu – disse apontando para porta do lado esquerdo –  e eu fico com o outro.  

Peguei minhas coisas e fui para o meu novo quarto. Fechei a porta e tentei absorver o ambiente, era pequeno, tinha uma cama, um guarda-roupa e uma cômoda, além de uma janela que fui correndo abrir.

Sentei na cama para esperar minha vez de ir ao banheiro, o colchão era duro, bem diferente do meu, mas do jeito que eu andava cansada aquilo não seria um problema. Fiquei passando em minha mente cada detalhe daquele dia, tudo o que havia acontecido, demorando mais na maneira como o Fumaça me tratou e em minha conversa com o Marcos.

Tudo se passou em meus olhos e fiquei me perguntando como cheguei àquela situação. Sempre fui decidida, sabia o que queria, tanto que enfrentei meus pais, porém agora estava à mercê da vontade de um garoto que eu mal conhecia, e que mudava de humor em questão de horas.

A angústia voltou, em um lugar totalmente desconhecido me senti mais sozinha do que nunca. Lembrei das palavras do Marcus. Será que isso era mesmo verdade? Se Deus tinha o poder de estar ali comigo por que eu não O sentia? Por que o vazio e o medo só aumentavam?

Tive vontade de chorar, uma sensação de insegurança tomou conta de mim, meu coração parecia que ia explodir de tantos sentimentos misturados. Eu não sabia o que era mais forte, o medo ou a saudade, a raiva ou a humilhação, a expectativa ou a mágoa. Tentei segurar as lágrimas, falhei miseravelmente.

Chorei até adormecer e quando acordei não tive coragem de sair do quarto com o rosto inchado. Não queria dar o gostinho a ele de me vê daquele jeito, mas o nojo que eu sentia do meu corpo foi maior, já que na noite anterior acabei adormecendo sem tomar banho.

A casa estava silenciosa, o Fumaça tomava café em uma mesa que ficava entre a sala e a cozinha e estava tão concentrado olhando para o fundo da xícara que nem me viu passar.

Tomei banho e tentei ao máximo diminuir o inchaço nos olhos, quando terminei me dei conta que não tinha levado a roupa para vestir, teria que passar só de toalha na frente dele, o que só de pensar me deixou totalmente desconfortável.

Torci para que continuasse na sua concentração de antes e nem percebesse minha presença, mas não aconteceu. Assim que sai do banheiro ele virou a cabeça na minha direção e me olhou de cima a baixo. Fiquei constrangida, óbvio, mas confesso que ser avaliada por ele naquela situação causou uma eletricidade que eu não queria sentir.

– Bom dia. – Falou com um riso escondido na voz e parando demoradamente na minha boca.

– Bom dia. – Usei o tom de voz mais seco que consegui e fui para o quarto.

Tentei colocar um short não muito curto, já bastava ele ter me visto de toalha, e cogitei a possibilidade de esperar ele levantar para eu ir comer, mas a fome falou mais alto.

– Com toalha era melhor. – Disse assim que entrei na sala, e fiquei mais irritada ainda, porque dava para perceber que mais uma vez seu humor tinha alterado.  

– Melhor você me deixar comer sozinha – falei sem conseguir disfarçar o constrangimento.

– Vamos precisar trabalhar – disse ignorando o pedido. – Em um bar, à noite. – Acrescentou antes do meu protesto.

– O quê? Isso só pode ser brincadeira, eu não vou trabalhar em bar nenhum.

– Se quiser ter o que comer e vestir enquanto estivermos aqui vai ter que trabalhar.

– E precisa ser em um bar?

– Qual o problema? – Já senti o tom de voz mudar, o que como em um passe de mágica fez a raiva reacender.

– Eu não quero que o meu primeiro emprego seja em um bar!

– Eu nunca fui babá e nem por isso estou reclamando!

Aquilo me acertou em cheio.

– Não reclama, mas sempre que pode faz questão de deixar claro que sou um peso!

– Você não é um peso Priscila, só é teimosa. – Tentou, sem sucesso, consertar o que tinha dito.

– Eu fugi com você, seu desgraçado, como pode me chamar de teimosa? Fiz tudo o que você mandou até hoje, e só me dei mal!

– Não foi isso o que pareceu ontem! – Retrucou. 

– Está querendo dizer que fiquei a viagem toda me agarrando com o Marcus? –  Encarei ele e notei que seus olhos suplicavam por uma resposta. Tive vontade de dizer que fiz isso mesmo, mas a expressão dele não me deixou, nem me pareceu justo com o Marcos. – Não sou esse tipo de garota.

Ouvi um leve suspiro, mas ao contrário do que eu esperava, ele não disse nada, levantou da mesa e foi indo em direção a porta.

– Aonde você vai?

– Acertar nosso trabalho, quando voltar trago comida.

– E vou ficar sem fazer nada o dia todo? –  Perguntei indignada.

– Faça o que quiser, só não saia de casa.

– Virei prisioneira???

– Só nas suas ideias, pedi apenas para você não sair.

Virou as costas e saiu, me deixando sozinha com minha nova realidade.

Capítulo 17

Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor.” (Efésios 6:4)

Já era a décima vez que Wilson queria bater na sua filha, em menos de 12 horas.

– Clara, você precisa me contar onde sua amiga está! A Sônia e o Wilson estão ficando malucos!

– Pai, eu não sei! Por que você não acredita em mim?

A garota choramingou mais uma vez e aquilo estava tirando ele do sério. Era óbvio que Clara estava escondendo alguma coisa. As duas era inseparáveis desde pequenas, a Priscila não iria fazer uma loucura dessas sem contar para melhor amiga.

– Minha filha, ela pode está correndo perigo. – Interveio Marta.

– Mãe, eu estou falando a verdade. A Priscila não me contou nem mesmo que estava namorando com esse garoto.

– Clara, quando eu tinha uma melhor amiga, contávamos tudo uma para outra. – Relembrou Marta, tentando arrancar alguma coisa da filha de um jeito delicado, diferente do marido.

– Só que eu e a Priscila não somos assim!

A menina saiu da sala pisando fundo, não adiantava quantas vezes dissesse que não sabia onde a amiga estava, os pais não acreditavam.

– Eu vou matar essa garota! – Esbravejou Wilson.

– Do que vai adiantar você bater nela? Aliás, você não devia nem mesmo está tentando tirar alguma informação dela, esse é o meu papel.

– Como assim? Eu sou pai dela, falo com minha filha na hora que eu quiser!

– Esse é o problema: você só lembra que a Clara existe quando quer! Deixa que eu converso com ela.

A esposa não esperou a resposta do marido.

Clara estava de bruços na cama, aos prantos.

– Sai daqui, mãe!

– Meu amor, não fica assim, você sabe que seu pai não leva jeito para conversar com ninguém. Ele tá nervoso, fica imaginando se fosse você no lugar da Priscila.

– Se fosse eu, ele iria está comemorando!

– Não fala isso, Clara! – Repreendeu a mãe, se arrepiando só de pensar na possibilidade.

– Mãe, eu não sei. Eu juro que não sei…

A filha parecia tão sincera que Marta estava começando a acreditar.

– Mas minha filha, vocês eram melhores amigas.

– Você não acha que eu penso nisso todos os dias? A Priscila fugiu, mãe, e não contou nada! Isso quer dizer que ela tinha segredos comigo! – A voz magoada de Clara convenceu a mãe.

– Ela não demonstrou nenhum comportamento estranho?

– Nada. Ela estava normal. – Clara já tinha repetido aquela mentira tantas vezes que estava começando a acreditar.

– E você não faz ideia de quem seja esse garoto?

– Não! – Segunda mentira que estava se tornando verdade.

As lágrimas de Clara aumentaram. Ela não tinha certeza, mas desconfiava. Ficava repetindo no espelho que Priscila tinha fugido por livre e espontânea vontade e que escondeu esse fato dela. Não queria pensar na possibilidade de que alguma coisa tivesse acontecido com a amiga. Negava para si mesmo que aquela fuga podia ter alguma relação com a noite na boate.

– Eu acredito em você, mas se ela entrar em contato, você tem que nos contar. – Marta se deu por vencida.

– Pode deixar.

A mãe saiu do quarto deixando a filha com o rosto no travesseiro.

Clara estava com ódio. Ela nunca tinha recebido tanta atenção da família, principalmente do pai. Foi preciso sua amiga desaparecer para que eles notassem que tinham uma filha todos os dias e não só em eventos sociais.

Ela sabia que tinha alguma coisa errada naquela história. Por mais que tivesse magoada achando que Priscila escondeu algo importante dela, Clara não podia negar a voz baixinha que lhe dizia sobre possíveis riscos que a melhor amiga estava correndo. Principalmente depois da ligação.

A garota tremeu só de relembrar a voz do outro lado do telefone.

É o seguinte, se você contar para alguém alguma coisa sobre aquela noite eu acabo com você, mas antes mato sua amiguinha e alguém da sua família.

Dois dias antes, aquela voz tirou o sono de Clara. Ele se identificou como Toddy. Era o mesmo garoto da noite na boate, e como naquele dia, fez todos os pelos do corpo da garota se arrepiarem.

 Capítulo 18

“Porque não há nada oculto, senão para ser revelado, e nada escondido senão para ser trazido à luz.” (Marcos 4:22)

Ao contrário do que eu tinha imaginado, o bar que íamos trabalhar não era um lugar sujo e caindo aos pedaços, tudo estava organizado e limpo, como se fosse um restaurante. Eram dois andares e em cada um tinha no meio a parte central onde faziam os drinks.  De cara, percebi que não era qualquer pessoa que frequentava ali.

– Fumaça, mal entrou no trabalho e já quer ser demitido? – A repreensão veio de um homem de altura mediada, com braços musculosos e um visual impecável. A blusa de um tom escuro combinava perfeitamente com a jaqueta de couro preta.

– Quanto tempo, Ronald. – Os dois se abraçaram como se fossem velhos amigos e vi que o puxão de orelha não passava de uma brincadeira.

O Ronald me olhou de cima a baixo e esperou o Fumaça nos apresentar, o que aconteceu de forma apressada.

– Tenho certeza que você vai se dá muito bem no trabalho. – O tom de malícia não me passou despercebido e logo lembrei do Dan. – Vou pedir alguma das meninas para te ensinar a fazer drinks, tenho certeza que os clientes vão adorar um rostinho novo.

– Não precisa, eu ensino. – O Fumaça interveio.

– O que é isso, cara? Tá com ciúmes? Você vai ficar comigo, na parte dos jogos.

Meu amigo abriu a boca para falar alguma coisa, mas desistiu.

– Quero ir ao banheiro. – O desespero de começar a achar que iria ser usada para fins nada legais me fez pensar em procurar alguma forma de fugir. Cheguei a desconfiar que me levar ali era o verdadeiro plano, que seria naquele bar que iriam usar o meu corpo, mas com a reação do Fumaça consegui manter a calma e tentei pensar com clareza.

– Não demora, gracinha, estou precisando vender muito hoje. – Jurei que não seria através de mim que aquele cara com ar de cafetão iria conseguir dinheiro.

O banheiro ficava na parte de cima, que era mais vazia. Quando estava quase chegando lá uma porta com uma sinalização de gerência chamou minha atenção.

A essa altura você já deve ter percebido que não sou a pessoa mais sensata do mundo quando fico curiosa, então o que se segue a seguir não será nenhuma surpresa.

Olhei em volta e tentei não chamar muita atenção quando entrei. O lugar era uma bagunça, o contraste do lado de fora. Tinham papéis por toda a mesa, cadeiras espalhadas, frasco de bebida por todo lugar, além de restos de comida.

Um porta retrato grande pendurado na parede segurou meus olhos. A foto era antiga, mas não ao ponto de ser preto e branco. Vários amigos estavam em uma mesa comemorando, entre eles identifiquei o Miguel e o Ronald, estavam claramente felizes. Nada de estranho, já que todas as pessoas do círculo de amigos do Fumaça, com certeza, tinham alguma ligação com o Miguel.

Quando já estava quase voltando para a porta, uma pessoa na foto me fez parar mais alguns segundos. Aquele cabelo grisalho eu reconheceria em qualquer lugar, já que desde pequena eu o vejo. Era o Wilson, pai da minha melhor amiga.

Mas o que ele estava fazendo em uma roda de caras daquele tipo? Fiquei sem entender como o Wilson, sério do jeito que era, podia ter um dia sentado perto daquela gente.

Ele também parecia feliz. Sorria como os outros e exibia um copo cheio de um liquido que imaginei ser cerveja. O sorriso não era o mesmo que eu conhecia, parecia ser natural.

Aquela nova descoberta chamou mais ainda minha atenção para aquele local. Comecei a passar os olhos por todo o escritório, mexi nas gavetas e nos papéis, sempre com muito cuidado para deixar tudo do mesmo jeito – como se fosse possível com bagunça. Quando já estava achando que aquilo era loucura, um papel em baixo de umas caixas de canetas na terceira gaveta fez com que eu sentisse uma sensação estranha, um aperto no peito, como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer.

O papel era antigo, tinha a cor amarelada e dava para ver que já tinha sido amassado várias vezes. Comecei a ler e era uma espécie de documento de desligamento, dizia alguma coisa do tipo ‘Abro mão dessa criança e a deixo sobre os cuidados do estado, dando minha palavra de que nunca voltarei para procurá-la’. Achei aquilo mega esquisito, porém imaginei ser de alguma das meninas que o Fumaça já tivesse levado ali, mas quando li a assinatura da pessoa que abria mão e da criança que estava sendo abandonada, meu chão desabou.

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– Nós precisamos fazer alguma coisa, Sônia. Minha filha está perdida por ai. – Margarida estava aos prantos.

– Sua filha? – Esbravejou a irmã. – Foi eu que a criei! Você só teve um bebê e depois abandonou!

– Não precisa dizer isso! Todos os dias eu me lembro de como sou uma péssima pessoa e de como seria uma mãe horrível.

As lágrimas da irmã mais nova comoveram.

– Desculpa, Margarida… Eu estou muito nervosa, mas não tenho o direito de falar com você desse jeito. A Priscila também é sua filha. – Sônia foi sincera no pedido. – Nós vamos encontrá-la, minha irmã. O Antônio já foi em uma emissora de um amigo dele  e pediu para divulgar fotos da nossa menina no jornal.

Aquilo não acalmou o coração da mãe biológica.

– A Priscila é esperta, Sônia. Se ela não quiser, não será encontrada.

– Mas alguém vai ter que vê-la em algum lugar. Tenha fé, minha irmã.

Fé. Quanta ironia Sônia dá esse conselho para a irmã. Ela mesma estava lutando desesperadamente para não perder a fé na vida.

Por mais que tivesse o apoio do marido e dos amigos, era difícil acreditar que tudo acabaria bem depois de tanta coisa. Sônia estava cansada das provações. Passou a vida toda ensinando a filha a acreditar em Deus, mas ela já tinha se pegado questionando três vezes em apenas 2 dias se Ele tinha planejado alguma coisa boa para sua vida.

Primeiro aos 16 anos ela descobre que não pode engravidar, porém cinco anos depois consegue. Tem uma bebê doce e cheia de saúde, mas em uma noite qualquer ela vê a filha desfalecer. Apesar da tragédia, recebe Priscila de presente, só que para não perder o costume, o inesperado acontece.

Era como se Deus dissesse que em nenhum momento ela seria totalmente feliz. Sônia não suportaria mais uma perda. Ainda não tinha se recuperado totalmente da primeira filha e agora a segunda…

– Confie, meu amor. – Disse Antônio na noite anterior. Na hora aquelas palavras a reconfortaram, mas agora tudo o que ela mais queria era encontrar Deus cara a cara e perguntar o porquê de tanto teste.

 Capítulo 19

“Quem muito fala trai a confidências, mas quem merece confiança guarda o segredo.” (Provérbios 11:13)

Minha primeira reação foi me beliscar para ter certeza que não era um sonho, quer dizer, um pesadelo. Quando senti a dor, fiquei certa que era real. Depois quis gritar, mas a voz não saiu, e por último desejei correr, mas infelizmente também não consegui.

Só quando ouvi vozes perto da porta, foi que cai na real, mas já era tarde, o Ronald estava entrando, então mesmo em estado de choque, consegui me jogar para debaixo da mesa.

– Estou te falando, cara, essa garota é importante. Eu nunca vi o Miguel tão louco para encontrar alguém. E também nunca vi alguém pagar tão caro por proteção.

– Do que você tá falando, Ronald?

– Quer dizer que o herói da noite não sabe? A mocinha tem um anjo da guarda.

Não demorei muito para entender que a mocinha era eu, mas também foi apenas isso que compreendi.  

– Eu? – O Fumaça também estava confuso.

– Em partes, sim, mas estou falando financeiramente. Na verdade você só está com ela agora por causa dele. O Toddy armou para você.

– Para com isso, Ronald! Para de encher minha cabeça!

– Mas é verdade, garoto! Eu falei para o Wilson Vieira que o Miguel queria sequestrar ela e prontamente ele pagou ao Toddy para impedir que isso acontecesse.

– O que você está dizendo é que o Toddy ganhou dinheiro para impedir que a Priscila fosse sequestrada, mas que para mim disse que ela era minha chance de liberdade? – A estranheza do Fumaça diante daquela revelação e a dor em sua voz me fizeram acreditar que ele estava mais perdido do que eu, já que tudo estava ficando claro na minha mente.

– É isso mesmo! O Wilson é pai da Priscila. A princesinha é a bastarda da família, e pelo visto o papai tá com crise de consciência e resolveu protegê-la para compensar o abandono. E você, parceiro, sobrou nessa história toda.

Aquilo foi demais para minha mente já fragilizada, não lembro direito o que se passou, só sei que quando levantei para ir questionar o que tinha acabado de ouvir, eu caí.

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Depois de quase meia hora rodando pela cidade, Wilson finalmente parou no estacionamento de um restaurante que estava quase vazio. Cinco minutos depois de ter chegado, Margarida entrou no carro.

– Onde está nossa filha? – Ela já foi logo gritando.

– Eu não posso falar, estou tentando protegê-la.

– De quem? De você? Não precisa se preocupar, ela ficou protegida de nós dois na noite em que foi tirada a força dos meus braços. – Margarida não conseguia esconder a mágoa na voz, nem queria.

Wilson não respondeu.

– A Sônia e o Antônio não fazem ideia de onde ela está, isso não é justo, você tem que falar!

– Eu não posso. Confia em mim, a Priscila está em segurança.

– Confiar em você? Como eu posso fazer isso quando você não me prova que não é mais o mesmo homem covarde daquela noite?

O silêncio deixava Margarida mais nervosa.

– Onde ela está? O que você fez com minha filha?

– Fala baixo, as pessoas vão ouvir!

– Eu quero que todo mundo ouça, quero que todos saibam que você sequestrou a Priscila.

– Cala essa boca! Eu estou protegendo ela! O Miguel Monteiro queria sequestrar ela, ele que quer o mal da nossa filha. Você lembra dele, Margarida?

A pergunta foi desnecessária.  Assim como Wilson, ela conheceu o Miguel dos tempos de faculdade. Nessa época, o comportamento fingido e corrupto dele já se manifestava, e os mais próximos sabiam que ele era envolvido com drogas e prostituição.

– O que ele quer com ela?

– É isso que estou tentando descobrir. Por isso ela não pode voltar.

– Com quem ela está?

E então Wilson contou. O fato de saber que Priscila estava em Goiás e na companhia de um dos garotos que trabalhava para o Miguel não acalmou Margarida. Ela não confiava no ex-amante quando se tratava da filha. Não conseguia acreditar que ele sentia alguma coisa por ela, já que se manteve imune aqueles olhinhos brilhantes quando ela nasceu.

 Capítulo 20

“Então sua mulher lhe disse: “Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!” Ele respondeu: “Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?” (Jó 2:9,10)

– Graças a Deus! – Fui surpreendida com um abraço, assim que abri os olhos – Achei que ia precisar te levar ao hospital.

– Eu ainda acho melhor levá-la.

A voz estranha me deixou mais confusa ainda, olhei para o Fumaça sem entender nada.

– Priscila, essa é a dona Marli, nossa vizinha. Ela me viu chegando com você nos braços e veio nos ajudar.

Olhei, pela primeira vez, para a mulher parada do lado dele. Ela era alta, cabelo preto e tinha um olhar materno que exalava preocupação. Quando nossos olhos se cruzaram ela sorriu, e por algum motivo meu coração se encheu de paz. Mas foi só por alguns segundos.

– Como você se sente, querida? – Sua voz foi como mel no meu coração, e um alívio momentâneo dominou meu espírito.

– Estou bem, obrigada. – Respondi com a voz mais doce que consegui. – O que aconteceu?

– Estávamos trabalhando, você ficou tonta e desmaiou. – Em partes, era verdade, eu realmente tinha ficado tonta.

Assenti.

– Quer comer alguma coisa?

Fiz que não e minha mais nova amiga passou algumas instruções para que eu não voltasse a desmaiar. Ela demorou um pouco para ir embora, queria ter certeza que eu estava bem e mesmo eu estando louca para ficar sozinha com o Fumaça e entender o que tinha acontecido, não pude deixar de sentir afeição por ela. Nem me conhecia direito e mesmo assim tinha uma preocupação sincera. Senti que se alguma coisa fugisse do nosso controle era para ela que eu correria.

– Você está bem mesmo? Digo, depois de descobrir a verdade sobre sua família. – Ele olhou para a certidão em cima da mesa na nossa frente e toda a dor que senti na hora que descobri voltou.

– Eu mau posso acreditar, Fumaça… Esse tempo todo…  O Wilson é o meu pai… –Pronunciar aquilo em voz alta foi ainda pior do que ouvir, pareceu que todo o meu passado, tudo o que eu já tinha vivido até ali quebrou em pedacinho. Minha vida era uma grande mentira.

– E pelo visto sua tia sua mãe…

– O Ronaldo viu você pegando?

– Não, percebi antes dele o que você tinha encontrado.

Ele pegou o documento e me entregou. No nome tinha apenas Priscila, a data e a hora em que nasci, e o nome do funcionário do cartório. Ah! E o nome do Wilson e da minha tia Margarida, claro.

– Eu não entendo, como puderam fazer isso comigo?

– Pelo que percebi, sua tia teve um caso com o Wilson, que resultou em você, como sua idade é a mesma da filha dele, então ele já era casado e deu um jeito de abafar a história, te entregando para seus pais.

Ouvir aquilo de uma forma tão crua e seca me fez ficar tonta de novo. Então a verdade era que eu fui fruto de uma infidelidade, fui rejeitada e por pena, meus pais me criaram. O ódio cresceu dentro de mim. Tudo era ainda pior do que eu tinha imaginado. Deus não tinha raiva de mim por ter fugido de suas regras, Ele simplesmente me trouxe ao mundo para sofrer. Era simples assim, eu fazia parte de um de Seus joguinhos para mostrar a todos Quem estava no comando.

– Maldição! – Gritei tão alto que o Fumaça se assustou.

– Cala a boca Priscila, quer acordar todo mundo? – Coloquei a mão no peito e respirei fundo, eu não podia trazer mais problemas para mim, já bastava os que tinham nascido comigo – Eu sei que é uma barr…

– Você sabe o que, Fumaça? Você não sabe de nada, nem ao menos se gosta de mim mesmo, então não vem querer me consolar, porque eu não preciso da sua pena!

– Eu gosto de você sua louca, se não gostasse já tinha te largado sozinha!

– E agora, como vai ser? Eu sou só um joguinho do Toddy para conseguir dinheiro. Você nunca vai ser livre.

– Talvez você esteja certa, mas pelo menos eu tentei.

– Maldito seja o dia que eu nasci… – Eu disse, mudando de assunto. A questão não era ele e seus problemas, mas sim, os meus.

– A culpa não é sua.

– É Dele, Fumaça.

– Dele? – Perguntou sem entender.

– De Deus, foi Ele…

– Não fala isso, Priscila. Deus não tem culpa das coisas ruins que acontecem.

– Como você pode dizer isso? Eu não pedi para nascer e já estava condenada a ser enganada e ter minha vida destruída.

– O que acontece com a gente é resultado das nossas escolhas.

– Eu não escolhi ser fruto de uma traição! – Disse irritada, sem saber aonde ele estava querendo chegar.

– Sei disso, e nem eu planejei essa vida, mas quando vi já estava nela.

– Isso não tem nada a ver. Você não foi enganado.

– Nascer em uma casa com um pai alcoólico e agressivo e precisar fugir aos 13 anos de idade pode não ser engano, mas com certeza não é justo.

Eu não fazia ideia do rumo que aquela conversa tomaria, mas senti necessidade de deixar ele continuar.

– E como você ainda pode defender Deus?

– Eu não o defendo, só sei que Ele não tem culpa dos meus problemas.

– Mas se Ele quisesse teria evitado todo o seu sofrimento.

– Se eu quisesse também teria. Talvez não quando era pequeno, mas depois adquiri esse poder.

– Como assim?

– Já precisei matar para viver, Priscila, e Deus não me obrigou a isso. – As palavras sinceras e diretas me pegaram em cheio, parte de mim não esperava, ou não queria ouvir aquilo. Eu já tinha desconfiado que o Fumaça já tinha matado, afinal, conheci ele em circunstância nada agradáveis, mas naquele momento ficou concretizado, eu havia entregado minha vida nas mãos de um assassino. – Só fiz porque precisei, Priscila… – falou percebendo minha expressão assustada. Fez menção de colocar a mão sobre a minha, mas recuei.

– Qual foi o motivo? – De repente meus problemas pareceram pequenos e distantes, como se fossem de outra pessoa e na verdade, as angústias do Fumaça fossem as minhas.

Ele suspirou e disse:

– Tantos… – Então havia sido mais de uma vez… Comecei a sentir uma sensação de abafamento, o ar ameaçava me faltar e foi difícil conseguir me controlar. – Nenhum motivo que valha a pena você saber. – Ele não me encarava, parecia envergonhado.

– Mas eu quero saber. – Sim, eu queria. Precisava saber quais coisas o irritavam ao ponto de fazê-lo matar, não podia nem pensar na possibilidade de copiá-las.

– Uma vez foi por conta de drogas, o cara para quem eu trabalhava me mandou apagar um garoto que devia a ele. Se eu não fizesse era eu quem dançava. – Senti tristeza em sua voz, enquanto falava pareceu vulnerável, e aquilo fez com que a compaixão encontrasse um lugarzinho em meio ao pânico que eu sentia. Tive vontade de abraçá-lo. – Outra vez foi em uma briga na boate que eu trabalhava. Um cara foi pra cima de uma menina forçar ela a fazer o que não queria, então precisei me meter, não pensei duas vezes, tinha que defendê-la. – Ele parecia uma criança contando seus piores pecados e tive vontade de mandá-lo parar, era como se sua alma se rasgasse a cada palavra. Sua voz era carregada de tristeza e sua expressão não negava a dor que sentia ao falar daquelas coisas. – Outra vez quando eu estava na rua teve um tiroteio, briga de gangues, eu não tinha nada a ver com aquilo, só queria passar minha noite em paz – então ele já havia morado na rua, aquilo realmente me pegou de surpresa. – mas eles estavam a fim de guerra…  

– Fumaça se você não quiser falar tudo bem… – Interrompi.  

– Só sei que pegaram o líder de uma delas, o problema foi que o cara que o prendeu era parceiro dele. – Continuou como se eu não tivesse nem falado. – Ele era um X9. Queria matá-lo, mas não podia fazer isso com as próprias mãos, senão os outros viriam atrás dele. – Deduzi o final antes mesmo de ele terminar.  – Me viu por perto e me chamou, tive medo do que poderia acontecer se eu não obedecesse e fui. Então ele me deu duas opções: ou eu atirava na cabeça do cara ou ele atirava na minha.  

Quando terminou de falar, seu rosto estava pesado e os olhos me pareceram marejados, mas não tive certeza.

– Quantos anos você tinha?

– 13.

Aquilo me revoltou. Quem no mundo obrigava uma criança de 13 anos a fazer uma coisa daquela? Quem era sem coração dessa maneira? Perguntei-me como podia existir tantas pessoas ruins…

– Como você ainda pode defendê-Lo? – Questionei com vontade.

– A vida é assim mesmo, Priscila, uns tens sorte, outros não, uns podem sonhar e realizar, outros matam para ao menos poder sonhar. Não é Deus quem dita os acontecimentos, são nossas escolhas. Por diversas vezes vieram pessoas até mim para dizer que eu podia mudar de vida, mas eu não quis. Na verdade, eu queria e quero, só que não vejo mais solução, já matei tanta gente, acabei com tantos sonhos que não vejo mais saída. Eu sou um caso perdido, mas você não. Mesmo não sendo filha de verdade dos seus pais, eles te criaram com amor e carinho, tanto que você nunca desconfiou de nada. –  Ouvi tudo calada e suas palavras me pegaram surpresa, eu jamais imaginei que um menino como ele pudesse ter tanta verdade dentro de si. Eu até concordei com metade do que ele falou, continuava achando que Deus tinha culpa, se Ele quisesse poderia ter evitado tudo àquilo desde o começo.  

Mas não era hora para gritar com Ele, o Fumaça me fez entender que eu precisava ser forte. Quanto mais fraca eu fosse mais as pessoas me enganariam e pisariam em mim.

– Então, você tem duas opções: ficar se lamentando e fazendo escolhas que te acabem mais ainda ou esperar tudo isso passar, voltar pra casa e enfrentar a realidade.

– Você tem razão. – Admiti.

– Eu sempre tenho. – O tom de brincadeira não disfarçou a tristeza que tinha se alastrado em seus olhos desde que ele começou a contar sua história. Eu nunca imaginaria que ele já tivesse passado por tanta coisa.

– Você é uma pessoa forte. – O elogio o pegou desprevenido e logo desviou o olhar. Aquela reação só me fez ter vontade de consolá-lo. – Obrigada por tudo, eu não teria sobrevivido se não fosse você.

– Teria sim, nem que fosse gritando e brigando – ia retrucar, mas tive uma ideia melhor.

– Ou assim.

Antes que ele percebesse eu já estava o beijando. Um beijo urgente, que tentava dizer tudo o que não consegui quando ele expôs sua alma.

O puxei para mais perto de mim, um segundo longe parecia que alguém ia arrancá-lo dali. Senti que precisava dele, era como se a cada toque todas as coisas no mundo estivessem em seu devido lugar.

– Fumaça…

– Oi – disse, enquanto beijava meu queixo.

– Não me abandona, por favor – supliquei e ele parou de me beijar no mesmo instante.

Ele parecia analisar meu rosto, como se estivesse guardando cada detalhe e seu olhar me fez querê-lo mais ainda.

– Por que eu faria isso? – Sussurrou com a boca colada na minha.

– Porque você quer ser livre do Miguel, dessa vida, e para isso precisa ir embora.

– Eu só vou embora quanto tiver certeza que você está segura.

Ele não tinha entendido. Eu queria ele na minha vida, eu precisava. Mas ao invés de dizer isso, voltei a me concentrar em seus lábios e foi quando ele colocou a mão nas minhas costas, por dentro da blusa, e me olhou como se pedisse permissão para continuar. Foi naquele momento que percebi que estava apaixonada.

Capítulo 21

“Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte.” (Provérbios 14:12)

Uma semana depois ainda não tínhamos voltado a trabalhar. O Fumaça disse que não podíamos confiar no Ronald.

– Ele joga dos dois lados, mas na hora que o bicho pega sempre apoia o Miguel.

– Então será que ele já não entregou que estamos aqui? – Fiquei intrigada.

– Não faço ideia, é por isso que já temos que pensar em ir embora.

– Só não quero voltar pra casa do Daniel, por favor.

– Eu jamais faria isso com você. – Segurou minha mão e apertou. Apenas esse toque foi o suficiente para despertar uma descarga elétrica em mim. – Aliás, me perdoa por aquilo.

– Tá tudo bem, já passou mesmo. – Minha voz embargada entregava a mentira. Não estava tudo tão bem assim. Eu ainda pensava naquelas mãos passeando pelo meu corpo e sentia ânsia de vômito.

– Vem cá… – Me deixei ser envolvida por aqueles braços que não eram mais estranhos.

– Fumaça, porque a Dóris aceita as coisas erradas do filho?

– Ela se sente culpada. – Disse, enquanto eu encostava a cabeça no seu ombro.

– Pelo o quê?

– O marido abandonou eles quando o Dan tinha apenas 8 anos e antes disso, todos os dias ele batia no filho. Acho que a Dóris pensa que se tivesse colocado o esposo pra fora de casa mais cedo, teria evitado o comportamento agressivo do Daniel.

Fiquei chocada com aquela revelação.

– Mas isso não justifica os atos dele hoje.

– Verdade, mas a infância conturbada fez o Daniel crescer revoltado e desequilibrado.

– Só que você não é assim.

– Como eu disse, é só uma questão de escolha.

Assenti e ele deu um sorriso.

– O que foi?

– Você nunca concorda comigo, devo ficar preocupado?

– Só se você continuar sorrindo desse jeito que faz meu coração acelerar.

Dessa vez, sorrimos os dois e quando vi já estávamos nos beijando novamente.

O Fumaça tinha um efeito sobre mim que até hoje não sei explicar. Ao mesmo tempo que sentia vontade de me afastar sentia uma necessidade de ficar. Era como se ele fosse o veneno e o remédio.

– O que você está fazendo comigo? – Sussurrou enquanto beijava avidamente meu ouvido.

– Te beijando? – Respondi confusa. Naquele estado, a última coisa que eu conseguia era raciocinar direito.

– Me enlouquecendo, isso sim!

Voltou a trabalhar em minha boca e mais uma vez, quando sua língua encontrou a minha, todos os fios de cabelo do meu corpo se arrepiaram e eu estremeci da cabeça aos pés.

Nossas bocas se encaixavam perfeitamente, pareciam ter sido feitas uma para outra, e eu só pensava em como queria congelar aquele momento.

– Vamos para o quarto?

– Hum rum… – Murmurei, mais uma vez dando permissão para continuarmos, já que não importasse quantas vezes dormíssemos juntos depois da minha primeira vez, ele sempre me olhava antes, como se estivesse pedido permissão. E eu amava aquilo.

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– Nós precisamos fazer alguma coisa! – Sônia gritou pela terceira vez naquele dia.

– O que você quer que eu faça? Já fui nos hospitais, nas delegacias, rodoviárias, em tudo quanto é lugar e nada.

– Seu amigo não ficou de passar a foto dela em um jornal?

– E ele passou, mas foi local. Se nossa filha estiver em outra cidade não vai adiantar muita coisa… – Respondeu Antônio cabisbaixo.

– Por favor, meu amor, você tem que fazer alguma coisa.

Antes que Antônio alegasse que estava fazendo tudo que podia para encontrar a filha, Margarida resolveu intervir na discussão.

– Eu conheço alguém que pode colocar a foto dela em um jornal nacional.

– Quem? – Perguntou Sônia esperançosa, mas a irmã não respondeu, apenas saiu da sala.

Já era a quinta fez que Margarida ligava para Wilson naquele dia, mas ele não atendia. Jurou que se continuasse assim iria bater na sua casa. Para sua surpresa, daquela vez ele atendeu no terceiro toque.

– O que você quer?

– Quero que você coloque a foto da Priscila em um jornal nacional.

– O que? Você pirou? Eu quero esconder ela do Miguel não entregar de mãos beijadas.

– Se você não fizer isso até amanhã de manhã eu juro que vou dizer para minha irmã e pro meu cunhado que você sabe onde a filha deles está.

Para parecer ainda mais ameaçadora, Margarida não esperou a resposta, apenas desligou o telefone. Ela sabia que era um risco, mas se o Wilson estava falando a verdade e o Miguel queria mesmo pegar a Priscila, ela daria um jeito de proteger a filha.

Capítulo 22

“Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus? “Acaso aquilo que é formado pode dizer ao que o formou: ‘Por que me fizeste assim?'” (Romanos 9:20)

Com a cabeça encostada em seu peito ouvia seu coração bater, quando um questionamento me ocorreu.

– Qual o seu nome?

Ele deu uma risada e disse:

– Fumaça, já não sabe?  

– Quero saber seu nome verdadeiro.

Ele me encarou e eu sustentei o olhar, como sempre, parecia que podia ler meus pensamentos.

– Mateus.

– Uau.

– Que foi? É feio?

– Não, você só não tem cara de Mateus.

– E tenho cara de que? Fernando? Marcos?

– Não! Você tem cara de Fumaça, por falar nisso, quem te deu esse apelido.

Ele se fechou na hora e respondeu:

– Minha mãe.

– O que aconteceu com sua mãe, Fumaça? – Na hora em que as palavras saíram me arrependi.

– Ela morreu.

– Como? – Coloquei a mão em seu queixo e virei seu rosto para o meu, queria que visse que não me importava o quão terrível fosse a história, eu só queria conhecê-lo.

– Eu a matei – ele disse, sem olhar diretamente para mim e me afastei de uma vez.

– O quê?

– Você não queria saber? Eu a matei.

– Para com isso, você está me assustando – disse, com a voz trêmula.

– É verdade! Não só ela, meu pai também.

Ele tinha uma escuridão no olhar que me fez ter medo como nunca tinha sentindo.

– Como? – Sussurrei.

– Um dia eu cheguei da escola e ele estava batendo nela, como acontecia todos os dias em que ele bebia, não aguentei mais ver aquilo e parti para cima dele. Nos atracamos por um tempo até que me soltei dele, fui até a cozinha, peguei fósforo e álcool e o incendiei – ele falava com uma frieza tão grande que me fez querer sair dali correndo, do que mais ele seria capaz? – ela não aguentou vê o marido pegando fogo e foi socorrer, cinco minutos depois a casa inteira estava incendiando e eu fugi.  

– É mentira você não fez isso…

– Eu fiz, Priscila, e por isso para mim não tem mais jeito, entendeu? – Ele gritou e eu pulei da cama. – Onde você vai?

– Ficar bem longe de você – respondi e fui para sala. Eu tremia da cabeça aos pés, ele não tinha alma como eu havia imaginado, era um seco, um perdido que tinha matado os próprios pais e não se arrependia. Desejei ficar o mais longe possível dele e assim, eu fiz.

Capítulo 23

“Porque o salário do pecado é a morte…” (Romanos 6:23)

– Se você não aparecesse em cinco minutos, seu namorado ia ser morto. – A voz melancólica e arrastada foi como o vinagre que deram para Jesus antes de ir à cruz. Aquele rosto de feições delicadas e perturbadoramente perfeitas eu reconheci na hora.

– Vai embora, Priscila. – O Fumaça ordenou, e pela primeira vez, olhei para ele e vi que estava estirado no sofá. Seu nariz sangrava e seu olho direito tinha uma mancha roxa desconhecida.

– O que ele fez com você? – Corri para o seu lado e ficar mais próxima do Miguel fez meu coração quase parar.

– Agora eu entendi por que você fez essas loucuras por ela – mesmo sem olhar diretamente para ele, senti seus olhos percorrerem todo o meu corpo.

– Priscila, fica calma.

– Calma? Você está todo machucado! – Meu histerismo mostrava minha falta de sensatez.

– Se você não sentar agora, vou matá-lo. – O cano do revólver no meu pescoço colocou meu corpo em piloto automático.

– Por favor, não faz nada com a gente. – Supliquei, com a voz chorosa.

– Com você eu não vou fazer nada, preciso do seu rosto e corpo em perfeito estado. – Eu já tinha visto o Miguel na televisão, e sinceramente, ele não estava muito diferente daquele momento. Como alguém consegue fazer ameaças de um jeito tão delicado, educado e ao mesmo tempo soar perturbadoramente psicopata. – Agora você, Fumaça, sabe muito bem que não posso perdoar sua traição. Você será um exemplo.

Não sei bem o que passou na minha cabeça naquele momento ou quais sentimentos invadiram meu coração. Estava tudo muito confuso. Era como se meu espírito tivesse saído do corpo e eu, na verdade, estava assistindo tudo acontecer com uma outra pessoa.  

– Fumaça, e agora? – Sussurrei, como se o Miguel não estivesse sentado na mesa à nossa frente, e apenas a alguns centímetros da gente.  

– Vocês vêm comigo, princesa.

Pela primeira vez tirei os olhos do Miguel e olhei para o Fumaça na esperança de que ele tivesse algum resposta silenciosa, e como sempre, a esperança morreu antes mesmo de ser fundamentada.

Só que para minha surpresa eu estava errada.

Capítulo 24

Antes que eu pudesse formalizar o pensamento de que tudo estava perdido, o Fumaça pulou em cima do Miguel e começou uma briga fadada ao fracasso.

Como o Miguel não esperava o ataque, o Fumaça ficou com uma leve vantagem ao socar seu estômago. Porém, com o tamanho de uma girafa do Miguel, meu namorado logo estava no chão.

A luta não era justa. O Fumaça estava sendo massacrado com sessões de socos no rosto e eu não sabia o que fazer, até que ele disse:

– Priscila, você tem que sair daqui!

Antes que eu pensasse em correr – coisa que estava fora de cogitação vendo ele naquela situação –, enxerguei o revólver, que tinha sido largado em cima da mesa.

Rapidamente meu braço alcançou o objeto e em segundos eu soube que de nada adiantaria. Eu nunca tinha usado um revólver, e o Miguel sabia disso.

Sem pestanejar ele largou o Fumaça no chão e veio pra cima de mim.

– Socorro!!!

– Grita de novo e eu te mato. – A ameaça veio seguida de um tapa na cara, que me fez cair no sofá.

– Aiii!!! – Suas mãos ásperas e duras tocaram em minha bochecha com toda a força que imaginei ser capaz. Mas eu não chorei. Com a dor, minha ficha finalmente caiu e eu tive certeza de tudo o que estava acontecendo. Assim, a raiva tomou conta de mim e desejei ver o Miguel explodir bem na minha frente.

Comecei a calcular a possibilidade de tomar a arma da mão dele e atirar, ou pelo menos, ajudar o Fumaça a fazer isso.

– Para com isso Miguel! Você pode ter a garota que quiser, deixa a Priscila em paz. – O pedido do Fumaça interrompeu meu planejamento.

– Cala a sua boca, seu moleque desgraçado! – Me contorci imaginando a dor que o Fumaça acabara de sentir com o chute.

O Miguel tinha perdido a calma. Estava revelando o real monstro que era e isso me deixou mais apavorada ainda. Eu preferia a versão perturbadoramente calma, pelo menos esse comportamento dava alguma esperança de que ele estava sob controle e conseguiríamos escapar. Daquele novo jeito, a qualquer momento ele poderia nos matar.

– Para com isso, por favor, eu vou com você… – Supliquei, em vão. Eu sabia que o Miguel, na melhor das hipóteses ia matar nós dois, na pior só o Fumaça.

De repente a calma voltou.

– Sim, você vai, mas antes vou matar seu namoradinho traidor. – Falou com a calma de quem está conversando sobre a vida de uma formiga.

Nesse momento segurou meu braço, com sua mão esquerda, tão forte que pensei ser capaz de tocar meu osso, e com a outra mão apontou a arma para o Fumaça.

– O seu problema é comigo e não com ela… – Murmurou, tentando inutilmente levantar. Seus olhos estavam carregados de escuridão. O Fumaça sentia que ia morrer.

Mas eu não. No fundo tinha criado uma imagem do Fumaça de super herói, ele era o meu protetor e, na minha cabeça, sempre ia ser assim. Ele tinha a manha para nos livrar de todas as situações de riscos, não foi assim que aconteceu desde que nos conhecemos?

E mesmo que ele estivesse imune e fragilizado, eu ainda acreditava que iria nos salvar. E talvez esse tenha sido o meu erro. Hoje, eu sei que foi por esse motivo que o tiro tanto me assustou. Em nenhum momento, após a chegada do Miguel, eu quis acreditar que não sairíamos os dois vivos daquela situação.

– O que você fez? – Gritei. O pânico e o desespero nunca estiveram tão presentes na minha voz e no meu coração. – Fumaça!!!!!

– Cala a boca, senão eu atiro em você também! – A versão descontrolada tinha voltado, mas eu não me importava, tudo o que eu queria era salvar o Fumaça. Não sei de onde tirei forças, mas consegui me soltar e correr até ele.

– Fumaça! Fumaça, fala comigo! – Mexi desesperadamente nele para que me respondesse, mas seus olhos estavam mais fechados do que abertos, parecia está tentando falar, mas não conseguia. 

Ele estava sangrando muito e minha cabeça começou a dar voltas, a sensação de estar apenas assistindo a uma cena voltou, e eu esperava que a qualquer momento alguém dissesse “corta”. Ao invés disso, ouvi o barulho de sirenes.

– Vamos, garota! – O Miguel segurou forte nos meus braços e me levantou a força – Você vai comigo agora!

– Por favor, me deixa ajudar ele. – Supliquei.

– Presta atenção – me jogou no sofá e colocou a arma no meu rosto, mas diante do que estava ali do meu lado não senti medo – se você não fizer tudo o que eu mandar será a próxima a ficar assim, entendeu?

– Por favor…

– Priscila, você está ai? – Alguém bateu na porta e uma esperança surgiu em meu coração.

– Não responda. – Ordenou, com o revólver ainda em meu rosto.

Quem quer que fosse não importava, eu só queria que entrasse antes que o Fumaça não tivesse mais nenhuma chance, ele gemia e perdia muito sangue.

– Tem alguma saída pelos fundos?

Fiz que não com a cabeça e como que respondendo as minhas preces, a porta se abriu.

– Mãos para o alto! – Ordenou o mesmo policial que encontrei minutos antes. Como ele chegou ali eu não faço ideia, mas não pude deixar de notar que ele tinha o dom de aparecer nos momentos mais certos.

– Se derem um passo eu atiro. – Só então percebi o outro policial, mais velho, atrás dele.

Mesmo sem os policiais se moverem um centímetro, o Miguel puxou o gatilho e apontou na minha direção. Fechei os olhos, pois pensei ser melhor não vê quando a bala viesse em direção ao meu rosto.

Só que mais uma fez, fui pega de surpresa naquele dia. Antes que eu pudesse gritar, vi o corpo caído na minha frente. Abrir a boca de susto, porém não consegui emitir nenhum som. Ele havia atirado, mas na própria cabeça.

É claro, na hora fiquei estatelada. Mas hoje entendo que ele fez isso porque sabia que mesmo se me matasse iria ser pego de uma maneira ou de outra.

 Capítulo 25

“…Mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 6:23)

– Está tudo bem com você? – O policial mais velho perguntou.

– Sim, ele morreu?

– Provavelmente sim. – Respondeu o salvador. – E seu namorado parece não ter muitas chances – lamentou.

– Por favor, vocês precisam ajudá-lo.

– Ricardo liga para emergência, agora. – De cara percebi duas coisas: o nome do Chapolin Colorado era Ricardo, e o homem robusto e baixo era seu superior.

– Priscila, seus pais estão vindo, vai ficar tudo bem. – Pela segunda vez na minha vida um estranho sabia meu nome, mas diante da situação, isso não importava, eu só queria que o Fumaça dissesse, mesmo com dificuldade que tudo ia ficar bem.

– Aguenta firme. – Percebi que era minha vez de dizer que tudo ia acabar bem, mas por algum motivo não consegui.   

– Priscila… – Chamou com dificuldade, seus olhos abriam e fechavam lentamente.

– Shiu… Não fala nada…

– Tá doendo. – Sua fragilidade partiu meu coração e tudo o que eu pensava era em acabar com seu sofrimento. Abracei ele como se isso fosse fazer a dor parar. Agarrei-me em seu pescoço, como se sua vida dependesse disso.

– Eu sei, mas vai passa, você só precisa ser forte.

– Me… Me perd…oa? – Seu semblante era de completo sofrimento e isso fazia uma áurea de escuridão pairar sobre nós. Não havia esperança.

– Fumaça, por favor, nem pense em me deixar. – Tentei não soar desesperada, mas foi impossível.

– Você pod…pode me perd… perdoar? 

– Sim! – Murmurei, entre lágrimas e soluços, em seu ouvido. – Eu vou te ajudar, prometo.

– Você foi a mel… melhor coisa… – ele parecia parar para puxar o ar – que me aconteceu.

– Fumaça, por favor…

Não sei quando exatamente, mas a Marli chegou e estava de joelhos, do nosso lado. Os olhos dele se voltaram para ela.

– Estou com… medo. – Pensei que falava comigo, mas não.

– Não precisa ficar, lembra do que te falei uma vez? – Ele assentiu, com muita dificuldade.  – Você consegue. – Ela encorajou e confesso que senti ciúmes daquele diálogo. Quem ela pensava que era para roubar aqueles preciosos momentos com o Fumaça?

Abri a boca para dizer mais uma vez que ele ia ficar vivo, mas fechei quando ele me olhou com os olhos quase fechados e a boca trêmula.

Não conseguia para de analisá-lo, não podia aceitar que nunca mais o veria com raiva, com ódio e com paixão. As lágrimas estavam me consumido. Coloquei meu rosto novamente em seu pescoço, eu estava em pânico.

Com a mão sobre seu coração, senti quando ele, aos poucos, foi parando de bater, e junto desligou metade do meu.

Capítulo 26

“Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo.” (Lucas 15:5)

– Vem comigo, Priscila. – Estas são as últimas palavras de que me lembro. Ainda hoje, sonho como se fosse o Fumaça me chamando para fugir com ele, mas ai eu acordo e lembro que era uma pessoa qualquer que queria me tirar de perto dele.

Não desmaie nem nada, mas tudo se passou como um borrão. Em um segundo eu estava na sala com o corpo do fumaça inerte ao meu lado e depois em um lugar que tinha muito barulho.

Fiquei mais ou menos uma hora – ou cinco – no lugar que hoje sei ser a delegacia. Algumas pessoas iam perguntar se eu estava bem, mas eu apenas balançava a cabeça, doía falar. Abrir a boca era como ter que abrir as portas para a realidade, e isso eu não queria.

Do nada um ódio tomou conta de mim, não o mesmo que sentia quando eu e o Fumaça discutíamos, aquele sentimento era novo, perturbador, parecia que ia me consumir. Por que diabos ele tinha que morrer? A sensação de injustiça tomou conta do meu peito, logo minha atenção se voltou para Deus.

Fiquei me perguntando o porquê Dele sempre fazer aquilo comigo, sempre dá um jeito de acabar com minha alegria, sempre dava um jeito de me destruir. Estaria eu condenada ao Seu castigo para sempre?

– Você quer água?

– Oi? – Falei, meio atordoada.

– Quer um copo com água? – Insistiu.

– Não, obrigada.

– Descobri quem você era assim que cheguei na delegacia e vi sua foto passando no jornal. – Ótimo momento para ter aquela conversa.

– Que bom.

– Sinto muito por seu namorado. – Ele parecia está sendo sincero, mas eu realmente não me importava. – Sei que agora parece que não, mas um dia a dor vai passar e você vai entender que Deus sabe o porquê de todas as coisas.

Era o que eu precisava para explodir.

– Ah que ótimo! Então Ele sabe o quanto O odeio!

– Priscila, fica calma… – Sua cara era de completo espanto com minha reação.

– Ficar calma? Deus sempre está dando um jeito de mostrar o quanto devo sofrer e de que Ele sempre está no controle.

– O Ricardo, como sempre, falando o que não deve. – Alguém passou por nós e falou dando risada.

– Desculpa, é melhor eu ir fazer umas coisas lá dentro.

– Também acho. – Respondi mais controlada, porém ainda com raiva.

Quando estava pronta para mais uma rodada de lágrimas e soluços ouvi a voz dele. 

– Olha ela ali. – No mesmo instante senti uma sensação de segurança, de tranquilidade, como se nada nunca tivesse mudado, era como se eu nunca tivesse saído de casa.

– Pai! – Corri até ele e me joguei em seus braços.

– Minha filha… – Ele me abraçou forte, me levantou e girou como se eu ainda fosse sua bebezinha.

Chorei em seu ombro. Estava tudo misturado: saudade, arrependimento, tristeza, raiva, medo, insegurança e culpa. Culpa por ter sido uma decepção para ele.

Não queria sair dos seus braços nunca mais, mas vi minha mãe ao seu lado se derramando em lágrimas e também estava morrendo de saudades dela. Fui até seus braços, que também me encontraram com a mesma intensidade paternal, o que fez me senti pior por ter fugindo.

– Mãe… – Disse entre soluços. – Senti …senti…tanto sua… falta.

– Meu amor… – Ela também chorava. Logo meu pai se juntou a nós e por um momento tive a sensação de nunca ter saído de casa. 

 Parte 2: As consequências

“Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte.” (Mateus 26:38)

– Tem certeza que você está bem? Não fizeram nada com você? – Mesmo depois de quase quatro horas, minha mãe ainda examinava cada parte do meu corpo.

– Está tudo bem, mãe. – Respondi pela milésima vez, sem nenhuma paciência.

O Fumaça tinha morrido. Minha mente começava a aceitar isso, mas meu coração não. Os minutos pareciam se arrastar e cada segundo naquela cidade, sem ele, era uma tortura, tudo o que eu queria era ir embora. O quarto de hotel estava me sufocando e, apesar da presença dos meus pais me trazerem certa segurança, devo confessar que eu não queria ser colocada em uma situação onde tivesse que escolher entre ter o Fumaça vivo ou eles ali.

Contudo, me forcei a ser forte, a não chorar mais, mesmo que por dentro eu estivesse em pedacinhos não quis desmoronar na frente dos meus pais. A pose de forte só durou até eu está no banheiro.

Esperei que água lavasse meu coração, só que isso não aconteceu. Fiquei em baixo do chuveiro um bom tempo e as últimas 24 horas se passaram na minha mente, cada detalhe. Parecia que tinham se passado anos e não um dia.

Lembrei do beijo dele e dos seus olhos se perdendo nos meus. As sensações, o frio na barriga, a vontade de não soltá-lo nunca. Tudo foi muito novo pra mim e muito intenso. Reviver as lembranças foi como jogar sal na ferida. Tudo dentro de mim parecia se rasgar lentamente ao meio.

Naquele momento tive a certeza que eu não era a mesma menina inocente que fugira de casa quase um mês antes. Aquela garota se tinha se perdido em algum lugar naquela viagem e eu soube que nunca mais a acharia.

Chorei mais ainda.

 Fumaça

Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? {…} e, quanto à impiedade do ímpio, não cairá por ela, no dia em que se converter da sua impiedade…” (Ezequiel 33:11,12)

Quando senti a bala penetrando meu pulmão tive certeza que era o fim. Não que eu estivesse sendo derrotista ou algo do tipo, mas todo ser humano sente quando chegou a sua hora.

Meu primeiro pensamento foi de está recebendo o que eu merecia. E o segundo foi de que ficaria livre das minhas culpas. Porém minha alma ou espírito, sabe-se lá como chama, pareceu inquieta com aquela possibilidade.

Lembrei que precisava tirar a Priscila das mãos daquele covarde, eu ainda tinha que ajudá-la, não podia morrer.

– O que você fez?  – Ouvi ela gritar, mas parecia distante.

Tentei dizer que tudo daria certo, mas as palavras não saíram, eu estava perdendo o controle sobre mim. Por um momento, apaguei, o que foi até bom, já que a dor era excruciante, e quando acordei a Priscila estava do meu lado pedindo desesperadamente para que eu aguentasse firme.

– Priscila… – Consegui dizer com muita dificuldade. Eu precisava pedi perdão a ela, meu tempo estava acabando, eu sentia isso. Eu dependia do seu perdão para então acalmar minha alma, pelo menos foi isso que eu pensei.

– Não fala nada. – Ordenou. 

– Tá doendo… – Quis dizer que não era apenas onde recebi o tiro que doía, mas tudo em mim. Meu coração parecia pesado e abrir os olhos era algo extremamente difícil.

Em algum momento comecei a ter alucinações (hoje sei que era tudo real). Ouvi gargalhadas estrondosas, primeiro o som estava distante, mas depois foi ficando mais próximo.

Me repreendi, pois não podia ficar louco segundos antes de morrer, mas grande foi o meu susto quando senti algo tocar minhas costas. Mesmo tonto e com cada centímetro do meu corpo desejando que aquilo acabasse eu tive certeza que o toque tinha sido real.

– Eu sei, mas vai passar, você só precisa ser forte.

– Me… Me perd…oa? – Falei, antes que fosse tarde, mas ao contrário do que pensei aquilo não trouxe tranquilidade. Senti uma sombra do meu lado e não era de ninguém que estava na sala. Uma capa de uma cor escura que eu jamais tinha visto na vida passava por minha cabeça. Um medo súbito percorreu meu corpo e minha primeira reação foi pensar: “Meu Deus, o que está acontecendo?”

Tive vontade de correr, eu tinha certeza que ainda era dia, mas ao meu redor uma escuridão começou a aparecer.

– Fumaça, por favor, nem pense em me deixar.

– Você pod…pode me perd… perdoar?  – Tentei mais uma vez.

– Sim. – Eu estava sendo sincero e por isso esperei ansiosamente que aquelas risadas apavorantes sumissem e que nada mais me tocasse.  

Enquanto a Priscila me abraçava, me forcei a olhar para o lado e mais uma vez a sombra estava ali, só que não estava mais sozinha. E o medo aumentou.  

Abri a boca para gritar e pedi socorro, mas nenhum som saiu.

– Você foi a mel… melhor coisa… – Eu disse com muita dificuldade e era verdade, ela havia feito minha vida miserável valer a pena, e não posso negar que tive esperança de que com aquelas palavras sinceras todos aqueles sussurros em meu ouvido acabassem.

Foi horrível. As frases “Chegou a hora” e “Vinhemos te buscar” nunca foram tão aterrorizantes para mim. Eu não fazia ideia de quem estava dizendo aquilo, mas com certeza não queria ir a lugar algum.

Não consegui ouvir mais nada, além disso. Eu queria retribuir o abraço da Priscila, mas não conseguia, algo prendia minhas mãos.

– Estou com… medo. – Consegui dizer, quando vi a Marli aparecer do meu lado.

– Não precisa ficar, lembra do que ti falei? – Eu não lembrava, mas suas palavras foram suficientes para refrescar minha memória e me levar, por alguns segundos, para a tarde em que a conheci pela primeira vez. Há um ano e meio.

Eu nunca tinha ido a vila, e estava começando o meu trabalho com o Miguel. Fui encarregado de levar uma garota, da mesma idade da Priscila, para passar alguns dias naquela mesma casa. Depois alguém apareceria para pegá-la e levá-la embora.

Naquele tempo eu ainda não fazia ideia do que acontecia com as meninas. Só fui instruído a não perguntar o nome delas, assim seria mais fácil não se envolver ou se importar em saber os sonhos e planos de cada uma.

Mas caí na besteira de perguntar. O nome dela era Alice. Era uma menina doce e amável que queria ser modelo desde os seis anos de idade. Assim como eu, ela achou que estava sendo mandada à trabalho para uma filial da Dreams lá na Turquia.

Marli foi quem nos apresentou a vila e nos deu uma deliciosa torta de boas vindas. A tarde em questão foi quando eu tinha acabado de descobrir pelo Toddy que tinha entregado a Alice nas mãos de um cafetão e estava arrasado.

Na hora que a Marli apareceu para perguntar se o jovem “casal” estava gostando da moradia, me pegou com um saquinho de cocaína nas mãos.

– Isso não vai fazer seus problemas sumirem.

– Mas vai me fazer esquecer.

– Só por alguns segundos, mas conheço algo que pode te fazer esquecer para todo sempre.

Com aquelas palavras, ela conseguiu toda a minha atenção. Eu entrei naquela vida para sobreviver. Não queria destruir sonhos ou matar ninguém, muito menos destruir garotas, eu pensei que apenas venderia drogas e seria motorista das modelos.

Já me sentia a pessoa mais desprezível do mundo por ter matado meus pais, não estava disposto a aumentar minha parcela de culpa, eu só queria me arrastar pela vida e esperar até que a dor da perda e os traumas da infância cicatrizassem. Mas a Marli, ousadamente, estava me prometendo uma solução permanente.

E foi quando, pela primeira vez, ouvi falar de Jesus.

– Ele pode apagar todo o seu passado. Ele quer restaurar seus sonhos e sua vida, você só precisa deixar.

Logo me desanimei. O que ela me prometia era uma utopia.

– Pra mim não tem jeito. Você não me conhece e não tem ideia de quem eu sou ou do que já fiz.

– Mas Ele conhece e não se importa com o que você fez.

– Claro que se importa! – Rebati. – Deus é bom e santo, Ele não fica com alguém tão pecador como eu. – Minha mãe era uma pessoa religiosa, então eu tinha ideia de como Deus trabalhava ou quem Ele era.

 – Jesus sempre está pronto para nos perdoar, não importa o que tenhamos feito, basta que sejamos sinceros. – Ela não se deixou abalar com minha revolta e a firmeza em suas palavras chamou minha atenção, e desde então, não tinha um dia sequer que eu não pensasse naquilo. Só não sabia como alcançar esse perdão.

Será que eu conseguiria segundos antes de morrer o que procurei por quase dois anos?

As vozes ficaram mais intensas e não senti apenas minhas mãos pressas, mas minhas pernas também.

– Você consegue. – Marli pareceu adivinhar meu conflito e mais uma vez, suas palavras foram carregadas de convicção.

Lembrei também que ela disse existir vida após a morte e que para encontrarmos a paz para nossa alma era necessário que entregássemos nossa vida para Jesus e crêssemos que somente Ele é Salvador.

E foi o que eu fiz, mesmo com medo, com aquelas risadas se transformando em gritos desesperados e angustiantes, eu ousei falar com Ele. Ali, à beira da morte, quando acreditei não ter mais esperança para mim, tive a audácia de dizer com meu coração: “Senhor, me perdoa, por favor. Vivi a vida inteira fazendo coisas erradas e sei que não mereço, mas se o Senhor pode perdoar um pecador como eu, suplico que faça.”

Falar com o coração era bem mais fácil do que com a boca e a cada palavra que saia as vozes ia se afastando, porém os gritos aumentando.

Eu sempre acreditei em Deus, mas nunca achei que fosse merecedor Dele, por conta da vida errada que levava. Mas com aquelas palavras eu nunca me senti tão perto Dele. Em questão de segundos minha alma parou de agonia e eu não senti paz de imediato, apenas a certeza de que Ele, por algum motivo, me concedera a graça do perdão.

E então meu coração parou… 

Capítulo 27

“E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.” (Lucas 15:20)

– É aqui?

–Sim… – Respondi com a voz falhando.

O carro parou, olhei ao redor e reconheci a vila. Fazia tão pouco tempo que tinha saído dali, 24 horas talvez, mais parecia que tinha anos. O delegado Maciel – que também me salvou no dia anterior – disse que precisava fazer uma visita na casa onde morávamos. Nada sério, segundo ele, apenas para ver se descobriam algum familiar nas coisas do Fumaça, como já era esperado, o primeiro nome dele não resolveu muita coisa. 

Descemos do carro e andei em passos lentos, queria adiar o máximo possível entrar naquela casa vazia. Meus pais avaliavam tudo, olhavam curiosos para cada canto. As pessoas estavam fora de suas residências conversando, — aposto que eu e o Fumaça éramos o assunto do dia — as crianças brincavam e tudo parecia perfeitamente normal.

– Priscila! 

A Marli parou de limpar sua área de entrada e veio correndo ao meu encontro.

– Minha filha, como você está? – Ela me abraçou e foi preciso toda minha força de vontade para não chorar.

– Indo… – Senti todos os olhares em nossa direção.

– Vai ficar tudo bem, e se servir de consolo tenho certeza que tudo terminou bem para ele.

– Como assim? – Perguntei, incapaz de acreditar no que tinha ouvido.

– Tenho certeza que ele se arrependeu e entregou sua vida a Jesus na última hora. – E então eu entendi o que ele quis dizer quando mencionou que não ia conseguir – Ele está bem, Priscila, mesmo que você não acredite, o Fumaça encontrou a paz.

– Como a senhora pode ter tanta certeza que ele está em paz?

– Vi sua expressão depois de morrer, não estava carregada de medo como minutos antes.

– A senhora acha? – Quis saber, já lutando contra as lágrimas que caiam. Não que eu acreditasse naquelas baboseiras, mas ter a esperança, mesmo que mínima, de que ele estava bem trazia certo conforto. 

Ela não respondeu, apenas me abraçou.

– Filha… – Chamou meu pai.

– Precisamos entrar. – Completou o delegado.

– Obrigada por tudo o que a senhora fez por nós.

– Vê se não some, menina. – Ela disse, enxugando as próprias lágrimas.

– Muito obrigada por ter cuidado dela. – Acrescentou minha mãe.

Marli respondeu que não foi nada e então seguimos.

Não consegui segurar as lágrimas, meu coração nunca esteve tão apertado, tudo ali me lembrava o Fumaça. Sentei no sofá enquanto o delegado e o Ricardo revistavam tudo e aquilo me incomodou, era como uma invasão em um lugar só meu e dele.

Meus pais sentaram ao meu lado e pareciam analisar cada detalhe. Minha mãe viu minhas lágrimas e veio me abraçar, recusei e levantei.

– O que foi, filha?

– Nada.

Fui em direção ao quarto, não ao meu, ao dele, onde tínhamos passado nossa última noite.  Peguei uma blusa sua que ainda estava na cama e decidi guardar comigo, era como tê-lo sempre perto de mim.  

– Priscila? – Tomei um susto com a voz. – Tá tudo bem?

Virei para trás e lá estava minha mãe.

– Tá sim.

Ela lançou um olhar interrogativo pro meu ombro, onde a blusa estava, mas não disse nada.

– De quem era este quarto? – Quis saber, olhando para todos os cantos.

– Era dele. – Respondi, indo em direção às gavetas.

– Filha, o que você está procurando?

– Nada, só vendo se tem alguma coisa minha por aqui. – Percebi que sua expressão mudou, não consegui identificar se para estranhamento ou surpresa.  

Não achei nada nas gavetas, além de mais algumas peças de roupas e seu perfume. Sabia que não poderia levar tudo comigo, então peguei mais uma camisa e o perfume, pelo menos poderia sentir o cheiro dele sempre que a saudade apertasse.

– O que é isso? – Quis saber se aproximando.  

– Algumas coisas que quero guardar. – A resposta saiu seca como planejei.

– Minha filha, vem cá. – Ela disse me puxando pelo braço e me fazendo sentar na cama, ao seu lado. Aquilo me incomodou, apesar de ser minha mãe, ela não sabia nada do que tínhamos passado juntos e grande parte do meu coração desejava que fosse ele ali na minha frente.

Não me entenda mal, eu queria está com meus pais de novo, mas naquele momento senti que a presença deles seria uma tentativa de apagar o Fumaça da minha vida.

– Me fala – minha mãe avaliava cada palavra – exatamente o que aconteceu entre você e esse menino. – Aquilo me tirou do sério. Ela estava tentando invadir meus sentimentos, meus segredos, nossos segredos. Tive vontade jogar na sua cara que eu já sabia da adoção, mas consegui me segurar. 

– Esse menino? Ele não era qualquer um mãe! – Tentei não alterar o tom de voz, não queria que nos escutassem.

– Desculpa, filha, não sabia que ele era tão importante. – Disse na tentativa de consertar as palavras, mas minha raiva só aumentava.

– Ele salvou minha vida diversas vezes e inclusive me ajudou a encontrar a verdade sobre vocês! – Aquilo tinha sido meu limite.  

– Do que você está falando? – Ela tentou disfarçar, mas notei o quanto ficou surpresa.

– Eu já sei que vocês me enganaram a vida toda. – Respondi olhando no fundo dos olhos dela.

Minha mãe parecia confusa, sem saber ao certo do que eu falava, mas arriscou algumas palavras:

– Você é nossa filha, nossa menina.

– Não, eu não sou! – Gritei e vi o quanto ficou assustada.

Virei as costas e fui em direção à porta pronta para gritar com meu pai também, mas quando cheguei na sala olhei para o sofá onde o Fumaça abriu sua alma. Lembrei do quanto ele pareceu indefeso e assustado, meu coração pareceu se partir ao meio ao recordar a cena e naquele momento fiz uma prece silenciosa para que de fato ele tivesse encontrado a paz.

– Eu te entendo. – Com certeza ele tinha ouvido a conversa com minha mãe.

– Nem começa pai, estou cheia de tantas mentiras.

– Senta aqui e me escuta. – Ordenou e confesso que fiquei tentada a dizer que eu não era obrigada, mas ao invés disso, apenas obedeci. – Você está certa, nós te enganamos a vida toda, mas não porque queríamos que você vivesse uma mentira, e sim porque no nosso coração você realmente é nossa filha. Não importa se tem nosso sangue ou não. Você é minha menina, e reconheço que fui um covarde em não te contar a verdade antes, mas só não fiz isso por que tive medo de ti perder.

A raiva ainda continuava ali, mas ele pareceu tão sincero que não ousei questionar. Será que valia mesmo a pena brigar por isso? Eu já tinha perdido o Fumaça, não precisava perder meus pais também.

Sim, eles tinham escondido a verdade, mas afinal de contas, sempre me trataram como filha. Isso deve ser levado em conta. E ainda tinha a coisa toda de reclamar ou agradecer que o Fumaça tinha falado. Minha tia Margarida e o Wilson não quiseram me criar, me rejeitaram e eu fui acolhida por duas pessoas maravilhosas que sempre fizeram tudo por mim. Seria muita ingratidão eu fazer um show por causa de um erro. Quantos eu já não tinha cometido e eles ainda me aceitaram de braços abertos. E verdade seja dita, eu já sabia da adoção há alguns dias, tinha tido tempo para me acostumar com a ideia.

– Vocês sabem quem são meus pais? – A dúvida surgiu de repente.

– Sim. – Meu pai respondeu cabisbaixo.

Durante 15 anos todos souberam que minha tia teve um caso com um homem casado que resultou em mim. E a julgar pela expressão envergonhada da minha mãe, a Marta não fazia parte do “todo mundo”, muito menos a Clara.

Eu não disse nada, de repente tudo ficou pequeno, o lugar pareceu me sufocar, e não ter o Fumaça ali, na nossa casa, piorou tudo.

– Você mudou.

– Não entendi.  

– Você saiu de casa o meu bebê, – ele pareceu que ia chorar – mas está voltando uma garota que enfrentou o mundo. Talvez não o mundo todo, mas coisas suficientes para mexer com você. Como você descobriu?

– Não importa, pai.

– Foi por isso que você fugiu, não foi?

– Não, claro que não! – Respondi rapidamente.

– Então, por quê? Fizemos alguma coisa que…

– Me amaram? Me deram carinho? Me respeitaram e educaram mesmo eu não sendo filha de vocês? Eu fugi pra ficar com ele. – Achei melhor sustentar a mentira que o Fumaça tinha criado ao deixar o bilhete, daria muito trabalho explicar que vi alguém quase ser assassinado, que o Miguel não queria apenas matar o Fumaça quando nos achou, mas sim, me sequestrar. Pois é, como você pode perceber, eu não contei que estava nos planos do Miguel me fazer virar garota de programa. Se meus pais soubesse disso iam querer envolver a polícia e então a pessoa que quis me prejudicar ia se proteger e conseguir escapar. Achei melhor não falar nada, pelo menos enquanto não descobrisse quem me odiava tanto.

Meu pai não disse mais nada, apenas me abraçou e eu me deixei ser reconfortada por aquelas braços, pelo menos ali eu não me sentia rejeitada, eu sabia que ali sempre encontraria proteção e amor, não importava quantas vezes eu fugisse de casa.                              

– Oh pai… oh…me…me perdoa… – Quando dei por mim já estava chorando.  

– Somos nós que temos que te pedir perdão. – Ele disse, tentando novamente conter as lágrimas.

Eu só sabia soluçar. Em um momento virei o rosto, ainda no ombro do meu pai, e vi minha mãe sentada na mesa, ela chorava e um sentimento de gratidão tomou conta de mim. Eles me aceitaram sem nenhum tipo de questionamento ou julgamento. Enxergaram apenas a bebezinha indefesa e abandonada que eu era. Eu devia minha vida a eles. E mesmo não querendo, me senti na obrigação de agradecer a Ele por ter feito ao menos uma coisa boa por mim, me colocando na vida daqueles dois. 

Os policiais apareceram atrás da minha mãe e imaginei que tinham terminado o trabalho, mas não quiseram atrapalhar o momento pai e filha.

– Pai, – chamei tentando me acalmar – vamos embora por favor.

De repente senti uma necessidade de sair dali, não fazia mais sentido ficar. Eu tinha recebido uma chance de recomeçar e precisava fazer isso. Por mim, por meus pais e até pelo Fumaça, afinal de contas, ele lutou para que eu ficasse viva. Eu era a redenção dele e ele a minha sobrevivência.

 Capítulo 28

“Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo.” (Efésios 4:31-32)

Assim que coloquei o primeiro pé dentro de casa tudo pareceu diferente, confesso que por alguns minutos tive vontade de sair correndo e voltar para Goiânia. A dor na alma era cortante, a cada passo que eu dava era como se estivesse traindo o Fumaça, deixando-o pra trás. Precisei repetir milhares de vezes em voz baixa que ele estava dentro de mim, bem guardado em minha mente e no meu coração, independente do lugar no mundo que eu estivesse.

Passei a me questionar constantemente sobre como fui capaz de me apaixonar daquela maneira por alguém em tão pouco tempo. Talvez por tudo que o passamos, pelas coisas que ele me fazia sentir ou até mesmo por todo companheirismo, apesar das nossas brigas. 

No mesmo dia que cheguei, uma multidão veio me ver. Meus amigos da escola, professores e até algumas pessoas da igreja, todos correram para me abraçar, era um puxa pra cá puxa pra lá, todo mundo queria saber se eu estava bem e o porquê de eu ter feito tamanha loucura. Fiquei feliz em ver que eu era tão querida, por outro lado, quis bater nos indiscretos que perguntavam se eu tinha perdido o juízo.

Porém, a pessoa mais importante que vi naquele dia foi a Clara. Reencontrar minha amiga me deu uma sensação de alívio e medo. Agora eu sabia que éramos irmãs, e não fazia ideia de como devia agir com ela. Um segredo daqueles não é algo que dá para fingir por muito tempo, ainda mais para sua melhor amiga.

Ela me deu um abraço com força e percebi que mesmo estando feliz pela minha volta estava também muito abalada. Afinal de contas, eu fugi sem dá nenhuma satisfação. Provavelmente na cabeça da Clara eu a tinha traído.

– Por que você fez isso, Priscila? Você correu riscos, ele poderia ter…

– Para, Clara! O Fumaça não era como o Toddy. – Falei em um altura que ninguém mais pudesse ouvir.

– Não? Mas ele estava lá naquela noite e não fez nada para defender o garoto.

– Mas depois ele veio me ajudar.

– Isso que é estranho, – a expressão dela deixava nítido que ela não ia engolir qualquer história – eu também tava lá, então porque ele só veio salvar você?

Eu não tinha resposta. Fingi que precisava abraçar alguém e sai. Ainda não estava preparada para contar pra Clara sobre o Miguel, porque isso significava contar a verdade sobre nossos laços sanguíneos.

Nem minha tia nem o Wilson foram me ver. A Margarida provavelmente já sabia por minha mãe que eu descobrira tudo e, com certeza, estava me evitando. Ela era ótima como tia e péssima como mãe.

Lembrei de uma vez que eu queria muito ir ao cinema com o pessoal da escola, mas minha mãe não deixava de jeito nenhum. Dizia que eu era muito nova – eu tinha 12 anos, tudo o que queremos nessa idade é liberdade para sair com nossos amigos sozinhos. Isso significa que nossos pais confiam na gente e que finalmente não somos mais crianças. A Margarida vendo meu sofrimento se comprometeu a ir comigo, óbvio que eu não iria. Seria o mico do ano, mas entendi os planos de minha tia quando ela piscou pra mim nas costas de minha mãe.

– Eu confio em você, Priscila. Não faz nenhuma besteira que eu tenha que contar para sua mãe. Me liga assim que o filme acabar.

– Pode deixar, tia! – Beijei seu rosto e pulei do carro feliz e saltitante, como uma criança.

Ela sempre foi a tia legal. Descobrir que eu era sua filha deveria ser uma alegria pra mim, mas não foi. A dor da rejeição sufoca qualquer sentimento de agradecimento.

A rejeição é algo cruel e injusto. Você não sabe por qual motivo não foi aceita e amada, e só consegue pensar que o problema é você.

Claro, eu sabia que era apenas uma bebê e não tinha culpa de nada,  não tinha pedido nem para nascer. Isso devia aliviar mais, mas não era assim. Eu ficava me perguntando o porquê de não terem evitado meu nascimento, porquê me odiaram tanto ao ponto de confiarem minha criação a outras pessoas.

Não se engane, eu não me iludo. Sei que sou fruto de um caso proibido, “fruto do pecado”, “do erro”, como diria meus pais, mas ao menos, minha tia, como mãe deveria ter lutado por mim.

Agradecer e vê o lado positivo das coisas não era assim tão fácil, na prática.

Alguns dias depois tudo estava voltando ao normal, pelo menos aparentemente ou para as pessoas ao meu redor. Meus pais já estavam trabalhando novamente, minha mãe pegando no meu pé por qualquer besteira e meu pai querendo que eu voltasse à escola.

Minha mãe agia como se nada tivesse acontecido, já meu pai achava um jeito de comentar alguma coisa entre uma refeição e outra.

– Priscila, você precisa entender que nada mudou entre nós. Você é nossa filha.

Diante do meu silêncio, continuava.

– Esperamos que você tenha aprendido a lição. Fugir atrás de liberdade só trás desilusão. Não é isso que Deus quer para nós.

Ele sabia que eu não queria ouvir, mas mesmo assim falava, e um dia resolvi explodir.

– E o que Ele quer pra mim, pai? Dor? Sofrimento?

– Claro que não, minha filha!

– Mas é só isso que Ele tem feito por mim!

– Deus não faz nada por nós que não sejam consequências de nossas escolhas. – Advertiu.

– Então, a culpa é minha de ter sido abandonada assim que nasci? Como você queria que eu agisse? Chorasse? – Zombei.

– Você não foi abandonada, Priscila, foi abençoada! – Se meteu minha mãe.

Eu sabia que sim. Não podia reclamar deles. Foram os melhores pais que eu pude ter, então mesmo com raiva por quererem se meter na minha vida e questionarem minhas opiniões – como todos bons pais fazem –, levantei da mesa e fui pro meu quarto.

Se falasse mais iria magoar mais.

Capítulo 29

“Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel.” (Mateus 27:34)

Tanto meu pai quanto minha mãe passaram a me dá gelo. Nitidamente estavam magoados com minha reação e eu me sentia culpada por isso, mas não podia evitar o que sentia. E tudo o que eu sentia era raiva.

Então percebi que enquanto não explodisse com as pessoas certas eu não conseguiria tocar minha vida adiante.

– Pode entrar, Priscila. – A julgar por seu rosto pálido e sua expressão tão assustada, imaginei que meu nome era o último que ele esperava ouvir do porteiro.

– A Clara está? – Eu já sabia a resposta. Tinha mandando uma mensagem pra ela antes de sair de casa.

– Não. – Fiquei esperando ele acrescentar que ela estava no inglês, mas isso não aconteceu.

Ele me guiou pra sentar no sofá. Era estranho está naquela casa daquela maneira tão formal. Eu e a Clara nos conhecíamos desde pequenas, então sempre tive total liberdade ali. Não era necessário que alguém me mandasse sentar.

– Como você está? Ficamos todos preocupados.

– Eu imagino. – Respondi no tom mais seco que consegui.

– Fizeram alguma coisa com você? Te machucaram?

– Depende.

– Como assim? O que aconteceu, Priscila? – Uma dose de pânico em sua voz era evidente, será que ele achava que eu ia mesmo acreditar naquela cena?  

– Você aconteceu! – Soltei, sem pensar duas vezes e tentando ao máximo controlar meu tom de voz. – Minha tia aconteceu!

– Não estou entendendo do que você está falando… – Mesmo com seu cinismo eu notei a expressão de desespero que se formava.

– Que tal isso: um homem que está desesperado para esconder a gravidez da amante abandona a filha. – A cada palavra que saia era como se eu o espetasse e isso me fazia bem. Ao menos eu sentia que estava por cima.

– Eu pos..s posso exp… explicar Priscila. – Gaguejou.

– Não quero explicações, só preciso saber o por quê. Por que você me abandonou? E minha tia, por que permitiu isso? – A mágoa era evidente em minha voz e as lágrimas ameaçaram cair, mas por um milagre, ou por orgulho, me mantive firme. – Eu era só um bebê.

Ele não me encarava, seu olhar estava focado em alguma coisa a sua frente e aquilo me deixou enfurecida.

– Você não tem a dignidade de olhar pra mim.

– Eu não posso.

– Não pode ou não quer? – Acusei e consegui a atenção total dele.

– Não posso olhar por mais de 5 segundos em seus olhos porque vejo os meus, não sou capaz de ver a dor em seu rosto porque enxergo a culpa no meu e enquanto você fala, eu volto àquela maldita noite, o que me faz lembrar o quanto sou desprezível.

Aquilo doeu e uma lágrima desceu.

– Maldita não por você, – disse, adivinhando meus pensamentos – mas porque eu cometi o maior erro da minha vida. Fui covarde para assumir você e nunca me perdoei por isso. – Sua voz era carregada de dor e seus olhos passavam por todos os lugares, mas não paravam nos meus. – Sua tia foi um momento de fraqueza e eu me desesperei. Mas não tinha o direito de ter feito o que fiz.

Eu não conseguia falar nada, então ele continuou.

– Quando a Margarida falou que estava grávida eu fiquei desesperado. Me perguntei como em uma única vez isso podia ter acontecido. O medo superou minha razão e fiz o que eu tinha que fazer para que a Marta não descobrisse. Você faz ideia de como isso a machucaria? Ela vive para passar uma boa imagem, uma traição a mataria, além de destruir minha própria reputação, família e negócios.

Suas palavras estavam sendo como vinagre na ferida. Todos os meus pensamentos sendo expostos em palavras. Ele realmente sentiu vergonha de mim. Meu nascimento significava sua destruição.

– Eu sei que você não tinha e não tem culpa de nada, – nesse momento ele me olhou e eu sustentei o olhar, mesmo que isso me acabasse mais ainda e aumentasse a vontade de chorar bem ali na sua frente – mas eu fui egoísta, só pensei em mim e mesmo sua tia me suplicando para não tirar você dela, eu fiz.   

– Como?

– Apesar de ter ficado preocupada tanto quanto eu, afinal ela tinha dormido com um homem casado, a Margarida queria assumir você, dizer que não sabia quem era seu pai. Ela estava disposta a enfrentar qualquer coisa por você.

– E você não deixou… – Conclui com um ódio beirando a dor.

– Não. Obriguei ela a viajar durante toda a gestação e ter você em um lugar bem longe daqui. – Dizer aquilo parecia está sendo difícil, mas ao mesmo tempo era como se ele tirasse um peso das costas.

Aquelas revelações estavam me pegando desprevenida, eu não tinha me preparado para aquilo, somente para acusar. Saber que minha tia me quis, mesmo que por um momento, aliviou um pouco a dor, mas ao mesmo tempo aumento o ódio.

Um silêncio tomou conta da sala. Queria gritar, mas não consegui, queria chorar, mas não cedi.  

– Priscila, – ele parecia está escolhendo cada palavra – te salvar foi a maneira que encontrei de me redimir.

‘Maneira errada’, pensei, mas engoli a ofensa.

– Como você descobriu?

– Achei a certidão no bar do Ronald.

– Aquele maldito. Nunca decidiu de qual lado ficar. – Eu sabia que ele estava se referindo ao fato do Ronald trabalhar tanto pra ele quanto para o Miguel.

Me perguntei se isso era mais importante do que ter a filha renegada bem na sua frente, mas não ia suplicar atenção.

– Por que o Miguel me queria? Não faz sentido.

– Ele sempre quis me destruir, acredito que tenha visto em você a oportunidade.

– Então vocês se conheciam de muito tempo?

Ele parou por alguns segundos antes de responder, como se tivesse lembrando de alguma coisa importante, e então disse:

– Fomos amigos de faculdade, mas uma vez estávamos em uma festa e peguei ele ficando com a garota que eu gostava. Brigamos e desde então, nunca mais nos falamos. – Seu tom era de quem estava colocando pra fora uma mágoa de muitos anos. – O Miguel nunca soube perder, então ficar sem minha amizade era o mesmo que matá-lo. Não pelo fato de ser eu, mas por não ter o controle sobre algo.

Abri a boca para falar alguma coisa, mas o que mais poderia ser dito? Era óbvio que estávamos falando do passado para evitar o presente, e isso era tão horrendo e pesado quando o silêncio que existia entre nós.

Resolvi facilitar as coisas.

– Eu já vou.

Fiquei esperando a tentativa de impedimento, mas não aconteceu. Sentado ele estava e assim continuou. Não sei bem o que eu esperava daquela conversa, quer dizer, desconfio que parte de mim queria ouvir ele suplicando por perdão e me prometendo que iria contar tudo à sua família. Porém um homem como ele, não podia colocar tudo a perder por causa de uma noite que não passou de sexo e falta de prevenção.

Fui embora com mais ódio do que quando entrei.

 Capítulo 30

“Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe.” (Lucas 17:3-4)

– Filha, onde você está? Te liguei a manhã toda e você não atendeu. O que aconteceu? – A voz de preocupada da minha mãe indicava que alguma coisa estava errada. Há dias ela não falava comigo, e do nada me ligada toda prestativa.

– Tá tudo bem, mãe. Só vim dá uma volta com a Clara. Daqui a pouco volto pra casa.

– Você devia ter avisado. – Repreendeu. 

Meu dedo coçou em cima do botão de desligar. O que eu menos precisava naquele momento era minha mãe pegando no meu pé. Apesar de não tocar no assunto da fuga, ela “disfarçadamente” procurava saber todos os meus passos. Acho que tinha medo de que a qualquer momento eu fosse surtar e fugir novamente.

– Desculpa, mãe. Te aviso se for demorar. – Não criei uma discussão por causa disso. Precisava guardar minhas emoções para a próxima punhalada daquele dia.

Eu tinha que falar com minha tia. Desejei que o Fumaça estivesse ali, seria bem mais fácil. Ele ia segurar minha mão ou me abraçar e isso iria me dá segurança e tranquilidade, mesmo que por alguns minutos. Era o que eu precisava.

Ri diante de tamanha ironia. Quando nos conhecemos eu queria distância dele e por algumas vezes tive medo. Seu toque já me causou repugnância, mas agora era tudo o que eu queria.

– Chegamos, garota.

Paguei o táxi e a passos largos fui em direção a casa da minha tia em São Paulo. Eu tinha ouvido minha mãe comentar com meu pai que ela não tinha voltado pra casa da minha vó e iria ficar por perto até ter coragem de falar comigo. Pois bem, tomei a atitude primeiro. Não que eu quisesse começar algum tipo de relacionamento mãe e filha, mas  sim pelo fato de que eu precisava enfrentar meus problemas se quisesse seguir em frente.

Na realidade eu não tava tão corajosa assim. Quando cheguei em frente ao portão, o ar começou a me faltar. Hoje, parte de mim acredita que eu queria provar até onde aguentava. Até que ponto eu seria capaz de suportar as rejeições? Eu não tinha perdido o gosto por andar nos limites do perigo.

– Priscila, meu amor, graças Deus! – Grande foi minha surpresa quando minha tia abriu o portão e veio correndo me abraçar, como se nada tivesse acontecido.

– Oi, tia. – Eu sei que deveria ter rejeitado o abraço, mas não consegui. De repente percebi que teria sido muito mais fácil se eu tivesse optado por seguir em frente fingido que ainda éramos uma família feliz. Eu, a sobrinha mimada, e ela a tia legal.

– Entra. – Diferente do Wilson, ela tinha uma capacidade enorme de me encarar como se nada tivesse acontecido. Talvez se escondesse no fato de que a culpa tinha sido toda dele. Pelo menos era o que ela pensava.

– Está tudo bem? — Perguntou assim que entramos.

– Tia, não vamos fingir que eu não sei. Então, por favor, me fala, por que você fez isso comigo? – Eu quase gritei, está cara a cara com ela me fez entender que minha raiva era maior por ela. Se me queria tanto, por que não lutou mais por mim? Se estava disposta a enfrentar o que fosse para ficar comigo, porque não enfrentou o Wilson?

– Como você descobriu? – Ela não fingiu surpresa.

Falei a verdade e, como eu havia imaginado, ela também conhecia o Ronald. A Margarida tinha feito faculdade de Administração junto com o Wilson, foi assim que eles se conheceram e todo o resto.

– Eu nunca gostei do Miguel. Ele sempre me deu arrepios. – Anunciou como se estivesse me contando um segredo. – Você não entende, meu amor, eu queria – ela parecia escolher as palavras – deixa pra lá… – Ao contrário do Wilson, ela preferia falar de mim, da gente.

– Queria o quê, tia? Me criar? Acho que se você quisesse realmente isso tinha dado um jeito! – Explodi.

Ela não respondeu e eu continuei.

– Se você me queria tanto, se estava tão disposta a enfrentar as consequências por ficar comigo, por que não lutou mais? – Minha voz estava carregada de mágoa.

– Eu não podia. – Ela disse chorando. – Se ele não acabasse comigo, o Miguel faria. – Acrescentou.

– O Miguel? Mas o que ele tinha a ver com o caso de vocês?

Sem me encarar, ela respondeu:

– Nós namorávamos.

E então a minha ficha caiu. Não foi o Wilson que pegou o Miguel com a garota que ele gostava, foi o contrário. E talvez, o Miguel quisesse acrescentar minha tia na sua lista de pessoas para se vingar.

– Sejamos sinceras, Priscila, – seu rosto estava cheio de dor – a Sônia fez um trabalho bem melhor do que faria.

Mais um baque.

– É tia, porque ao contrário de você ela não me abandonou.

– Priscila, por favor, não fala assim… – Suplicou. – Eu era jovem e imatura, você tem que me perdoar… – Começou a chorar novamente.

– Essa foi a primeira visita que te fiz como filha e a última. Por favor, não me procure mais.

Sem pensar duas vezes me levantei e fui em direção à porta, hesitei antes de abrir, mas mesmo o choro desesperado dela e as suplicas para que não eu fizesse isso, não foram capazes de me fazer olhar para trás antes sair.

 Capítulo 31

“Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência…” (Deuteronômio 30:19)

Assim que cheguei à calçada minhas pernas vacilaram, fiquei um pouco tonta e achei melhor sentar. Enquanto processava os últimos encontros cai no choro.

Como em tão pouco tempo minha vida mudara tanto? Se eu não tivesse saído de casa naquela noite teria descoberto a verdade sobre meus pais? Ou pior, será que o Miguel tinha me levado? Tantas perguntas, questionamentos e nenhuma resposta ao meu alcance. Eu não conseguia entender o porquê de tudo isso ter acontecido. Se eu não tivesse entrado naquele banheiro não tinha visto o Toddy matar o garoto e talvez a noite tivesse terminado bem.

Então, quem sabe eu ainda fosse uma pessoa feliz, nunca tivesse sentido o quanto fui rejeitada ou odiada e melhor, em algum lugar desse mundo o Fumaça ainda estaria vivo tentando mudar de vida, ou não.

Mesmo estando com a cabeça entre as pernas meu choro começou a chamar a atenção das pessoas e uma mão tocou meu ombro.

– Moça, está tudo bem?

Levantei a cabeça para olhar quem ousara me interromper e quando vi, chorei mais ainda.

– Priscila? O que aconteceu? – Ela sentou ao meu lado.

– Tantas coisas, Dani. – Daniele fazia parte do grupo de jovens da igreja dos meus pais. E mesmo eu não indo mais, sempre tive muito respeito por ela. Sabe aquelas pessoas que falam o que você não quer ouvir, mas no fundo é a verdade? Então, ela é assim.

E quando percebeu que eu não estava mais como antes, que não queria mais aquelas coisas para minha vida, ela disse que a vida era minha, as escolhas também, portanto as consequências não seriam de mais ninguém, só minhas. Na hora eu nem liguei e confesso que durante a fuga eu nem me recordava disso, não conseguia tirar da minha cabeça que a culpa era de Deus. Que Ele me escolhera para sofrer.

Mas naquele instante, com ela sentada ao meu lado, eu me recordei. Afinal de contas, será que se eu não tivesse ao menos pedido ajuda ao invés de fugir eu teria chegado aquele ponto?

– Priscila, – sua voz era tão séria e firme que tive certeza que me daria um sermão –  independente do que seja…

– Já sei, eu escolhi assim. – Interrompi de mal humor.

– Eu não ia dizer isso, ia falar que tem jeito.

– Mas foi você mesmo que disse que as consequências eram minhas.

– Sim, mas não significa que é necessário enfrentá-las sozinhas.

– Você só está dizendo isso por que não faz ideia de tudo o que tem acontecido. – Quando falei isso, minha intenção era que ela me mandasse contar, guardar aquilo comigo parecia que ia me destruir por dentro. Por isso, esqueci que estava em guerra com Deus e com a vida, eu só queria colocar pra fora e ouvir que sim, tudo daria certo.

– Então me conte.

E eu contei. Desde a festa até aquela calçada. Abri o jogo e ela ouviu atentamente. Em algumas partes chorei, e mesmo o olhar curioso das pessoas que passavam não me intimidou. Eu estava colocando pra fora, e pela primeira vez, senti que minha alma e meu coração estavam sendo lavados de toda dor. Era como se dividir o peso deixasse tudo mais leve.

– Uau. Você é realmente mais forte do que imaginei.  

– Se eu fosse forte, não estava sentada em uma calçada, aos prantos. – Zombei.

– Você é sim, mas suas forças não são eternas, acredito que esse tenha sido o seu limite.  

– E eu espero que tenha sido o Dele também. – Falei olhando para o céu. 

– Priscila, Deus não fez nada disso com você, na verdade você está deixando passar um detalhe importantíssimo. – Seu tom de voz era de quem ia contar a senha do wi fi e não quisesse dividir com ninguém, além de mim. – Você errou em ter fugido? Sim. Mas Deus foi tão misericordioso que apesar dos seus erros não te deixou continuar sendo enganada, e ainda te livrou da morte.

Eu não tinha respostas para aquilo.

– A verdade, Priscila, pode doer, mas sempre libertará. Descobrir sobre sua adoção não é motivo para que você se sinta rejeitada, mesmo que você tenha sido. – Ressaltou – Isso também mostra que Ele cuidou de você já pequena, pois ti colocou em uma família que ti ama. Pior seria ter ido parar nas ruas, como acontece com muitas crianças abandonas.

Ela tinha razão, a verdade libertava. Enxergar as coisas por aquele ângulo fazia tudo doer menos, e eu notei que, realmente, tinha mais coisas para agradecer do que reclamar.

 – E o Fumaça? Ele morreu…

–Você pode se surpreender com a quantidade de pessoas que se arrependem antes de morrer, e acabam entregando sua vida a Jesus.

Não falei nada, apenas refletia em suas palavras. Tudo parecia fazer tanto sentido colocado daquela maneira.

– Você fugiu, Priscila, mas mesmo assim seus pais te procuraram e quando te encontram não hesitaram em ir te buscar. – Forcei minha mente a acompanhar aonde ela queria chegar. – Com Deus não está sendo diferente. Ele continua te procurando, você só precisa parar de se esconder.

Aquilo bagunçou minha mente. Eu não estava me escondendo Dele e nem fazia questão disso, só queria que Ele explicasse o porquê de tanta perseguição comigo.

– Ninguém nasce pra sofrer, Pri, as pessoas que acabam indo atrás do sofrimento, quando resolvem viver longe do Único que pode trazer felicidade.

– Mas por que Ele tinha que ser o dono na minha alegria? Eu queria ser livre.

– A liberdade é maravilhosa, mas vem acompanhada de um preso alto. – Ela parecia adivinhar meus pensamentos e aquilo me assustou. – Deus não quer prender ninguém, a prova disso é que temos o livre e arbítrio, mas Ele sabe que sem Sua proteção ficamos vulneráveis as maldades da vida.

Eu ia falar alguma coisa, porém quando abri a boca, não consegui. De repente tudo pareceu está girando e mesmo sentido minhas pernas vacilarem, tentei falar que tinha alguma coisa acontecendo comigo, mas não dava, o ar me faltou e antes que eu pudesse pedir socorro tudo ficou escuro.

 Capítulo 32

Hoje vamos ver como foi a reação de Clara ao descobrir a verdade sobre família…

– Por favor, fala que você está mentindo.

– Filha, senta aqui.

– Não, me solta! Você é um traidor! Vocês dois são!  

Clara estava descontrolada. Ela não fazia ideia de como uma simples conversa com seu pai terminou com ele dizendo que a Priscila era sua irmã.

– A mamãe sabe?

– Não. – Respondeu Wilson, envergonhado.

– Vou contar pra ela agora o marido sem-vergonha que você é.

– Clara, me respeita, eu ainda sou seu pai. – Ordenou com a voz mais autoritária que conseguiu achar em meio a sua vergonha.

– E dela também! – Falar isso em voz alta fazia parecer pior do que realmente era.

– Filha, por favor, senta.  

– A vida toda você sabia que éramos irmãs, por isso fazia tanta questão por nossa amizade. – Clara concluiu. – Por isso você sempre arrumava uma desculpa para brigar comigo? Por que sempre que me olhava lembrava da sua outra filha? – Clara sentiu as lágrimas aparecerem, mas segurou. Não daria esse gosto a ele.

– É verdade. – Admitiu, sem conseguir olhar nos olhos dela.

– Eu te odeio! – Gritou uma última vez e saiu do quarto, ignorando as promessas do seu pai de que ela continuaria sendo sua filha do mesmo jeito.  

 Capítulo 33

“Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe. Eles serão um enfeite para a sua cabeça, um adorno para o seu pescoço.” (Provérbios 1:8-9)

– Deve ter algum engano, doutor.

Ouvi a voz da minha mãe e com muito esforço abri os olhos. Eu não fazia ideia de onde estava, mas quando vi as paredes brancas do quarto, constatei que era um hospital.

– Infelizmente, dona Sônia, não há. Os exames são precisos, sua filha está grávida.

– O que? – Dei um sobressalto e minha cabeça doeu. 

– Priscila, você precisa ficar calma. – Disse um senhor que aparentava, com seus cabelos grisalhos, ter uns 60 anos, e logo deduzi que era o médico.

– Vocês estão falando de mim? – Ambos me olharam como se eu tivesse perguntado se a cor da água era transparente.

– Sim, Priscila.  

– Isso não é possível, mãe! Não faz sentindo. – Minha voz era de desespero.

– Você realmente precisa se acalmar. 

– Você tem namorado? – Quis saber o doutor.

Olhei de relance para minha mãe e apenas neguei com a cabeça.  

Diante da minha resposta negativa ele suspirou e afirmou:

– Mas você teve relação sexual com alguém.

Abri a boca para questionar, mas não tinha mais nada a ser dito. Baixei os olhos e voltei a me deitar, eu não podia encarar minha mãe. Com aquela noticia não sabia se seria capaz de olhar meu próprio reflexo no espelho.

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Como pude ser tão imprudente? Cresci ouvindo que o sexo só deve ser feito depois do casamento e naquele momento essa era a única regra que eu me arrependia de ter quebrado.

 Eu já ia começar a xingar, pela milésima vez naquele dia, quando um pensamento me ocorreu, ou melhor, um nome: ‘Deus’. Sempre Ele dando um jeito de controlar minha vida. Aquela gravidez fazia parte do castigo, não havia sido suficiente me vê sofrer todos os dias pela morte do Fumaça, agora eu tinha que ter uma criança sem a ajuda dele. Como eu criaria um filho sozinha?  

Mas quando estava prestes a jogar tudo do meu quarto na direção do céu, eu lembrei do que tinha ouvido mais cedo: “A vida é sua, as escolhas são suas, e as consequências também.” Respirei fundo e resolvi ser madura o suficiente para encarar aquilo, não podia agir com capricho a vida toda, sempre culpando os outros. Eu engravidei, então eu daria um jeito naquilo.

Sem pensar, me direcionei até a mesa que estava o notebook, mas antes de chegar lá meus pais entraram de uma vez no quarto.  Olhei para meu pai e seu semblante estava furioso, no mesmo instante a vergonha bateu.  Já minha mãe continuava com a mesma expressão de decepção e outra onda de vergonha percorreu o meu corpo.

– Antônio, por favor, se controla, o médico disse que ela não pode ter emoções fortes – alertou como se eu não estivesse ali. Mas meu pai ignorou.

– Olha dentro dos meus olhos e diz que você não está grávida, Priscila. Diz que você não foi irresponsável e inconsequente a esse ponto e que tudo não passa de uma grande piada de mau gosto. – Apesar de não gritar, seu tom de voz era sério e autoritário, o que aumentou meu medo.

– Pai, eu posso explicar. – Tentei argumentar em vão.

– Não, Priscila, você não precisa explicar! Eu sei como se faz uma criança! – Seu rosto estava vermelho, eu nunca tinha visto ele daquele jeito. – O que eu não sei é como você foi tão imprudente. Já que queria fazer as coisas do seu jeito, o problema era seu! Você não tinha o direito de envolver uma criança nisso! – Ele perdeu o controle e posso apostar que sua voz foi ouvida na vizinha.

– Antônio, calma. – Pediu novamente minha mãe, mas dessa vez indo pra perto dele. Ele olhou pra ela, mas não adiantou muito.   

– O bebê não tem culpa de nada! Você não tem noção da responsabilidade que é ter um filho!

Quando ele falou isso deixou de ser o único nervoso no quarto, meu sangue ferveu.  Levantei da cadeira e gritei:

– Eu não quis ter um filho! Não quis!

– Fala baixo comigo! – Ele não gritava mais, mas apontou o dedo na minha cara. – Eu sou seu pai!

– Calma vocês dois! Discutir não adiantar.

– Calma nada mãe, eu não quis nenhuma criança e eu vou dar um jeito, não precisa se preocupar.

Antes que eu pudesse perceber o que estava prestes a acontecer o tapa veio. Meu rosto virou de uma vez e a dor foi tão alucinante quanto quando o Miguel tinha feito aquilo.

– Tá maluca, mãe? – Meu pai também estava parado, surpreso com o que aconteceu.

– Nunca mais ouse dizer que vai matar uma criança, você não sabe o que é perder um filho. – A voz dela estava mergulhada em sofrimento. De repente uma escuridão pareceu rondar minha mãe, e me perguntei se caso eu tivesse aquela criança iria ficar tão alucinada com a morte daquela maneira.

– Priscila, a vida é sua e mais uma vez você tem a chance de fazer o que quiser, mas saiba que novamente terá consequências. – Alertou meu pai.

– Antônio, você não pode deixar ela fazer isso!

– Meu amor, o filho é dela, ela escolhe. Mas saiba – se dirigiu a mim – que nós não concordaremos nem apoiaremos isso.  

Ele pegou o braço de minha mãe e delicadamente a guiou até a porta. Só então comecei a alisar meu rosto para vê se a dor diminuía e enquanto fazia isso sequei uma lágrima, e depois duas, três, e assim por diante. Pela segunda vez naquele dia eu chorei feito um bebê, como eu seria capaz de criar um?

 Capítulo 34

“Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos.” (Provérbios 16:9)

Os dias passaram e mesmo contra minha vontade meus pais me obrigaram a voltar para escola. As coisas não estavam como antes, aliás nunca mais seriam. Meus amigos não falavam direito comigo, mesmo os que foram me ver no dia em que voltei, era como se não me conhecessem.

Eles tinham seguido a diante. Tinham me esquecido, e olha que ninguém sabia ainda da gravidez.

A Clara não olhava na minha cara e fazia questão de me mostrar o quanto estava feliz curtindo muitas festas e namorados. Minha mãe comentou que o Wilson tinha finalmente contado toda a verdade pra família e que isso tinha gerado a maior confusão.

Mesmo com essa notícia eu não o procurei mais. Contar a verdade para família não quer dizer que ele estava arrependido, talvez só tenha ficado com medo de eu abrir o bico, então quis resolver o problema antes.

Por várias vezes quis ir até a Clara dizer que eu não tinha a menor intenção de tomar seu pai, porém não me humilhei. De todas as pessoas, ela era a que esperei que mais me entendesse.  Tudo bem, eu já esperava que ela ficasse com raiva, mas só por alguns dias, até se acostumar com a ideia. Mas pelo visto minha melhor amiga me culpava pelos erros do pai.

Como eu planejava tirar aquela criança não me importei com as pessoas no colégio. A barriga ainda não aparecia e antes que isso pudesse acontecer eu já teria achado algum remédio.

Em casa as coisas andavam mais desagradáveis ainda, apesar de minha mãe ter vindo pedir desculpas pelo tapa e do meu pai está constantemente tentando falar comigo eu me fechei em uma bolha, só comia quando eles não estavam e passava o dia fingindo estudar no meu quarto para não ter que dá de cara com eles.

Em uma tarde, quando já estava perto de completar três meses, depois de voltar da aula encontrei a casa vazia e vi ali minha chance. Eu não tinha mais tempo para adiar aquilo e precisava fazer logo, antes que não tivesse mais jeito.

Corri para o computador e pesquisei sobre remédios para aborto, encontrei algumas receitas caseiras e pílulas que prometiam o resultado instantâneo. Mas pensei melhor, e seria muito riscado fazer isso por conta própria, então resolvi mudar minha pesquisa para clínicas de aborto.

Abri na primeira que apareceu e fiquei animada, pois o designer todo rosa e a organização da página me passou segurança. Nem parecia que era algo ilegal. Os vários artigos prometendo tranquilidade e dizendo que eu tinha direito a escolher o que fazer com o meu corpo me fez sentir que estava no caminho certo. Àquela altura eu ainda não tinha aprendido que meus sentimentos sempre me traíam.

Antes que eu anotasse o número minha mãe entrou de uma vez no quarto. Tomei um susto e baixei a tampa do lap top de uma vez.

 – Filha?

– Oi.

– Tem uma pessoa querendo te vê lá na sala.

A expressão dela era de susto, mesmo tentando disfarçar eu vi que tinha alguma coisa errada. Levantei e a segui. Meu pai estava sentado em um canto do sofá, mas do outro lado tinha alguém que não reconheci de costas.

– Pai? – Ambos pararam de conversar e se voltaram para mim. – O que você está fazendo aqui? – Era o Ricardo.

– Priscila isso são modos? Ele é um policial.

– Tudo bem dona Sônia, como você está?

– Estava bem até esse momento.

– Filha, escuta o que ele tem a dizer.

– Se não for um sermão ou uma pregação estou ouvindo.

Ele respirou fundo e começou.

– O delegado mandou eu vim até aqui porque uma pessoa nos procurou dizendo ter coisas importantes para falar com você, mas que só faria isso sob proteção.

– Proteção?

– Nós não fazemos ideia do que seja, talvez não seja nada, mas diante de tudo o que aconteceu não podemos arriscar. Talvez o Miguel tenha alguém que continuou o trabalho por ele, não sabemos. Estamos investigando todas as agências e quem trabalhava com ele, mas ainda não acabamos as investigações, então tudo pode acontecer.

Aquela possibilidade começou a me aterrorizar.

– E quem quer me ver?

– Melhor nós irmos, seus pais vão te acompanhar.

Troquei de roupa rápido e saímos. Eu estava super curiosa para saber quem era e o que queria falar, mas também tinha medo do que iria ouvir. Eu ficava repetindo mentalmente que aquilo era tempestade em um copo d’água, que não tinha mais o que temer porque o Miguel só queria se vingar do Wilson e da Margarida, porém aquele mantra não estava me acalmando.

Chegamos à delegacia e ele nos levou direto para uma sala parecida com aquelas de interrogatório que vemos nos filmes. Só tinha uma mesa com quatro cadeiras – imaginei que 2 eram para a polícia e as outras para o acusado\vítima e o advogado. A cor escura deixava o ambiente mais mórbido ainda.

Tive vontade de sair correndo, mas me contive. A curiosidade era maior.

Meus pais entraram comigo e o Ricardo trouxe mais uma cadeira para o meu pai e depois saiu. Sentei entre meus pais e minha mãe segurou minha mão.

– Filha, vai dar tudo certo.

Eu assenti, estava nervosa demais para falar, mas fiquei grata por aquele gesto.

– Com licença. – Nós três nos viramos para vê quem entrava e quando vi quase cai da cadeira.

– Eu pensei que você tivesse morrido! – É claro que no fundo eu sabia que ele estava vivo, mas gostava de imaginar que não. Eu ainda não tinha esquecido das ameaças e da brutalidade da noite na festa.  

– Priscila, se você não quer conversar com ele é só dizer. Você não é obrigada. – O Ricardo advertiu.

– Eu preciso falar com você, garota.

– Priscila? – Chamou o Ricardo diante do meu silêncio.

Olhei de relance para meus pais e eles estavam sem entender nada, pior ainda eu. Minha cabeça rodava, eu não fazia ideia do que estava acontecendo ali, só sei que bem na minha frente tinha um fantasma, pelo era o que eu queria que fosse.

 Capítulo 35

“Envia a tua luz e a tua verdade; elas me guiarão e me levarão ao teu santo monte, lugar onde habitas.” (Salmos 43:3)

– Pode deixar.

– Quero falar com ela a sós.

– Você não pode. – O esforço que o Ricardo fazia para passar autoridade era visível.

– Então você fica e eles saem. – O Toddy não queria a presença dos meus pais.  

– De jeito nenhum que vou deixar minha filha com você.

– Pai, está tudo bem, qualquer coisa chamo vocês. –Torci para que ele acreditasse na minha mentira.

Mesmo relutante os dois saíram, deixando só nós três na sala.

– O que você quer?

– Consertar a besteira que fiz com o Fumaça?

– Assim, claro. Você diz o fato de ter enganado dizendo que eu a chance dele de fugir quando na verdade você estava ganhando dinheiro para me proteger.

– Eu sei que nem sempre fui um amigo pra ele, mas estou aqui para reparar o erro… – Disse fitando a mesa. Por alguns segundos achei que estivesse realmente envergonhado. – Não estava nos planos o Miguel encontrar vocês, me sinto culpado pelo o que aconteceu com o Fumaça.

– Por que você voltou? – Questionei sem muita paciência para ouvir mentiras.

– Não sei se ele te contou, mas fui eu que o encontrei uma noite e vi o quanto estava perdido. Ele era um menino novo, merecia uma chance de ser ajudado e eu fiz da única maneira que sabia. – Acrescentou. Assim como o Fumaça, o Toddy parecia ter necessidade de abrir sua alma para alguém.

– Levando ele pra uma vida miserável. – Não cedi.

Lançou um olhar discreto para o policial, que tinha a atenção total em nós dois e disse:

– Vi o quanto ele se sentia culpado por tudo o que fazia e essa culpa meio que recaia sobre mim. Então quando fiquei sabendo que o Miguel o tinha matado e você estava novamente em casa eu achei que tinha a obrigação de vim te avisar.

– Sobre o quê? – Perguntei confusa.

Ele se curvou sobre a mesa e começou a dizer em um tom mais baixo, porém alto o suficiente para todos ouvirmos.

– Tem uma menina lá dentro que é pra mim o mesmo que você se tornou para ele, – engoli em seco – e estou louco para tirá-la dessa. – Acrescentou. – Mas isso não é a questão, o importante é que ela descobriu tudo o que o Miguel queria fazer com você.

– Ele queria me vender sexualmente, nenhuma novidade.

– Estou dizendo que ela sabe quem queria te ferrar.

– Engano seu, ele só queria se vingar dos meus pais biológicos.

– Não.

– Como você pode ter tanta certeza?

– Minha garota ouviu uma conversa do Miguel com outra pessoa. Alguém que dava as ordens para ele te pegar e o que deveria fazer com você. – Parou por alguns segundos e ficou esperando que eu o incentivasse a continuar, mas não consegui. Estava apavorada. Eu não sabia o que iria ouvir e nem se queria. – Ela viu quem dava essas ordens. – Disse quase sussurrando.

Eu realmente não sei se queria tomar conhecimento daquilo, mas até quando ia agir como uma criança? Eu precisava enfrentar a realidade, já tinha passado por tanta coisa. Não podia ser pior, pelo menos foi o que pensei. Engano meu.

– Quem era? – As palavras quase não saíram.  

Ele respirou fundo e se mexeu na cadeira, era nítido que estava perturbado, olhava pra mim depois para o Ricardo e quando viu que eu não estava aguentado mais soltou as duas palavras que mudaram minha vida para sempre.

– Sua mãe.

– Minha tia? – Mais uma vez tive aquela experiência de estar assistindo a cena toda acontecer com alguém.

– Priscila, – chamou tão baixo que até o Ricardo se abaixou para ouvir, ao invés de mandá-lo aumentar o tom de voz, quanta postura para um policial – estou falando da sua mãe. Da Sônia.

– Olha eu agradeço muito sua tentativa de me ajudar, mas eu realmente tenho que ir. – Comecei a ficar irritada por ter ido até ali para nada.

– Você é teimosa demais, agora entendo porque o Fumaça reclamava tanto! – De repente o foco da minha irritação mudou. Senti-me traída. Como o Fumaça podia falar do nosso relacionamento – como se tivéssemos tido um – assim. Eu não era teimosa, tudo bem, no começo, talvez, mas depois passei a ouvi-lo.

– Eu só não sou idiota para ficar aqui perdendo meu tempo ouvindo besteira.

– Você acha mesmo que eu ia vim até aqui pra falar mentiras? Olha isso aqui.

Ele tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto de alguém que eu conhecia. A pessoa claramente tinha levado um tiro no meio da testa.

– Ei como você tem isso? Essa pessoa foi assassinada e isso é prova. – Alertou o Ricardo, se levantando da cadeira.

– Calma ai, cara. – Ele parecia falar com um parceiro e a cara do Ricardo era de muita raiva. – Depois eu te entrego.

– Eu posso te prender por desacato a autoridade. –  Ameaçou.

– O que aconteceu com o Ronald? – Perguntei antes que esquecessem completamente o rumo da conversa.

– O Miguel deu um jeito de apagar ele quando o Ronaldo veio até São Paulo contar onde vocês estavam. Na verdade, ele queria puxar o saco do Miguel, porque não precisava vim até aqui, então acho bem feito que tenha se ferrado. Ele é um sacana.

– Eu não me importo com ele, o Fumaça já tinha me alertado que ele podia fazer isso. Então se você não tem nada interessante para me dizer estou indo. – Fiz menção que ia se levantar e ele segurou meu braço.

– Espera, veja essa outra.

Ele deslizou a tela do celular com o dedo e a imagem que apareceu fez meu mundo desabar.

– Isso é montagem! – Bufei.

– Não Priscila, é ela. – Disse com um tom de voz triste.

– Seu miserável, como ousa? – Eu estava aos gritos.

– Você tem que me dá esse celular! – O Ricardo gritou mais alto do que eu. Finalmente percebeu que a situação estava saindo do controle.

– Eu ainda não acabei cara, ela tem que saber o resto.

– Não quero saber de nada! Por que você está fazendo isso?

– Sua mãe está segurando o revólver, não tá vendo?

Ele esfregou o telefone no meu rosto e eu bati tão forte que foi parar do outro lado da sala e a bateria do aparelho.

– Vocês dois precisam se controlar! – A ordem não me intimidou.

– Ela foi obrigada a fazer isso!

– Se ela foi mesmo forçada, porque não falou nada pra polícia quando te encontram?

– Ela ficou com medo!

– De que se o Miguel estava morto? 

Não pensei duas vezes, por cima da mesa mesmo fui cima dele, mas dois braços me seguraram.

– Sai daqui agora, garoto!

De repente o ar começou a me faltar e senti uma pontada na barriga.

– Aiii! – Gritei me curvando para aliviar as pontadas.

– O que foi, Priscila? – Senti que ia desmaiar.

– Minha… barriga… aí … – Eu disse com um pouco de dificuldade, já que mal conseguia encontrar o ar nos pulmões. As pontadas aumentaram.

– Me ajuda, Ricardo!

– Melhor chamar um médico. – O Toddy saiu correndo me deixando só com o Ricardo e torci que ele realmente fosse fazer isso.  

– Calma… – Passar as mãos nas minhas costas realmente não estava ajudando.

– Me ajuda. – Supliquei colocando a mão sobre minha barriga.

– Vou chamar seus pais.

– Não! – Por algum motivo não os queria ali.

– Priscila, eu não sei o que fazer. – Confessou com uma voz mais desesperada do que a minha.  

– Só faz passar, por favor, e não deixa nada acontecer com o bebê. Duas coisas não me passaram despercebidas, sua cara de espanto quando ouviu que eu estava grávida e a preocupação que senti na possibilidade de perder meu filho.

Algo estava muito errado, as pontadas em minha barriga eram fortes. Eu não conseguia nem me levantar tamanha a dor e aquilo aumentou mais ainda o meu pavor. Meu coração se fechava, era como se eu estivesse em um cubículo sem janelas, sem buracos, sem nada. A cada minuto que passava eu ia ficando sem oxigênio

De repente uma ideia se passou pela minha cabeça, será que eu estava perdendo o bebê? Já tinha visto cenas em novelas em que a mulher tinha um aborto espontâneo dessa maneira, sentindo uma dor muito forte na barriga e depois vinha sangue… muito sangue… Passei as mãos nas pernas e não senti nada, porém as pontadas vinham com mais frequência e agora eram também no pé da barriga. Só podia ser isso. Mas não era o que eu queria? Planejei até tomar remédio, então devia está feliz com a chance daquilo acontecer, pelo menos eu não seria mais culpada.

Entre um gemido e outro minha mãe entrou na sala. 

– Minha filha, está tudo bem? – Ela correu em minha direção e eu me afastei.

– Ela começou a passar mal de repente.

– Vai ficar tudo bem, seu pai está chamando uma ambulância.  

Sua voz só fazia tudo piorar, ela segurou minha mão para me ajudar com a dor, mas soltei. Segurei no braço do Ricardo que ainda estava sobre meu ombro e apertei. Cada vez que as pontadas vinham, parecia que iam me perfurar.

De repente me lembrei do Fumaça, não sei o porquê mais sua imagem sorrindo veio nítida na minha cabeça, aquilo de alguma forma conseguiu aliviar a tontura.

Fumaça… –  Murmurei para mim mesma.

Então esse seria o fim? A única coisa que me restava dele iria embora… Meu filho… Nosso filho. Apertei a barriga com mais força e a imagem dele começou a desaparecer.

– Não… Por favor… Não…

– Meu Deus, ajuda… – Ouvi o Ricardo sussurrando atrás de mim.

Minha mãe me entregou um copo com água e com as mãos tremendo consegui beber. Aquilo clareou um pouco minha mente e tive noção do que aconteceria se eu perdesse o bebê. Não teria mais nada me ligando ao Fumaça. Um medo desesperador tomou conta de mim.

Eu já estava com quase três meses, o feto já estava se formando, já era ligado a mim, era uma vida que eu ia tirar. Desejei matar meu próprio filho e aquilo estava acontecendo sem nenhum esforço da minha parte. Então fiz a única coisa que estava ao meu alcance para tentar salvá-lo.

“Deus, por favor, peço que me ouças. Sei que não mereço e que talvez minha voz seja a última que o Senhor quer ouvir, mas, por favor, salva meu filho. Assim como me salvou tantas vezes sem que eu nem pedisse. Assim como cuidou de mim desde  pequena, faz isso com esse bebê, por favor. Eu faço o que o Senhor quiser, mas não me tire essa criança, ela não tem culpa dos meus atos e foi a única coisa que me restou no Fumaça. Sei que desejei matá-lo, mas não posso fazer isso, não sou capaz, é meu filho. Também sei que não faço ideia do que é ser mãe, mas quero ao menos tentar descobrir. Através desse filho me dá mais uma chance de fazer as coisas certas, por favor.”

Eu havia dito palavras que jamais pensei em falar, me dirigi ao Deus que tanto odiei. Supliquei pela vida do meu filho, pedi uma segunda chance de acertar, de fazer escolhas novas, se não por mim, por aquela criança.

Em questão de segundos a dor passou, até porque desmaiei.

Capítulo 36

“Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, vestido a couraça da justiça.” (Efésios 6:14)

Abri meus olhos com muita dificuldade e me perguntei se havia morrido, mas comprovei que não quando escutei um barulho de bipe bem irritante. Já que não tinha morrido, meu desejo era ficar de olhos fechados para sempre, e por isso parei de tentar abri-los.

Daquele jeito estava bom. Sem dor, sem angústia, sem tonteira, sem medo…

– Priscila? – Oh não, de quem era aquela voz? Ignorei, na tentativa de que a dona dela desaparecesse.  – Priscila?

– Ela acordou? – Outra voz. Será que ninguém percebia que meu desejo era ficar dormindo.

– Sim, quer dizer, ela meio que abriu os olhos, mas agora eu estou chamando e nada.

– Os batimentos cardíacos estão normais, logo ela resolver voltar.

– Espero que seja logo, seu Antônio está precisando dela.

Meu pai? O que tinha acontecido? Só então me dei conta que podia ter passado dias ‘fora do ar’, então resolvi fazer um esforço.

– Graças a Deus! – Alguém esbravejou.

Tentei colocar a mão direita na barriga, mas ela estava presa a alguma coisa, então tentei a esquerda. Tudo parecia normal com o bebê, pelo menos por fora, e aquilo me fez sentir um alívio até então desconhecido.

– Onde eu estou?

– Em um hospital querida, – disse uma mulher que estava toda vestida de branco – sou a enfermeira Lúcia, e pode ficar tranquila que você está bem.

– Pelo menos agora está. – A enfermeira olhou para ele com um ar de repreensão, já eu, dei um sorriso fraco, até ali ele falava besteira. – Desculpe. – Acrescentou constrangido.

– Há quanto tempo estou aqui?

– Você veio para cá ontem.

Só então relembrei tudo o que tinha acontecido. O Toddy acusando minha mãe, minha raiva, a dor, o pedido de ajuda e por fim, a escuridão.

Tentei me levantar, mas não consegui, todo o meu corpo doeu.

– Calma, querida, eu te ajudo. – Ela mexeu em algum botão que fez a cama subir, fiquei mais confortável.

– O que aconteceu? Como está meu filho?

Os dois se entreolharam e o clima ficou meio tenso.

– O bebê está bem, não se preocupe. – Por algum motivo àquelas palavras não me convenceram.

– Eu passei um dia todo dormindo e vocês querem me convencer que não aconteceu nada?

– Priscila você não ficou só dormindo. Em alguns momentos abria os olhos e pedia para salvarmos o bebê. – Disse a enfermeira.

– Salvar por quê? – Instintivamente levei a mão à barriga.

– Depois que você desmaiou começou a sangrar muito… – assim que falou se deu conta que deveria ficar calado – foi mal…

– Pelo visto ficar calado não é sua praia. – Lúcia o repreendeu.

– Eu tenho o direito de saber! – Explodi.

– Você quase teve um aborto espontâneo, mas conseguimos salvar o bebê. – Meu coração acelerou. – Perdemos você em alguns momentos durante a noite, mas deu tudo certo. Sua gravidez exige repouso, Priscila, e nada de emoções forte. – Alertou.

– Quem veio comigo?

– Seu pai chamou a ambulância, mas eu trouxe você. – Admitiu o Ricardo um pouco envergonhado.

– Por quê? 

– O Toddy começou a causar desconforto lá na delegacia e seus pais precisaram resolver.

Eu não podia acreditar que ele continuara acusando minha mãe e fiz uma promessa de matar aquele garoto quando saísse dali.

– Ninguém ficou comigo? – Desejei profundamente que ele respondesse que minha mãe tinha passado a noite toda ali do meu lado.

– Seu Antônio veio ontem à noite e ficou até de madrugada, mas como precisou sair pediu para ele ficar de olho em você. – Disse a enfermeira com desdém, estava claro que ela não acreditava na capacidade de proteção do Ricardo. 

Eu realmente não estava entendendo nada e quando ia começar a pedir mais explicações, meu pai irrompeu quarto adentro.

– Priscila, graças a Deus!

Os dois se afastaram para que ele se aproximasse, abri os braços desajeitadamente e recebi um abraço apertado e forte.

– Desse jeito, você que vai me matar. – Dei risada e me soltei, grata por tê-lo ali.

– Pensei que ia te perder. – Quando ele me olhou, não pude deixar de notar seus olhos vermelhos e inchados. Meu pai tinha chorado, e muito. Senti um aperto no peito, eu nunca o vi daquele jeito, nem quando me encontraram.

– Pai, estou bem, cadê a mãe? – Ele se virou e olhou para as outras duas pessoas presentes, naquele instante eu soube que o pensamento que eu ignorava desde que acordei era verdade. – Cadê minha mãe? – Quase gritei.

– Filha… – Começou como se fosse falar que ela morrera, mas ao invés disso não disse mais nada, apenas sentou do meu lado e ficou olhando para o chão.

– Pai, fala!

– A Sônia está presa.

– O que? Pai, aquele garoto estava mentido! O senhor não pode acreditar nele! – A histeria dominava minha voz.

– Você tem que se acalmar. – A Lúcia interveio.

– Alguém traz minha mãe aqui!

Meu pai colocou o rosto entre as mãos e notei que chorava.

– Priscila, infelizmente o Toddy falou a verdade. – Disse o Ricardo com a voz pesada.

– Não, Ricardo, você viu que aquilo era montagem! Pai, faz alguma coisa!

– Filha, verificaram a foto, não era montagem.

– Não… Não… Não…

Eu não podia acreditar naquilo. Todos ali estavam mentindo. Não havia motivos para aquilo ser verdade. Sacudi meu pai pelo ombro exigindo alguma resposta, mas ele não falou nada.

– Oh minha filha… – Se virou e eu vi seu rosto em prantos. Naquele momento tive certeza que o mundo nunca mais seria o mesmo pra mim, então ele me abraçou e choramos juntos.

Capítulo 37

“Os pecados de alguns homens são notórios e levam a juízo, ao passo que os de outros só mais tarde se manifestam.” (1 Timóteo 5:24)

Pela segunda vez na minha vida chorei pelo o que pareceram horas – mas que pode não ter passado de minutos.

– O que aconteceu depois que sai?

– Tem certeza que você quer saber? – Questionou meu pai.

– Sim. – Respondi com uma falsa segurança.

– Seu Antônio, vamos está aqui fora se precisar.

– Não, podem ficar! – Ele parecia ter medo de ficar a sós comigo. – Ela pode precisar da senhora. – Desconfiei que ele era quem poderia precisar de cuidados médicos.

– Pai, fala.

– Sua mãe já não estava bem há um tempo, – começou – eu que vinha ignorando, achando que era coisa da minha cabeça…

– Não estava bem como? – Interrompi, nervosa.

– Priscila, antes de tudo eu preciso te contar uma coisa.

Como eu já sabia sobre a adoção, soube na hora que se tratava de algo mais sério do que isso. Eu não conseguia imaginar o que poderia ser.

– Sua mãe e eu… – nitidamente ele avaliava as palavras – tivemos uma filha antes de você nascer… – Não posso dizer que fiquei chocada com aquela revelação. A verdade é que eu já tinha descoberto tantas coisas nos últimos tempos que aquele segredo não me pareceu tão perturbador.

– E cadê ela, pai? – Perguntei mais por falta do que dizer do que por interesse na questão.

– Ela está morta… – Meu pai não me encarava. Seus olhos pareciam perdidos em algum ponto da parede à nossa frente, e devo dizer que naquele instante senti o mesmo clima pesado que estava na minha mãe no dia em que eu disse que ia tirar o bebê. – Sua mãe a matou acidentalmente.

Eu não tinha palavras. Eu não conseguia raciocinar, então minha mente não absorveu as palavras. Por alguns segundos achei que tinha entendido errado.

– Não entendi, pai. – Falei gentilmente e ele pareceu mergulhar em passado do qual eu não fazia parte, muito menos tinha a mínima ideia de que existia.

– Ela tinha 10 dias quando aconteceu. – Seu tom de voz estava passado e eu podia sentir que sua alma e seu coração também. – Eu cheguei em casa do trabalho e sua mãe estava dormindo em cima dela. Minha reação foi correr e acordá-la, mas já era tarde. A bebê já estava sem respirar.

“Parecia que eu estava em um sonho. Me senti completamente impotente e desnorteado, mas nem posso me comparar a sua mãe. Ela estava em estado de choque. Com a criança em suas braços ela não conseguia se mexer, ficava sussurrando que tudo ia ficar bem e que a neném só dormia.

Duas horas depois ainda não tínhamos saído do quarto. Eu, literalmente, não sabia o que fazer e quando já estava quase ligando para polícia sua mãe despertou do estado de dormência.”

Em alguns momentos ele parava para pensar, como se estivesse resgatando detalhe por detalhe daquela história, e logo depois continuava.

“A Sônia disse que íamos enterrar a criança e que adotaríamos outra da mesma idade. Como ela tinha apenas dias, ninguém perceberia a mudança. Os bebês mudam muito. – Acrescentou como se aquilo fosse um detalhe muito importante. – E assim nós fizemos.”

– Pai, porque vocês pediram ajuda?

– Não conseguimos, filha. Fomos covardes. Sua mãe chorou por várias noites dizendo que todos a condenariam por isso, que ninguém entenderia que ela estava a várias noites sem dormir amamentando. Claro que não justifica, mas eu estava muito abalado e acatei a sugestão dela.

– Como ela era o nome da criança? – Acredite, com tanta coisa importante naquela história, foi a esse detalhe que me apaguei.

– Isabella.

Eu não tinha mais nada para falar. Tudo o que queria era que meu pai saísse dali. Tinha me enganado quando pensei que não poderia ter nada pior do que a adoção.

– Você deve está se perguntando como o Wilson entra nessa história… – Errado. Confesso que nem tinha pensado nisso, mas deixei que ele continuasse. – Eu não aguentei guardar o segredo só comigo por mais de dois dias, eu não dormia, não comia, nem mesmo trabalhar eu conseguia, então liguei desesperado para o Wilson e contei tudo.

– E como ele queria se livrar do problema dele, juntou o útil ao agradável. – Conclui.

– Minha filha, você não era um problema… – Ele não falou com convicção suficiente.

– Não? Eu tampei o buraco da filha que vocês mataram!

Meu pai não disse nada, apenas abaixou a cabeça e se levantou.

– Pai, desculpa. – Precisei repetir que a culpa não era dele, que foi minha mãe que matou a primeira filha e queria destruir a segunda. – Por favor, me diz o que aconteceu com a mãe.

Mesmo não sentando mais, ele continuou.

– Antes de você desaparecer a encontrei diversas vezes chorando sozinha no quarto com todas as fotos de sua gravidez em cima da cama.  Claro que eu entendia sua dor, eu também tinha perdido uma filha, e ainda carregava a culpa comigo. Confesso que o fato da sua chegada ter amenizado a angústia que eu sentia, aumentou a culpa. Mas sua mãe aparentemente nunca sofreu com a perda. Era como se ela vivesse em um constante estado de negação. Ás vezes acho que ela realmente acreditava que você era a nossa primeira filha.

“Por vezes já quis contar para alguém, mas a coragem sempre faltava. Mesmo depois que conheci a Deus, eu não consegui me libertar do passado.”

– É o famoso versículo “Conhecereis a verdade e ela voz libertará…” – Lembrei.

– Sim. Talvez se tivesse optado pela verdade, são não fizesse o que fez.

– Pai, como ela conhecia o Miguel?

– Nos conhecemos na faculdade, mas eu não fazia ideia de que a Sônia ainda tinha contato com ele. Eu sempre o detestei, e nunca tive nenhum contato próximo, mas sua mãe tinha por causa da Margarida.

– Ela traia você com ele? – Pensei alto demais e meu pai tentou disfarçar o quanto aquela possibilidade o abalou.

– Sim. Na verdade, uma vez, ainda na faculdade, eu peguei os dois se beijando. Quis terminar tudo, mas a Sônia implorou perdão. Hoje eu sei que talvez ela só quisesse evitar que eu contasse tudo para a Margarida. – A dor em sua rosto era evidente, mas mesmo assim optei pelo silencia. Eu tinha esse direito. – Segundo o médico, a Sônia sofre de esquizofrenia. – Acrescentou, desesperado para mudar o foco da conversa. –Na mente dela você ainda era a Isabella e nos momentos em que ela percebia que isso não era verdade e que ela tinha matado a própria filha era consumida pela culpa, porém desviou isso para você.

– Por isso ela quis me vender. – Deduzi.

Meu pai tremia e seus olhos se encheram de lágrimas novamente. Eu não disse nada, doía ouvir aquilo. Machucava.

– Ela nunca me amou…

Ele abriu a boca para dizer alguma coisa – provavelmente discordar –, mas desistiu.

– Minha filha, sua mãe precisa de ajuda, ela está doente. Quer dizer, sempre esteve, que eu nunca percebi.

– Pai, você não tem culpa.

– Infelizmente, tenho. É claro que não sou criança, sei que sua mãe teve a chance de pedir ajuda. Deus é injusto, ela tinha momentos de lucidez em deveria ter gritado por socorro, mas não fez. Só que se eu tivesse sido mais sensível teria percebido isso. Ninguém mata a própria filha e consegue guardar esse segredo sem que aja consequências.

– Onde vocês enterraram a criança? – A curiosidade surgiu de repente.  

– No cemitério do outro lado da cidade. Fizemos um funeral para ela. Apenas nós dois, claro. A família pensava que estávamos viajando, aproveitando a novidade de ter um filho, e só voltamos dessa “viagem” quando estávamos com você.

– E agora, o que vai acontecer com ela?

– Sua mãe está sendo examinada e dependendo dos resultados dos exames ela irá para um hospital psiquiátrico.

– Ela assumiu tudo?

– Sim, no interrogatório, hoje à tarde.  

– E com você, pai?

Ele entendeu a pergunta.

– Provavelmente serei preso, minha filha. – Respondeu cabisbaixo.

Sem que eu percebesse tinha começado a chorar.

– Priscila, você tem que se acalmar. – A enfermeira interveio. – Seu Antônio é melhor o senhor esperar lá fora.

– Eu não vou deixar minha filha sozinha.

– Ela vai ficar bem, vou levar o senhor pra comer alguma coisa. – Eu nem lembrava mais da presença do Ricardo e da Lúcia.

– Eu não vou a lugar nenhum, vou ficar com ela e ponto.

– Ela não vai se acalmar com o senhor aqui.

Vê-los discutindo sobre mim, como se eu não estivesse ali, me irritou mais ainda.

– Eu quero que todos saiam!

– Priscila, tenho que te dá um remédio…

– Não vou tomar nada, quero ficar sozinha.

– Filha…

– Pai, eu vou ficar bem.

Ele chegou mais perto de mim, segurou minha mão e disse:

– Eu amo você e não vou te abandonar. – Aquilo trouxe um alivio, mas não diminui a mágoa.

– Eu sei, mas, por favor, me deixa sozinha.

Ele relutou, mas deve ter imaginado que eu precisava de tempo para processar tudo.

– Se precisar de alguma coisa estou aqui fora.

– Eu vou ficar. – Declarou a enfermeira. Odiei ela. Não sei se queria cuidar de mim ou apenas não perder nenhum detalhe da vida nada normal da paciente.

– Não, já disse, estou bem.

– O que você faria se descobrisse que sua própria mãe queria te jogar em um prostíbulo? – Todos olharam assustados na direção daquelas palavras. – Iria querer ficar ouvindo dos outros que você não tinha culpa de nada e receber pena?

Ele falava na hora errada e dizia as coisas sem pensar, mas naquele momento ele não podia ter acertado mais.

– Tudo bem, se precisar é só chamar. – Respondeu contrariada. 

Até meu pai pareceu entender que o certo era me deixar sozinha, então dei um meio sorriso agradecido e o Ricardo retribui com um leve aceno.

– Pai! – Chamei quando ele já estava na porta.

– Oi, filha. – Parou e se voltou pra mim.

– Você culpa Deus por tudo isso?

Ele pareceu surpreso com a pergunta, mas não demonstrou dificuldade em responder.

– Não. Nós fizemos a escolha errada. Nós só colhemos o que plantamos. Se tivéssemos pedido ajuda teríamos evitado muitas coisas. E Deus nos alertou por diversas vezes através da Sua palavra, mas nós preferimos manter o segredo. Fomos orgulhosos demais para pedir ajuda, sua mãe mais do que eu. Mas, minha filha, Ele é misericordioso e sabe o quanto estou arrependido e que se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Então eu prometo para você que não estaremos sozinhos enfrentando essa barra. Um dia tudo isso vai passar.

Ele acabou, virou as costas e me deixou sozinha refletindo em tudo o que tinha dito.

Olhei para dentro de mim e procurei o que eu mesma pensava sobre aquilo. Me perguntei se eu culpava Deus e surpreendentemente descobri que não. Lembrei que o Fumaça tinha dito que eu podia ficar me lamentando por ter sido abandonada ou agradecer por ter sido acolhida.

Hoje eu sei que só fui aceita por uma pessoa, mas eu continuava tendo as mesmas opções: lamentar por minha mãe ou agradecer por meu pai. E mesmo com toda a dor que sentia, mesmo a mágoa crescendo sempre que eu repassava tudo em minha cabeça e me fazendo sentir-me uma pessoa muito ruim, já que fui abandonada por duas mães e um pai, eu gritei por socorro.

Eu não queria cometer o mesmo erro de não pedir ajuda e muito menos queria ter o fim da minha mãe – é claro que não a culpo por ter matado a Isabella, mas a culpo por ter escondido o fato. Talvez se não tivesse guardado o segredo pudesse ter amenizado a culpa com uma nova filha. Eu sei que não seria fácil, as pessoas com certeza a condenariam, mas também teria as que entenderiam. Ela tinha tido o apoio da família e dos amigos. Afinal de contas ninguém planeja dormir em cima da própria filha.

Eu não tinha saída, precisava pedir ajuda Aquele que eu ouvira que sempre estaria do meu lado, mesmo quando eu não estivesse do Dele.

“Se o Senhor puder, por favor, diminua essa dor. Eu não sei se suportarei, mas se não preciso mesmo passar por tudo isso sozinha, me ajuda, fica do meu lado, porque ninguém mais sabe o que se passa dentro de mim.”

Foi algo breve, e até ousado da minha parte, pois há tempos eu não via Deus daquela maneira, como o único que poderia me ajudar, e aquilo trouxe uma calma imediata. Não diminuiu a dor, mas com certeza senti uma tranquilidade, como se finalmente eu tivesse colocado tudo pra fora. Falar com Ele foi como tirar um peso, achei engraçado já que eu desejava isso toda vez que chorava, mas nunca conseguia ficar aliviada.

Por mais incrível que pareça eu dormi e não tive pesadelos. 

Capítulo 38

“Este é o meu consolo no meu sofrimento: A tua promessa dá-me vida.” (Salmos 119:50)

Passei mais dois dias no hospital, meu pai não saiu do meu lado por mais que eu o mandasse descansar. Durante esse tempo o bebê mexeu pela primeira vez e aquilo me deu um ânimo. Foi maravilhoso senti-lo, era como se fosse uma extensão do Fumaça e o melhor era ter a sensação de que nunca mais eu estaria sozinha.

Pra minha surpresa a Clara foi me visitar. No começo eu não sabia como agir, e notei que nem ela, pois começou perguntando como eu estava e disse que sentia muito, mas quando viu que não podíamos mais adiar o inevitável tocou no assunto.

Disse que demorou a entender que eu tinha sido tão enganada quanto ela e que não me culparia mais por nada. Pediu desculpas por ter sido tão egoísta e me contou do piti que sua mãe deu quando soube de tudo, mas que logo amoleceu o coração quando tomou conhecimento do ocorrido com minha mãe.

Parte de mim ficou feliz em saber que o Wilson tinha contado tudo, mas a outra parte me alertava que isso só tinha acontecido por ele ter se sentindo acuado. Afastei o pensamento e me concentrei na minha amiga, ou melhor, minha irmã.

Ela confessou como tinha sido descobrir e que se sentiu traída, mas que naquele momento estava feliz em saber que ao menos a traição de seu pai resultara em mim. Ambas rimos e percebemos estava tudo bem entre a gente, o que foi algo importante, já que a Clara sempre foi minha melhor amiga e eu não queria perder mais ninguém.

– Hoje você sai daqui, bela adormecida.

– E você se vê livre de mim.

A Lúcia deu um sorriso murcho e me entregou um copo de água. – Pelo visto a novela não tinha mais o drama que ela julgava necessário.

– Deixe esse bebê longe de confusão.

– Pra isso ele teria que ter outra mãe. – Era pra ser uma brincadeira, mas saiu em um tom seco.

– Você vai ser uma ótima mãe. – Meu pai entrou.

“Só se eu não puxar as duas que eu tenho”, pensei.

– O senhor ligou pro Ricardo? – Eu disse para mudar de assunto.

– Sim, ele está vindo – pedi que meu pai ligasse pra ele para que eu pudesse agradecer por tudo, – enquanto isso você vai ajeitando suas coisas — ordenou.

Eu só tinha alguns pertences básicos, mas resolvi fingir que guardava só pro tempo passar.

– A porta estava meio aberta, por isso já fui entrando.

– Sem problemas. – Eu disse sentando na ponta da cama.

– Como você está?

– Sei lá… – Respondi com sinceridade. – Tenho tentado não pensar muito para não doer.

– Mas não é melhor sentir de uma vez do que achar que ela vai está em casa quando você chegar?

– Eu não acho. Se teve uma coisa que eu aprendi nessas últimas semanas é que nunca nos acostumamos com a dor.

– Acostumar não, mas aprender a lidar com ela é possível. – Ele disse sentando ao meu lado.

– Eu não sei como fazer isso, – desabafei olhando pro chão – não faço ideia de como vai ser quando chegar a hora do jantar e não ter mais ela pra reclamar porque não como verduras. – Dei um sorriso me lembrando das inúmeras vezes que isso aconteceu. – Não sei como vai ser ir pra escola e não ter ela preparando meu café e pior ainda, não sei como vou viver sabendo que tudo não passou de uma farsa, que ela nunca me amou. – Minha intenção não era falar aquelas coisas, mais quando vi já tinha saído. –Está aqui no hospital faz tudo parecer um sonho ruim, eu fico achando que quando passar por aquela porta ela vai está me esperando e dizer que tudo foi um pesadelo. Sair daqui me assusta mais do que eu quero admitir, porque voltar pra casa significa confirmar que tudo é real.

Ele colocou a mão sobre meu ombro disse:

– Vai dar tudo certo.  – Olhei pra ele confusa. – Que foi?

– Quando eu quero que você fale a única coisa que sai são quatro palavrinhas clichês?

Ele fez cara de ofendido.

– Você não me deixou terminar. Vai dar tudo certo porque eu sei que você parou de brigar com Deus.

– Como você sabe disso?

– Dá pra ver, principalmente pela maneira como você está lidando com tudo. Tem se esforçado para ficar calma, mesmo que dentro de você esteja um turbilhão de sentimentos.

– Eu não parei de brigar com Ele, – falei baixo como se fosse contar um segredo – eu só pedi para que me ajudasse a lutar.

– Tenho certeza que é uma opção melhor do que lutar contra Ele.

Dei um sorriso sincero, aquele policial maluco conseguiu me ajudar desde que nos conhecemos. Ele realmente tinha se tornado um amigo.

– Obrigada.

– Por não ter te levado pra delegacia naquele dia? – Seu tom era de riso. – Nós dois sabemos que se eu tivesse feito isso teríamos evitado muitas coisas.  

– Eu teria dado um jeito de fugir, e o obrigada é por tudo, inclusive por está aqui até agora.

– Relaxa, se não fosse eu seria outro. Só que ninguém estava a fim de garantir que o traficante fosse fazer alguma coisa com a adolescente marrenta.

– Então jogaram pra você?

– Isso mesmo.

Eu dei risada e ele me acompanhou.

– Cadê o Toddy?

– Foi liberado. Era esse o acordo. Ele entregava sua mãe e era perdoado.

– Bom pra ele… – Eu não fui tão sincera naquelas palavras. Achava um pouco injusto o Toddy está livre tendo a chance de fazer o que desejasse enquanto o Fumaça já tinha perdido a sua.

– Eu acho que dessa vez ele vai mudar de vida. Me pareceu sincero quando disse que queria uma oportunidade.

Eu não disse nada, estava pasma com a facilidade que ele tinha para confiar nos outros. O Toddy era do mesmo tipo do Fumaça, eles se arrependiam, mas dificilmente acreditavam na possibilidade de mudar. Com certeza aquilo tinha sido uma jogada e me perguntei como o Ricardo conseguiu ser policial com tanta ingenuidade.  

– Eu preciso ir. – Ele disse, e na hora senti um aperto no peito.

– Meu pai já deve está louco. – Falei para disfarçar.

Levantei da cama fui caminhando em direção à porta, ele fez o mesmo, mas antes de abrir me falou uma última coisa.

– Priscila, eu não sou capaz de imaginar o quanto vai ser ruim pra você, mas pode ter certeza que Deus sempre estará do seu lado. O único problema é que Ele não é mal-educado, não grita, respeita nossas vontades e não se mete em nossa vida quando não pedimos. Por isso quando você achar que não vai aguentar, fale com Ele, mesmo que não abra literalmente sua boca, chame-O no coração, tenho certeza que Ele vai te responder.

Aquilo trouxe um conforto inexplicável, por alguns segundos aliviou o medo e o nervosismo que eu estava tentando evitar. Não tive outra reação senão abraçá-lo e mesmo surpreso com o gesto retribuiu.

– Obrigada, vou me lembrar disso.

– Vê se lembra de deixar de ser marrenta. – Brincou.

– E você vê se deixa de acreditar demais nas pessoas.

– Até em você? – A pergunta veio acompanhada de um meio sorriso.

– Talvez. Você mesmo disse que…

– Teria evitado muitas coisas se… blá blá blá…

Não estávamos mais nos abraçando, mas percebi que ainda estávamos muito próximos. Tão próximos que percebi seus olhos vacilarem e ele se afastar um pouco quando eu disse que confiaria minha vida a ele depois de tudo o que tinha feito por mim. Para minha surpresa não tomei aquela reação como uma ofensa. Eu já tinha me acostumado com esse jeito meio maluco dele.

– Eu nunca achei que ficaria amiga de um policial, principalmente do que queria me prender.

– Tá vendo, não sou só eu que confio nas pessoas erradas. – Brincou e eu sorri.

Um sorriso leve e tranquilo, como há muito tempo eu não dava.

O celular dele tocou, e em um pulo nos afastamos.

– Tá na minha hora.

Eu não disse mais nada, não consegui. Um bolo na minha garganta se formava, então apenas assenti e o vi sair.

Aquela foi a última vez que nos falamos.

 Capítulo 39

Seis meses depois

“Qual dentre vós é o pai que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? {…} Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lucas 11:11)

Mesmo com tudo o que tinha acontecido, meu pai me obrigou a voltar minha rotina normal. Uma semana depois de sair do hospital ele me fez ir à escola, pro curso de inglês, e claro, fazer o pré-natal. A tentativa dele de não me deixar à toa funcionou, pois eu chegava tão cansada que só tinha forças para dormi ou vomitar.

Eu já estava no oitavo mês de gravidez e ainda não tinha conseguido descobrir o sexo do bebê, aquilo estava me deixando maluca de tanta ansiedade. Não tinha pensado em muitos nomes e os poucos que cogitei não me agradavam.

A Clara estava me ajudando a comprar tudo, e confesso que de vez em quando ela me irritava, pois não parava de falar que eu deveria perdoar seu pai, ou melhor, nosso pai. Ela alegava que ele não tinha me procurado ainda por medo da minha reação, mas aquilo não me comovia. Eu não queria que ele se sentisse obrigado a criar nenhum tipo de laço comigo, eu já tinha um pai e não estava à procura de outro.

A única coisa que eu procurava era uma mãe, pois eu estava prestes a ser uma e não fazia ideia de como fazer certo, levando em conta que eu não tive bons exemplos. Minha tia sempre dizia que ser mãe de verdade era pensar sempre no bem-estar do filho antes do seu, mas desconfio que ela falava isso só para se justificar e me fazer perdoá-la.

Por falar nisso, aceitei o fato de ela ter tomado uma decisão errada e se arrependido, mas não a tinha aceitado como mãe. Ela continuava sendo minha tia. Quando ia lá em casa eu a tratava bem e  até conversava sobre alguns assuntos aleatórios ou então como o meu estava se sentindo. Ela respeitava e não fazia outras investidas, o que facilitou as coisas entre a gente.

Já minha mãe estava impossível. Ela foi internada em um hospital psiquiátrico e eu não havia ido visitá-la nenhuma vez, porque eu sabia que se fizesse isso, todos os pensamentos que eu lutava o dia todo para evitar iam vim à tona e eu iria desmoronar, todos os pesadelos que eu tinha iriam sair do meu sono e passariam para o meu dia a dia.

Meu pai que sempre ia e admito que não entendia o porquê ele se sujeitava aquilo. Voltava triste pelo estado que a encontrava, principalmente quando ela não o recebia.

 Uma noite depois de acordar de mais um pesadelo em que minha mãe corria atrás de mim com uma faca e gritava que iria acabar comigo, pois a culpa pela morte da Isabella era minha, acordei ofegante e com falta de ar – sempre acontecia isso, mas daquele vez estava pior.

– Pai! Pai, me ajuda! – A dor veio de repente e alucinante.

– Priscila o que foi?

Com a voz ainda meio grogue de sono meu pai chegou correndo ao meu quarto.

– Ai, pai, tá doendo!

– Calma, filha, onde está doendo?

– Minha barriga! Meu bebê! Tá acontecendo alguma coisa.

Desde que sai do hospital a gravidez estava tranquila, não havia sentido mais dor, nem enjoou, inclusive me alimentava bem. Porém naquela noite, do nada, eu senti umas pontadas fortes.

– Vou te levar pro hospital.

– Pai, o que é isso? O que tá acontecendo? – Eu não conseguia nem me levantar da cama.

– Eu não sei, filha. – Admitiu com a voz desesperada.  

Quando comecei a sangrar meu desespero aumentou.

– Pai, me ajuda! – Fiquei tonta e não conseguia mais nem respirar.

– Calma, Priscila, vai dá tudo certo.

Ele me pegou pelo braço, mas ao invés disso me confortar foi pior, a nova posição aumentou as dores. Eu estava começando a vê tudo preto. No elevador eu pedia desesperadamente ajuda, sentia o sangue jorrando entre minhas pernas, e alguma coisa me dizia que algo muito ruim estava prestes a acontecer.

– Pai… – Eu disse quando ele me colocou no banco de trás do carro, já não conseguia vê muita coisa e estava sem forças até para gritar.  

– Filha, não se esforça. Fica quieta, por favor.

– Salva o bebê, por favor.

– Priscila presta atenção: eu não vou perder você, não agora depois de tanta coisa.

A voz dele parecia longe, mas consegui identificar certa firmeza.

– Você tem que salvar meu filho. – Supliquei.

– Vou salvar vocês dois, só preciso que você faça uma coisa.

– O quê?

– Deixa Deus cuidar de você, deixa Ele cuidar dessa criança, Ele vai fazer o melhor pra vocês minha filha…

Eu tinha escolha? Então em meio à dor e ao medo chamei por Ele com todas as forças que ainda me restavam.

“Eu preciso que o Senhor me ajude. Não deixe o bebê morrer, por favor, ele não tem culpa de nada… Eu entrego minha vida em Tuas mãos…”

E aquelas foram as últimas palavras que se passaram em minha mente.

Capítulo 40

“Acaso, pode uma mulher esquecer-se do seu filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” (Isaías 49:15)

– Priscila… – A voz vinha de longe. – Priscila… – Chamou mais uma vez. A mínima parte do meu cérebro que estava consciente dizia que de alguma maneira eu devia reagir aquele chamado. Algo me dizia que aquele era o meu nome.  

– Como ela está, doutor? – Outra voz, essa era familiar, mas eu ainda não conseguia identificar de quem. Era como se grande parte do meu cérebro estivesse adormecida.  

– Ela está reagindo, mas precisa ser um pouco mais forte pra voltar totalmente.

– E a neném doutor, quando vai receber alta?  – Apesar de ainda não ter identificado quem falava e tudo está uma escuridão total, ouvir aquela pergunta fez metade da minha consciência despertar.  

Será que era o meu bebê? Então era uma menina, mas o que será que tinha acontecido? Porque será que ela ainda não recebera alta? A pequena parte de mim que estava lúcida me fez entender que eu precisava lutar, precisava ao menos tentar abrir os olhos e saber como minha filha estava. E enquanto lutava contra cada parte do meu corpo que não queria sair daquela escuridão, ouvi a resposta.

– Ela está rejeitando o leite que estamos dando e ainda respira por aparelhos, se a Priscila não acordar logo, receio dizer que a criança ficará um bom tempo aqui no hospital.

A voz falou com um tom de preocupação, eu realmente precisava fazer alguma coisa, pelo visto minha filha não estava nada bem. Talvez ela estivesse precisando de mim.

Então tentei sair da escuridão e, apesar da dificuldade, senti minhas pálpebras se mexerem.

– Priscila! – Minha cabeça doeu.  

– Ela está acordando, seu Antônio!

Saber que era meu pai me deu mais forças, obriguei minha mente a lembrar de que ele não desistiu de mim em nenhum momento, e eu tinha que fazer o mesmo pela minha filha. Tentei novamente abrir os olhos, mas em vão, era um esforço grande demais, assim como mexer qualquer outra parte do corpo.

– Priscila, acorda, por favor. Sua filha precisa de você, ela é uma menininha linda.

Meu pai como sempre dizendo a coisa certa. Minha vontade era de gritar, ele precisava saber que eu estava lutando.

– Não escolhi um nome ainda, estou esperando você, mas ti digo logo que ela tem cara de Yasmim. 

Ouvi meu pai falar sobre a bebê estava sendo doloroso, quanto mais ele falava mais eu tinha necessidade de vê-la, de segurá-la nos meus braços e ver com quem ela se parecia. Vê se ela tinha o mesmo jeito triste de olhar do pai, que enchia meu coração e me dava vontade de acalentá-lo. 

– Filha, – meu pai segurou minha mão, o que causou um choque elétrico — eu sei que está sendo difícil, mas eu estou aqui, e agora sua filha. Ela precisa de você, eu preciso. Tenho pedido todos os dias para Deus cuidar de você, mas se esforça, por favor, sozinho Ele não pode.  

– Priscila? – A voz do meu pai pareceu tranquila, ele me chamou como se eu estivesse olhando pra ele, o que achei estranho, porque eu continuava na escuridão. Mas foi quando ele apertou minha mão que entendi, eu estava segurando a sua, na verdade ele apenas retribuiu o aperto. Eu estava conseguindo, aos pouquinhos.

Tentei mais uma vez descolar minhas pálpebras e dessa vez consegui e mesmo com a vista um pouco embaçada e o incomodo da luz que me pareceu muito forte, a primeira coisa que eu vi foi o sorriso receptivo do meu pai.

– Oh minha filha, graças a Deus.

– Bem-vinda de volta Priscila!

Aos poucos fui me acostumando com a claridade, mas não soltei a mão do meu pai,  ele me passava a sensação de que não iria deixar eu voltar pra escuridão.

– Como você está se sentindo, Priscila?

Grande foi minha surpresa quando tentei responder e a voz não saiu, minha garganta estava seca e eu simplesmente não conseguia falar nada.

– Calma, sua voz não sair é normal. Você passou dias sem falar, então sua garganta deve está seca, beba esse copo com água.

Eu obedeci, torcendo pra que ele tivesse certo e não fosse nada demais. Quando a água passou pela garganta senti uma dor fina, mas ignorei. Um minuto depois senti a melhora, a boca já não estava tão seca, e quando tentei falar novamente a voz saiu baixinha.

– Pai…

– Como você está se sentido?

– Cadê ela? – Ele não pareceu surpreso por eu já saber que era uma menina.

– Logo você vai poder vê ela.

– O que aconteceu?

– Do que você lembra? – Quis saber o médico.

Forcei minha mente um pouco e respondi:

– De estar no carro e sentir muita dor, depois acho que apaguei.

– Eu te trouxe para o hospital e assim que chegamos te colocaram na sala de parto.

– O que foi muito complicado, Priscila, você estava apagada e fizemos uma cesária.

– E minha filha?

– Ela estava enrolada no cordão umbilical, – continuou e senti o medo tomar conta de mim, aquela informação era totalmente nova e mesmo não sabendo o que significava, entendi que era algo ruim – se não te operássemos naquela hora ela poderia morrer.

O primeiro aperto no coração como mãe veio e foi uma sensação horrível.

– Ela já estava rochinha, mas não se preocupe deu tudo certo. – Acrescentou rapidamente.

– E cadê ela?

– Está na incubadora, é onde os bebês que nascem prematuros ficam. – Meu pai já estava toda atualizado dos setores do hospital, o que me tranquilizou, porque tive certeza que ele estava cuidando para que minha filha ficasse bem.

– Quero vê-la, por favor. – Pedi.

– Priscila, nós vamos trazê-la, mas primeiro precisamos nos certificar de que você está bem.

– E comigo, o que aconteceu?

O médico se prontificou em prosseguir.

– Depois que passou o efeito da anestesia, você acordou por alguns segundos, perguntou por ela, mas antes que a trouxéssemos você apagou novamente. – Eu não lembrava daquilo. – Como eu disse, o parto tinha sido complicado, você perdeu muito sangue, chegamos a cogitar a possibilidade de salvar uma de vocês duas, mas milagrosamente vocês resistiram.

– Apaguei por quanto tempo?

– Três dias. – ‘Uau’, foi meu único pensamento.

– Como você está se sentindo?

– Estou bem, pai, a cabeça está doendo um pouco, mas só isso. Eu quero vê minha filha.

Meu pai olhou para o médico, parecia pedir silenciosamente que permitisse aquele encontro, e pelo visto convenceu.

– Tudo bem, irei pedir pra enfermeira trazê-la.

Eu estava super ansiosa para vê-la pela primeira vez, então agradeci quando meu pai começou a falar que a Clara e a Marta tinham ido todos os dias ao hospital. Aquele assunto me distraiu até ver pelo vidro a enfermeira trazendo algo enrolado em um pano, era tão pequeno que eu podia jurar, antes mesmo de vê, que conseguiria pegar com uma mão só.

Meu coração acelerou, olhei pro meu pai, e ele sorriu, a enfermeira entrou no quarto e foi se aproximando. Cada vez que ela chegava mais perto, eu sentia mais vontade de vê.

– Priscila, te apresento sua filha, que provavelmente se chamará Yasmim. – Ele brincou e eu sorri, mas foi de nervoso. Eu nem tinha visto ela ainda e já sentia que de alguma maneira aquela criança me dominava.

Abri os braços e a enfermeira, com muito cuidado, me entregou. Ela era da minha cor, mas apenas isso era meu, todo o resto parecia com o Fumaça, inclusive os olhos.

Ela me olhava atentamente como se estivesse tentando identificar aquela estranha que a segurava. Eu vi seu pai naquele olhar e no mesmo instante senti vontade de chorar, será que ele ficaria orgulhoso da nossa filha? Gosto de acreditar que sim. Segurei as lágrimas, e fiquei estudando cada parte daquele pequeno ser. Eu fiz um carinho em sua cabeça, e então ela sorriu, um sorriso rápido e tímido, mas foi o suficiente. Naquele instante eu entendi minha vida, foi como vê um flash de todos os momentos, eu entendi finalmente como Deus trabalha.

Assim que aquela criança tocou meus braços uma espécie diferente de amor encheu meu coração, naquele momento houve uma troca silenciosa de promessas. Eu prometendo cuidar, proteger e garantir que ela tivesse a melhor vida possível, e em troca ela prometia vim correndo pros meus braços no final de cada dia com um sorriso no rosto de agradecimento e mostrando o quanto estava segura e feliz.

E com Deus não seria assim? Ele cuida de nós, nos protege até de nossas próprias escolhas e no fim sempre temos que lembrar que devemos nossa vida a Ele, não como um fardo, mas como uma forma de agradecimento.  

Naquele breve instante com minha filha compreendi a verdade que neguei tantas vezes: Mesmo que eu fazendo às coisas da minha forma Ele deu um jeito de transformar o mal em bem. Mesmo eu fazendo diversas escolhas erradas, virando as costas para Seus ensinamentos, Ele agiu como Pai e não me deixou só. Mesmo que eu fizesse pouco caso de Sua presença Ele sempre esteve por perto.

Entender isso fez com que eu me sentisse a pior pessoa do universo. 

– O que foi filha, porque você está chorando assim?

– Vou levar a criança até ela se acalmar. – Disse a enfermeira, tirando a bebê dos meus braços e sendo seguida pelo médico até a porta.

– Eu sou uma pessoa horrível, Deus deve me odiar.

– Não diga isso, – me abraçou – Deus não odeia ninguém.

– Eu O culpava por algumas coisas, quando na verdade Ele sempre ajudou, mesmo quando escolhi errado. 

– Ele ama tanto você que nunca te abandonou. Deus não se importa com nossos pecados quando nos arrependemos, Ele não olha pro que fazemos de errado, Ele olha para o nosso arrependimento e sinceridade.

– Mas pai…

– Não tem mais nem meio mais Priscila. Assim como eu e sua… – Ele parou no meio da frase. – Assim como eu te esperei de braços abertos, Deus está esperando por você.

Abracei meu pai com mais força e em pensamento falei com Deus.

“Senhor, obrigada por tudo, por cuidar de mim mesmo quando não pedi Sua ajuda. Por mesmo sem que eu percebesse ter sarado minhas feridas e ter me dado forças para seguir em frente. Sei que não mereço e em troca te entrego minha vida.”

– Tem uma pessoa querendo te vê. – Quando ele se afastou não me senti sozinha, pelo contrário, Alguém continuou me abraçando e aquilo me fez sorrir de verdade, como há muitos meses eu não fazia, ou melhor, como eu nunca tinha sorrido na vida.  

– É a Clara?

Ele hesitou com a pergunta e achei estranho.

–É o Wilson, mas se você não quiser vê-lo tudo bem.

– Pode mandar ele entrar. – Essa permissão aumentou a sensação de paz que eu acabara de descobrir.    

– Tem certeza? – Meu pai estava surpreso.

– Sim. Pai só uma coisa, você perdoou minha mãe?

Ele refletiu na resposta por alguns segundos e por fim disse:

– Quando temos consciência que precisamos de perdão diante de Deus não nos importamos em perdoar o próximo. Não estou dizendo que foi fácil, ainda sinto a dor de ter sido enganado, principalmente por sua mãe, mas Deus tem me ajudado, quando eu choro Ele me conforta. Sem mencionar que está sempre me mostrando o lado bom de tudo isso.

– Que seria?

– Você. – Parou por alguns segundos e acrescentou:

– O mais difícil foi me perdoar, mas com muita luta e ajuda Dele eu consegui. Entendi que ficar remoendo o passado não ia adiantar de nada, principalmente quando recebi outra chance de fazer tudo certo.

Meu pai tinha sido levado a julgamento por cumplicidade em ocultação de cadáver em um homicídio culposo, mas milagrosamente o júri o perdoou.

Eu sorri e ele saiu.

Enquanto meu pai foi chamar o Wilson fiquei pensando em um milhão de coisas para dizer. Primeiro tive vontade de gritar, dizer que o que ele fez não era certo, mas lembrei de que eu não tinha o direito de julgá-lo. Depois pensei em jogar em sua cara como eu era feliz com o pai que ele me dera, mas não falei nem uma coisa nem outra.

– Priscila?

– Oi. – Respondi tímida.

– Como você está se sentindo?

– Bem. – Meu nervosismo era nítido.

– Faz tempo que quero falar com você… – Foi se aproximando e confesso que fiquei meio desconfortável.

“Mas foi covarde demais pra isso.”

– Eu imagino.

– Priscila, eu não contei tudo por que você descobriu, já tinha decidido fazer isso quando você fugiu.

– Ah.

Diante do meu silêncio ele continuou, mas não menos nervoso do que eu.

– Não pense que deixei de pensar um dia sequer em você. Sempre que ti via com a Clara me sentia a pior pessoa do mundo por ter sido covarde demais para assumir meus erros.

– Então eu fui um erro? – Não pude deixar essa passar.

– Claro que não! O meu erro foi trair minha esposa, mas você não tinha culpa de nada e eu não tinha o direito de fazer o que fiz, mas confesso que senti orgulho de você a cada ano que via como estava crescendo bem. Tentava amenizar minha culpa dizendo que tinha feito a escolha certa, pois eu nunca seria capaz de fazer o que o Antônio fez.

“Porém não posso negar que descobrir a verdade sobre sua mãe me deixou sem chão. Desde então não consegui dormir direito imaginando o que poderia ter acontecido com você e que a culpa seria sempre minha. Pode não parecer verdade, mas à minha maneira eu amo você. Não sou capaz de desenhar aqui como me senti sempre que íamos a alguma apresentação da escola de vocês e era sempre para os braços do Antônio que você corria. De certa forma, parte de mim esperava que você viesse até mim. Eu sempre tive um relacionamento um pouco conturbado com a Clara porque sempre me julguei um péssimo pai por ter te abandonado.

Quando descobri que você era alvo do Miguel vi uma chance de me redimir, imaginei que se te salvasse, um dia você poderia me perdoar. Era como se te manter segura fizesse você ter uma dívida comigo e eu só ia exigir o seu perdão. Mas eu não sou capaz disso, Priscila, não posso exigir nada de você. Sei que tenho sido um péssimo homem, e por falar nisso, sua tia não tem culpa de nada. Ela foi pressionada por mim. Ela te ama.

Sei que não mereço o seu perdão e por isso passei tanto tempo sem te procurar, tinha medo da sua reação, de ouvir de você todas as verdades e acusações que me fiz. Mas parte de mim também tem medo de te decepcionar novamente, por isso a escolha é sua daqui pra frente. A imprensa está em cima da minha família, eles estão fazendo especulações, mas nada confirmado, e não será se você não quiser. Eu não tenho mais receio de gritar pro mundo que você é minha filha, mas tenho muito medo de não suportar a ideia de ti machucar outra vez. Por isso, Priscila, sinta-se à vontade para me odiar.”

Quando ele terminou de falar eu estava sem ar. Era como se parte de mim tivesse sempre desejado ouvir aquilo. A alegria que senti por aquelas palavras parecerem tão reais era maior do que eu gostaria e para minha surpresa eu não tive outra reação senão a de abraçá-lo – acredite, aquilo pareceu a coisa mais certo que já tinha feito na vida.

Capítulo 41

Quatro anos depois

“Eis que faço novas todas as coisas.” (Apocalipse 21:5)

– E foi assim que tudo aconteceu.

O silêncio em resposta me fez entender que de nada tinha adiantado eu contar toda a história. Ela simplesmente não ouvira.

– Mãe, eu já vou indo, o pai ficou com a Nanda e sempre tenho que levá-la ao dentista de tanto doce que eles comem quando estão só. – Eu disse, mesmo sabendo que minha presença ali não passava de um borrão.

Já vai fazer cinco anos que minha mãe está internada e não houve nenhuma melhora em seu quadro. Meu pai sempre vem visitá-la, com o tempo isso deixou de ser algo doloroso para ele, mas pra mim não. Eu nunca me acostumei – e desconfio que isso nunca vai acontecer – em vê-la com o olhar distante, perdida em seu próprio mundo.

Essa é a terceira vez que eu venho e isso só aconteceu porque os médicos tinham esperança de que ela reagisse caso eu lhe contasse tudo o que tinha acontecido. Mas infelizmente ela não mudou de posição nem por um segundo.  

– Como foi com sua mãe? – Perguntou cheio de esperança assim que entrei em casa.

– Tudo na mesma, pai.

Ele não disse nada e eu acrescentei.

– O senhor precisa continuar sua vida, eu tenho certeza que Deus não quer vê-lo sozinho pra sempre. Infelizmente não podemos fazer mais nada pela mamãe, apenas orar.

– E existe coisa mais valiosa que a oração? Sem falar que é na saúde e na doença, lembra? – Por mais que tentasse, ele não conseguia esconder a tristeza na voz ao lembrar do estado de minha mãe.

Como eu não tinha resposta, escolhi abraçá-lo.

– Cadê a Nanda? 

– Já foi dormi.

Segui até o quarto, que antes era meu, para dá uma conferida nela e a encontrei de olhos bem abertos. 

– Pensei que já estivesse dormindo.

– Estava, mas tive um sonho ruim e acordei. – Respondeu com a voz dengosa.

– E por que não chamou seu avô? – Perguntei sentando na cama.  

– Porque eu queria falar com você, mamãe. – Ela falava tão sério que parecia até gente grande, tive vontade de rir, mas passou assim que ela continuou. – Eu sonhei com o papai, ele estava me empurrando na cadeira de balanço, mas ai quando eu olhava pra trás ele não tinha rosto. – Ouvir aquilo partiu meu coração. – Por que você nunca me mostrou uma foto dele? Todo mundo na minha escola pergunta como ele era e não sei falar nada.   

– Meu amor, – sentei ela nas minhas pernas e aconcheguei em meus braços – seu pai não gostava de tirar fotos, mas se você quiser saber como ele era é só se olhar no espelho. – Ela me olhou confusa. – Você é igualzinha a ele. Sabe quando você está assistindo um desenho que dá risada? – Ela confirmou com a cabeça. – Você ri igual a ele. – Seus olhos profundos se iluminaram com aquela revelação.

– Você não está mentindo pra eu ficar mais feliz?

– Eu já fiz isso alguma fez?

Ela não respondeu, mas deu um abraço que iluminou meu coração.

Pensei em dizer que ela tinha os mesmos olhos dele, sem falar na mesma personalidade que tendia a me levar a loucura e ao mesmo tempo me fazer amá-la ainda mais, mas deixei isso para outra vez.

– Fica um pouquinho aqui?

– Claro! – Ela se deitou novamente, se enrolou com a única lembrança do pai que tinha – uma camisa – e fechou os olhos. Fiquei observando enquanto tentava pegar no sono novamente e me perguntei o que ela diria se soubesse de tudo o que os pais já passaram. Confesso que já cogitei nunca contar tudo pra ela, mas lembro como se senti quando descobri a própria verdade da minha vida.  Doeu mais saber que tinha sido enganada do que ter que lhe dá com tudo.

Porém eu só farei isso quando ela estiver maior e for capaz de entender tudo. Por hora ela só quer criar as próprias imagens do Fumaça e eu não posso lhe tirar esse direito. 

Capítulo 42

“Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.” (Apocalipse 21:4)

– Nós temos que ir, Pri, vai ser o máximo!

– Eu não vou. Odeio muita gente em cima de mim.

– O pai vai querer você lá, – eu sabia que a intenção dela não era agradá-lo – você sabe como a imprensa fica em cima sempre que abre mais uma loja.

– Ele sabe que odeio câmeras.

– Priscila, você precisa ter uma vida social, ficar indo só pra faculdade e pro trabalho não vai ti fazer arrumar um namorado.

– Primeiro, eu tenho uma vida social e segundo não quero arrumar um namorado!

– E eu finjo que acredito.

A Clara tem pegado no meu pé com isso há algum tempo e já estou ficando irritada.

– Você não tinha aula agora?

– Fui!

Minha aula só começava em meia hora, então decidi ir lanchar antes. 

Fiz o pedido e estava esperando na mesa, quando um rosto conhecido entrou.

Vê aquela fisionomia me fez voltar no tempo para um período em que não passava de uma menina mimada. Um tempo em que eu não fazia ideia se ia sobreviver a guerra que travava com Deus.

 Era o Ricardo. Não pensei duas vezes e fui correndo falar com ele.

– O que você está fazendo aqui? Não ouviu falar que já sou crescida e não preciso de proteção. – Ele se virou assustado na direção da minha voz e ficou surpreso em me ver.

– Mas pelo visto não deixou de ser marrenta. – Brincou e me abraçou. Aquela proximidade fez meu coração bater mais forte, acredito que pela alegria de ver um amigo.

Esperei que ele fizesse o pedido e fomos em direção de onde eu estava sentada.

– O que você está fazendo aqui?

– Estudando. – Continuava com o mesmo rosto de menino, apesar dos traços mais maduros.

– Desde quando policial faz faculdade?

– Desde que ele descobre que não nasceu pra isso e resolve tentar direito. Passei em um vestibular nessa universidade e aqui estou. 

– Eu sempre soube que você não levava jeito pra coisa. – Disparei e me arrependi na hora. – Desculpe.

– Pena que eu demorei tanto pra descobrir.

– Seu fraco ainda é acreditar nas pessoas?

– Sim. – Ele sorriu.

– Então fica longe de direito criminal.

– Pode deixar, e você o que anda fazendo?

 – Estudando, trabalhando e sendo mãe de uma menina.

– Fico feliz que tenha se acertado. – Ele pareceu tão sincero que por algum motivo fiquei sem graça.  

– Como você sabe? – Perguntei diminuindo o volume da voz.  

– Você está diferente. – Tomei isso como um elogio. – Qual o nome da sua filha?

– Fernanda e antes que pergunte não se parece comigo.

– Sério? – Ele pareceu decepcionado. – Isso é muito bom pra ela, – acrescentou e eu rir – já é difícil controlar uma pessoa teimosa, imagine duas.

– Do mesmo jeito que você nunca controlou sua língua, né?

– Esse foi um dos motivos que me fizeram sair da polícia. Vou tentar usar esse defeito para o bem.

– Acho que agora você irá se encaixar. – Falei com sinceridade.

Ele assentiu, meio sem graça, e ficou me encarando por uns 4 segundos – acredite, eu contei, pois sustentei o olhar, mas posso jurar que estava vermelha.

– E sua mãe como está?  – De repente sua voz ficou meio rouca, tremida. Será que ele estava nervoso?

Fiz um resumo do estado dela e da minha última visita.

– Imagino o quanto seja difícil ter que lidar com essa situação, principalmente seu pai.

– Verdade, mas uma vez alguém me disse que não somos capazes de nos acostumarmos com a dor, porém podemos aprender a lidar com ela, e acho que é isso que estamos fazendo. Cada dia descobrimos uma nova maneira de enfrentar a situação.

Seus olhos se iluminaram.

– Você ainda lembra disso?

– Claro! – Admiti meio envergonhada.

Começamos a conversar de outras coisas, ele fez algumas perguntas sobre a Nanda, e por algum motivo o clima pareceu mais leve do que o normal.  

– E sua tia?

– Está bem, sempre vai lá em casa, conversa com a Nanda, tem proximidade com a gente, mas nossa relação continua sendo de filha e sobrinha. Apesar de não ter mais raiva dela, ainda é estranha vê-la como mãe.

– Fico realmente feliz que você esteja enfrentando tudo da maneira certa.

– Quando paramos de lutar contra Deus sabemos o que e como fazer, não é?

– É sim, e pelo visto você só fingia desinteresse no que eu falava.

– Eu nunca fiz isso! – Fiz cara de ofendida. – Sempre levei muito a sério suas palavras fora de hora.

Nós dois rimos e pela primeira vez em anos meu coração bateu sutilmente mais forte – dessa vez, eu tinha certeza que não era pelo encontro com um amigo –. Talvez tenha sido impressão minha, mas acho que os olhos do Ricardo ficaram mais brilhosos quando o garçom se aproximou e disse que meu pedido demoraria um pouco.  

Epílogo

– Amor, vamos chegar atrasados na apresentação. Já está todo mundo lá na sala.

– Só estou calçando a sandália!

Ele entrou no quarto todo agoniado, aquilo costumava me deixar maluca, será que não podia entrar como uma pessoa normal?

– Você disse isso há vinte minutos. A Nanda já se desarrumou toda, a Clara está tendo que colocar o cabelo dela no lugar, mas não sei se vai conseguir.

– Será que três homens e uma mulher não conseguem controlar uma menina de oito anos? – Perguntei.

– Não quando essa garota puxou a mãe! – Alfinetou e eu sorri. Calcei a sandália e me levantei, ele ainda estava me aguardando na porta. 

– Você está linda. – O elogio e seu olhar percorrendo todo o meu corpo me causou calafrios. Dei um abraço nele para que a sensação demorasse um pouco mais.

– Como acabamos assim? – Sussurrei em seu ouvido.

– A pergunta certa é: Como o policial ajuizado terminou com a adolescente rebelde e revoltada.

– Ei! Eu não sou nem rebelde nem revoltada! – Dei uma tapa nele de brincadeira, e fui retribuída com um beijo, que como sempre fez meu coração disparar.

– Correção: você era. – Disse passando a boca pelo meu pescoço.

– Não era você que estava apressado?

– Eles podem esperar.

– Cuidado, você não consegue enfrentar dois pais.

– Se você diz… – Voltou sua atenção para minha boca e  eu realmente desejei que não que não tivéssemos que sair.

– Mãe! – A Nanda gritou ainda na sala.

– Essa eu não enfrento.

Dei uma risada, parei o beijo e me afastei um pouco dele. Minha filha entrou no quarto na mesma agonia do Ricardo. 

– Vamos gente! Vamos chegar atrasados! – Ela disse puxando o Ricardo pelo braço e ele não fez resistência para obedecer.

– Nós já estávamos indo, mas sua mãe demorou para calçar a sandália.

– Vamos deixar ela, tio Ricardo.  

Os dois saíram rindo e me obrigando a correr para alcançá-los.

Quando cheguei à sala dei de cara com todos já na porta, inclusive a Marta e minha tia – que tinha acabado de chegar –. Fiz uma prece silenciosa, agradecendo a Deus por todas as pessoas que Ele colocou em minha vida e por ter me dado a chance de recomeçar com outra pessoa, mesmo quando achei que isso não seria possível.

Olhei pra Nanda e lembrei do Fumaça, senti saudades dele, mas eu sabia que ficar pressa ao passado não ia adianta nada. Se eu pudesse voltar atrás faria, sim, tudo diferente, mas ai quem sabe, eu não tivesse descoberto toda verdade a tempo, não tivesse ganhado mais um pai, uma irmã, não teria conhecido o lado vó da Marta, já que ela trata a Nanda como se fosse da Clara e não estaria casada com o Ricardo.

Porém o mais importante: não teria aprendido a perdoar de uma forma tão profunda. Jamais teria descoberto que podemos ser feliz – apesar de nossas escolhas erradas – quando somos humildes e reconhecemos que precisamos de Deus. Por fim, não estaria aqui contando minha história para todas as pessoas que desejam liberdade ou que já descobriram os riscos que viver buscando ser livre trás. Existe sim final feliz, eu sou a prova viva disso.  Deus transformou os males da minha vida em bem, e hoje eu sei que nunca tive motivos para odiá – Lo.

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